sexta-feira, 25 de março de 2011

EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?

EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?

Li recentemente um livro que ganhei de um amigo. O livro tem um título inteligente, criativo e relevante. Apreciei bastante o modo de escrever do autor. Ele escreve com simplicidade, humor e algumas vezes com ironia. Embora a obra possua vários estigmas preciosos, entretanto, não pude deixar de observar alguns deslizes infantis fruto da formação teológica do autor. Além disso, ela possui algumas repetições cansativas, traços peculiares do seu estilo, os quais quase me levaram a desistência acerca da conclusão dessa leitura. Mas, uma coisa confesso, por conta dos temas ou assuntos dos capítulos fui até o fim. Contudo, ainda preciso observar uma coisa: o autor também escreve com paixão sobre aquilo que acredita ser correto e verdadeiro. Além disso, ele está com o coração cheio de boas intenções. Seu desejo é vacinar a igreja de Deus contra os desvios e equívocos atuais que rondam o povo do Senhor. Mas, nem sempre as boas intenções têm amparo bíblico teológico. Sendo assim, Ciro tropeça em suas próprias palavras nalgumas abordagens, não por falta de conhecimento, mas por conta da sua formação teológica.

Antes, no entanto, de fazer algumas considerações, gostaria de dizer que, nas minhas constatações é fruto de conhecimento doutrinário, teológico, e, sobretudo bíblico. É verdade que não existe neutralidade na hora de escrever ou ponderar sobre algum ponto sobre o qual concordamos ou discordamos. De modo que estou convencido de que durante a leitura da obra fui edificado, mas também não deixei de analisá-la sobre o crivo da Escritura e da teologia reformada. Aliás, ninguém absolutamente está isento da sua formação teológica ou bagagem de conhecimento e experiência. Estou certo que nisso Ciro também concorda. Também preciso falar, antes de prosseguir, que sou servo de Cristo Jesus, alcançado pela graça imerecida do Senhor Deus e transformado pelo verdadeiro evangelho, no qual Ciro crê e prega.

Minha intenção não é fazer uma resenha de todo o livro, mas considerar apologeticamente alguns pontos do capitulo – 5, cujo título é: “calvinista ou arminianista?” O apego exacerbado por qualquer corrente teológica é apelidado por Ciro nesse capítulo de Evangelho teologicocêntrico. Ciro propõe dissertar sobre duas correntes teológicas: calvinismo e arminianismo. O autor esboça uma preocupação que também a tenho, a saber: mostrar que teologia não é Palavra de Deus. Nisso concordamos! Entretanto, até onde sei, nenhuma dessas correntes negam a inspiração da Escritura, mesmo com pontos de vista doutrinário divergentes sobre outros aspectos. Elas, contudo, afirmam que as Escrituras Sagradas Antigo Testamento e Novo Testamento são totalmente inspiradas pelo Espírito de Deus. De modo que é preciso ter muita cautela para asseverar sobre tais pressuposições sem antes conceituar os termos, bem como sobre a necessidade de explicar os mesmos. A obra propõe falar sobre tais correntes, mas logo a seguir diz que “qualquer teologia que rejeite a inspiração plenária da Palavra de Deus deve ser rechaçada”, logo, as duas correntes estariam sobre o crivo dessa afirmação, visto que seu objetivo é discorrer a respeito delas.

Logo a seguir Paulo é tomado como exemplo supremo de teólogo. Ora, como nos colocar no mesmo patamar do apóstolo Paulo. Ele não fazia teologia como os teólogos a partir do primeiro século da era cristã. Claro que nenhum teólogo no sentido estrito da palavra não pode nem deve ser comparado ao Apóstolo Paulo. Nós fazemos teologia, Paulo não. Nós criamos formulações teológicas, mas Paulo falava movido pelo Espírito Santo de Deus, de maneira que os seus escritos são Palavras de Deus, pois foram inspirados. Todos os teólogos estão ou pelo menos deveriam está estribado sobre pressupostos teológicos. Alguns têm uma teologia boa ou saudável, outros não. Da mesma forma, todos ensinam doutrina. Alguns ensinam doutrina de homens e do diabo, outros ensinam a doutrina bíblica.

