sábado, 18 de fevereiro de 2017

O PARADOXO DA CRISE

As crises sempre fizeram parte da história da humanidade. Algumas podem ser evitadas, outras apenas adiadas, mas aquelas que inesperada e inevitavelmente se instalam trazem medo e instabilidade para o indivíduo e a sociedade. Muitos sucumbem, mas outros são erguidos. Muitos são enfraquecidos, mas alguns ficam ainda mais fortes. 
As crises sempre serviram de oportunidade para uma boa avaliação. Quando chegam, é tempo de fazer uma checklist. Elas oferecem mecanismos de onde extraímos lições preciosas para a nossa vida e servem até para a mudança de rota. Há histórias de pessoas que, diante do aparecimento de uma crise, adotaram um novo estilo de vida, com novos valores agregados, o singelo assumindo uma perspectiva de encanto, o tempo passando a ser valorizado, e a família recebendo uma atenção especial e singular. 
A natureza das crises são diversas. Pode ser de cunho existencial, interna e externa, pessoal, familiar, social, estrutural, econômica, política, moral e espiritual. Além disso, elas são oportunas para o florescimento de ideologias boas e más. Durante o seu “nascimento” e a sua permanência surgem os oportunistas para semear o joio no meio do trigo.
 Para exemplificar o que falamos, citamos o historiador Geoffrey Blainey, que afirma que a grande depressão econômica, após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), serviu de combustível para o comunismo e o fascismo.[1] Hoje todos sabemos que ambos fizeram um estrago irreparável na história da humanidade. Dessas correntes ideológicas surgiram homens autoritaristas, sanguinários e truculentos que perseguiram e mataram milhares de pessoas, além de levar várias populações à miséria.
A história do povo brasileiro tem muitos exemplos de crises. Elas permeiam a nossa trajetória desde o período colonial até a redemocratização. De alguma forma sempre estiveram presentes nos campos social, político e econômico. É necessário aprender e apreender de nossa própria biografia,  ler aquilo que aconteceu no passado e ficar atento com os acontecimentos presenciados no presente. A leitura da crise ocorrida é importante, pois pode ajudar no diagnóstico do colapso presente para então encontrarmos soluções.
Sob outro ponto de vista, durante as crises surgem homens que se despontam com soluções cabíveis, urgentes, necessárias, precisas e relevantes. Mas também líderes populistas e autoritários, cujo discurso é moldado pelos sofismas. Falam mentiras que se parecem verdades. Ludibriam a mente do incauto. Com isso, enganam o povo. Recentemente, vimos o que líderes populistas fizeram com o nosso país, bem como com nações vizinhas: mergulharam a economia e o moral de seu povo num poço profundo, de onde não sabemos quando vamos sair.
Dentre os vários paradoxos que uma crise pode apresentar, uma diz respeito à revelação que faz ser quem somos. Já sabíamos disso, mas, como efeito empírico, no dia 3 de fevereiro de 2017, ficou provado que a sociedade reflete o que cada indivíduo de verdade é. Com a instalação de uma convulsão na segurança pública do Estado do Espírito Santo - provocada por algumas mulheres que impediram os militares de cumprir a sua missão de agente protetor da sociedade, a fim de reivindicar aumento de salário, melhores condições de trabalho etc., surgiu uma oportunidade de colocar em tela um pouco de cada agente social.
Ficamos alarmados com os crimes praticados. Arrombamentos e saques de lojas. Assaltos e vários homicídios. Roubos, furtos e ônibus incendiados. Porém, além de todo caos, constatamos com tristeza que alguns indivíduos que tinham o NADA CONSTA impecável aproveitaram-se da situação para revelar o paradoxo da crise. Diversos motoristas não paravam no semáforo. Aproveitaram a circunstância nefasta para ignorar as normas de trânsito. Ficamos chocados.
Ainda outro paradoxo pode ser visto por intermédio dos veículos de comunicação. Embora tenham um papel importante no contexto social, ao mesmo tempo que divulga e faz cobranças necessárias, são instrumentos geradores de “pesadelo” social.
Finalizamos nossa abordagem com o modo como os chineses compreendem a crise. “Quando escrita em chinês, a palavra possui dois caracteres: um representa perigo e o outro oportunidade”. Portanto, inegavelmente, o risco existe num tempo de crise, mas também apresenta sublimes oportunidades. Precisamos ficar alertas, mas também atentos para as boas chances que surgem.  


[1] BLAINEY, Geoffrey; Uma breve história do mundo. São Paulo: Editora Fundamento Educacional, 2009. p. 297, 298.

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