Depois de fazer a introdução, Ciro fala sobre a teologia romanista, do darwinismo, e consequentemente da teoria da evolução. Agora, Ciro entra no campo e pisa no solo sobre o qual estava se preparando para apoiar os seus pés argumentativos. Entretanto, a cosmovisão do autor é dicotômica, pois entende que não existe coerência entre fé e ciência. Ele se esquece ou não sabe que toda verdade é verdade de Deus. O prof. Adauto Lourenço afirma que: “Toda ciência devidamente estabelecida, bem como toda a Escritura corretamente interpretada nunca entrarão em contradição”. Portanto, não existe incoerência entre ciência e fé. A bem da verdade existe uma confusão conceitual nas colocações do autor, pois confunde a teoria da evolução com a ciência. Ciro, permita-me discordar, evolução não é ciência. Evolução é uma teoria. Para ele “existe uma tentativa de fazer-nos crer que Bíblia e ciência andam lado a lado, sabemos que tudo isso é estratégia do inimigo para nos confundir, minando a nossa fé”. Claro que não aceitamos a teoria da evolução como ciência nem precisamos da ciência para autenticar aquilo que cremos, mas não vemos nenhuma incoerência entre a fé e a ciência. Existem diversas obras sobre tais assuntos, as quais foram escritas por homens de Deus.

Além disso, Ciro deseja atacar as doutrinas da graça, as quais foram sistematizadas por João Calvino. Mas, Santo Agostinho, já havia dissertado sobre elas, além do apóstolo Paulo é claro! Ciro começa a sua discordância com a doutrina da eleição. Ciro, não peça Calvino para discordar, a sua discordância é com a Escritura. Ciro diz: “Caro Calvino, permita-me discordar”. “Segundo as Santas Escrituras, a escolha para a salvação foi, primeiramente, coletiva – Deus elegeu em Cristo o seu povo (Ef 1. 4, 5; 1Pe 2. 9)”. Caro colega, permita-me discordar também. Qualquer teólogo seja calvinista ou arminianista ou de outra corrente teológica jamais dirá que Calvino negava que Deus elegeu em Cristo o seu povo. Afirmar que a eleição é coletiva somente com a intenção de negar a eleição individual é uma tolice. A eleição é coletiva, porque Deus escolheu um povo, mas o povo eleito é formado por indivíduos, logo, não existe nada mirabolante teologicamente na sua afirmação. Esse povo, o qual é chamado de corpo de Cristo foi escolhido antes da fundação do mundo, mas alcançado individualmente no tempo ou na história humana. É preciso entender também que o povo não é alcançado para se tornar eleito, o povo é eleito, e, por isso é alcançado. Assim como a Escritura afirma que Cristo foi morto antes da fundação do mundo, mas a concretização desse fato tenha ocorrido na história da humanidade. Ciro nega que não existe individuo eleito para salvação nem rejeitado. Contudo, a Bíblia está repleta de porções sobre indivíduos eleitos para a salvação em Cristo, como de indivíduos criados e deixados para a perdição. Na verdade, “O SENHOR fez todas as coisas para determinados fins e até o perverso para o dia da calamidade” (Pv 16. 4).

A quantidade de textos bíblicos que Ciro cita fora do contexto para sustentar sua argumentação é inúmera, mas todos sem a devida compreensão do todo. Ele faz afirmações infundadas que o Senhor Jesus jamais fez. Por exemplo, Ciro afirma que: “Jesus enfatizou que a eleição individual é para quem aceita o seu chamamento geral para a salvação (Mt 11. 28-30)”. Notem que não existe nada acerca disso neste texto. Ele diz que Jesus “revelou que, das multidões que ouvem o Evangelho, apenas uma parte o segue (Mt 22. 14)”. Por que será que da multidão chamada, apenas uma parte segue o Senhor? Com certeza Ciro dirá que é por causa do livre arbítrio. Mas, a resposta não se encontra no evangelho teologicocêntrico, mas na Escritura. Vejamos o que ela tem a nos dizer sobre essa verdade. Por que algumas pessoas ouvem o evangelho e não crêem? Em primeiro lugar, Jesus disse que elas não crêem porque são incapazes de ouvir sua palavra. Aqui está uma doutrina que Ciro conhece superficialmente, a doutrina da depravação total. Todos os homens nascem mortos. Eles não tem predileção pelas coisas espirituais (Ef 2. 1, 5; Rm 3. 9-18). Em segundo lugar, Jesus disse que elas são filhas do diabo. Existem pessoas que não pertencem a Deus, mas ao diabo (Jô 8. 43-47). Muitas pessoas não fazem parte das ovelhas de Cristo. Elas não pertencem aquele grupo por quem Cristo morreu. Em terceiro lugar, Jesus disse: “vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas” (Jo 10. 26). Aos eleitos, Deus concede a fé salvadora. Os eleitos, o Senhor chama eficazmente. O plano eletivo de Deus é perfeito. “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8. 30). Claro que existem dezenas de textos escriturísticos que ensinam essa verdade, mas penso que estes bastam.

Mais adiante Ciro faz uma pergunta no mínimo interessante: “quanto os indivíduos se tornam efetivamente filhos de Deus e parte integrante do povo eleito?”. Ele responde corretamente citando o seguinte texto: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (Jo 1. 12). Embora a pergunta seja interessante, bem como a resposta esteja devidamente correta, contudo, a pergunta relevante a ser feita e consequentemente respondida é a seguinte: na ordus salutus ou ordem da salvação, o que vem primeiro: a fé ou a regeneração? Por que essa pergunta é a pergunta das perguntas para entender a eleição? Simples. Porque todos que receberam, os quais Deus concedeu o privilégio de serem feitos filhos de Deus, aqueles que creram e que ainda crerão, são aqueles que nasceram de Deus. Eles são o que são, tem o que tem por conta ação monergistica de Deus. Deus os regenerou, e, por isso, eles receberam a Jesus como Senhor e Salvador. Eles nasceram do alto, por isso tem o privilégio da filiação divina. Eles nasceram da água e do Espírito, por isso crêem na obra e pessoa de Jesus Cristo. É muito fácil perceber essa verdade bendita, basta continuar a leitura até o versículo 13, o qual diz: “os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1. 13). Por certo, todo leitor inteligente no exercício do seu intelecto chegará à conclusão inequívoca de que a regeneração ou o novo nascimento é efetuado antes da fé. Quem recebe ou crê no Filho de Deus, o Senhor e Salvador, Jesus Cristo, só o faz porque nasceu de Deus. Não existe cooperação humana nesse processo. Se for assim, e de fato é assim, logo, o alvo dessa ação graciosa são os leitos de Deus. Paulo pregou esse evangelho. Logo, todos os expositores bíblicos devem também pregar esse evangelho. Cenas do próximo capítulo... Judas era eleito?

6 comentários:

Anônimo disse...

Rev. Fábio sua habilidade de refutação é realmente dirigida, em primeiro lugar, pela Palavra de Deus e acompanhada pela forma como a interpretamos: teologia reformada
(nível secundário). Parabéns meu irmão realmente a igreja precisa resgatar seu caráter apologético que era tão presente na vida dos apóstolos. Que Deus te abençoe.

Valério

Dalcy disse...

Fico feliz por encontrar um colega pastor, capaz de enchergar falacias como essa, e com habilidade Escrituristica refutar erros teológicos que inclusive esta entrando em muitos araiais reformados. Grato! Que O Eterno te ilumine e continue nessa estrada...

Anônimo disse...

Ei Dalcy,
obrigado por visitar nosso blog, bem como por apreciar esse artigo.
Grande abraço.
Em Cristo, nosso comum Salvador e Senhor,
Pr. Fábio Henrique

Anônimo disse...

Muito Bom esse seu comentário! Deus abençoe pela visão clara e esclarecedora!


Não consigo entender o objetivo de escrever um livro como esse.


Nos meus estudo consegui chegar em uma história impressionante da califórnia...

Certo rapaz sobreu gravemente um acidente. Isso fez com que seus pulmões trabalhasse lentamente, preciso de um socorro muito urgente foi levado ao hospital...lá existia uma equipe médica de plantão pronto a sua chegada... ele pensou que a situação não ia piorar... mas piorou...

Na hora de fazer uma urgente cirurgia, o cirurgião começou a corrigir o outro como era que fazia. O outro por sua vez dizia "sempre fiz assim, foi assim que aprendi na faculdade" pelo que o outro respondeu bravamente "te ensinaram errado".

Sabe o que houve no momento??? Um começou a atacar o outro com palavras, que partiram para a agressão física. O segurança do hospital prrecisou chamar a polícia... Onde o jovem sufocado sem respirar, gritava...."Socorro! Preciso que alguém me ajude... acho que vou morrer!"

Estranho essa história não??? Pois é...mas quando trata-se do cristianismo ela é muito familiar...

Enquanto muitos estão na beira da morte, sem ter o que fazer...

Ficam escrevendo livro, discutindo pontos de vista!

O pior...
Querem mexer na ferida, não com a intenção de ver curado, mas com a intenção de ver sangrando.

Que cristianismo é esse?

Infelizmente,
São guerreiros que não conhecem guerra.
Santos que não conhecem santidade.
Cristianismo que não conhece Cristo.

Abraço á todos

@luiz_cegrac

Anônimo disse...

Armenianos e calvinistas. Quem salva e leva para o céu é o Senhor Jesus. Quem foi morto e ressuscitou foi Jesus.
A porta da Graça ainda está aberta.

Natanael Ribeiro disse...

O comentário sobre o paciente asfixiado num hospital da Califórnia é um incentivo a ignorância e ao silencio dos servos do Senhor diante dos desafios modernos; como afirmava Luther King: O que me impressiona não é o grito dos maus, mas o silencio dos bons.

Abraços fraternos e bençãos dicotômicas a todos.