sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

EU, UM SER IMAGINÁRIO

EU, UM SER IMAGINÁRIO

A máxima do filósofo Rene Descartes “penso, logo existo” , leva-me a seguinte conclusão: Sei que existo para mim mesmo. Com isso sou colocado numa relação de ser comigo mesmo e com tu. Isso porque o pensar vai além de uma reflexão interna, ele pode ganhar uma dimensão materializada. O outro sabe que existo por meio de alguns sentidos. Existo para eu quando me toca, quando me ouve e quando me percebe, logo, permaneço e passo a existir para você. Esse existir é concreto. Aliás, essa é uma maneira pela qual descubro por meio da concretude do meu ser que existo, assim, existo para Eu e para o tu. Assim sendo, sei onde estou e o outro sabe onde estou: aqui, ali e acolá.

Porém, mesmo sabedor acerca de meu existir enquanto pessoa, algumas vezes não existo para o outro; não que o outro não saiba nem me perceba, mas porque nem sempre sou aquilo que a imagem transmite sobre meu real existir. Embora exista para você de modo tangível, audível e ocular, não existo para ti quando me interpreta. A exegese que fazes de mim não é fiel. Na verdade, você sabe que essa não é uma experiência isolada, ou seja, só minha, porém ela também é sua. Você também é assim, incompreensível, difícil de ser entendido e interpretado.

Você já contou nos dedos da mão quantas vezes você foi você mesmo? Nem sempre nós somos nós mesmos, mas somos o que a outra pensa que somos. Às vezes não somos o que somos, mas o que projetamos ilusoriamente, o que os outros pensam que somos. Sabe por quê? Porque existe dentro de nós um ser que almeja ser o que o outro pensa que somos. Existe dentro de cada um de nós alguém que deseja muito atender o padrão erigido pelo outro. Por isso é mais fácil transparecer o estereótipo maquiado do que aquilo que realmente somos. Você não demonstra o que é, mas o que os outros querem que seja. A tentativa de demonstrar aquilo que não somos é uma insígnia dos hipócritas e fariseus. Você há de convir que dentro de cada um de nós existe um fariseu enrustido ou afoito para ser reconhecido e aplaudido.

Por essas e outras razões fica difícil decifrar o que é real daquilo que é ilusório. As pessoas imaginam que somos aquilo se apresenta, podendo ser algo falsificado ou verdadeiro. Essa apresentação pode ser falsificada ou verdadeira. Contudo, o certo é que algumas vezes somos seres imaginários para os outros. Outras vezes somos seres fantasiosos para nós mesmos. Entretanto, o mundo fictício não pode durar toda vida. O homem ilusório precisa dar lugar ao ser real ou verdadeiro. Isso é feito quando ouvimos o chamado procurador do SENHOR Deus: “Onde estás?” (Gn 3. 9). A pergunta vai além da descoberta de onde estamos. Ela quer nos tirar do esconderijo existencial. Sua função pedagógica é nos colocar diante daquele que traz sentença, mas também restauração, perdão e vestes para cobrir a nossa nudez (Gn 3. 21).

Noutra ocasião, a pergunta é feita de outro modo: “Resta ainda, porventura, alguém da casa de Saul, para que use eu de bondade para com ele, ...?” (2Sm 9. 1). Alguém diz: “Ainda há um [...], aleijado de ambos os pés” (2Sm 9. 3). Nem aquele que é procurado para receber bondade se reconhece como ser, mas vê a si mesmo como um cão, e então pergunta: “Quem é teu servo, para teres olhado para um cão morto tal como eu?” (2Sm 9. 8). Porém, aquele que conhece além da moldura externa, pois olha para a essência do existir do ser, diz: “comerá pão sempre à minha mesa” (2Sm 9. 10).

Por isso, existe o OUTRO para quem sou realmente, sem farsa e sem máscaras. Para Ele o meu ser está totalmente despido. Sou visto como exatamente sou. Por Ele sou aceito como sou. Sou amado como sou. Para o OUTRO de quem sou conhecido e para quem sou conhecido, não tem receio de fazer a oração da sondagem: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno” (Sl 139. 23, 24).

Sei existo para os outros e para mim. Mas, nem sempre existo como realmente sou. Contudo, mesmo quando isso acontece, sei que existo para o para o totalmente OUTRO. Ele fez-me entender o real sentido de meu existir. Agora, sei que existo no seu Filho Jesus Cristo. Em alguns momentos continuo sendo um ser imaginário para mim e para ti, mas não para Ele. Compreendi que existo quando O ouvi dizer: “filho, os teus pecados estão perdoados”. Fui liberto do espírito de escravidão. Não vivo mais atemorizado. Agora tenho o espírito de adoção por meio do qual existo. O espírito de adoção habilitou-me a clamar: Aba, Pai (Rm 8. 15). O Espírito falou para meu espírito que sou filho de Deus (Rm 8. 16).. Para Ele, eu não sou um ser imaginário. Nele existo antes dos cosmos serem criados! Nele existo agora na história que está sendo construída! Nele existo depois da consumação de todas as coisas, quando então, habitarei nos novos céus e nova terra! Amém. Você já existe Nele?

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A GRANDEZA DE DEUS

“Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas cousas? Aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais ele chama pelo nome; por ser ele grande em força e forte em poder, nem uma só vem a faltar” ( Is 40:26).

Eu não sou uma teológa, tampouco uma autoridade eclesiástica. Apresento-me apenas como uma filha maravilhada com a grandeza de meu Pai Celeste.Para mim, o versículo 26 de Isaías 40 é a porção das Escrituras que ilustra de modo mais sublime a majestade de nosso Deus, o Supremo Rei do Universo. Gostaria de explicar-lhe o porquê, caro leitor, com uma pergunta e um convite. Você já contemplou o céu noturno, fora da cidade? Tente visualizá-lo.

Acho que você não poderia contar quantas são as estrelas no seu campo de visão; e estou certa de que jamais poderíamos dizer seu total no Espaço. Alguém que sabe muito, realizando alguns cálculos complexos, conseguiria estimá-las em bilhões de bilhões. Mas somente Aquele que sabe todas as coisas é capaz de responder qual seu número exato, e mais: chamá-las, cada uma, pelo nome, sem confundir ou esquecer. A isso só podemos denominar de Onisciência.

A ideia de um batalhão bem contado de estrelas recrutadas uma a uma já é, por si só, magnífica demais para a nossa compreensão, amigo leitor. Contudo, uma leitura mais atenciosa do belo texto em questão revela-nos outro glorioso aspecto de Deus: a sua Onipresença. Os luminares reunidos não constituem um exército qualquer, antes, O exército celeste; e, para formá-lo, a ordem divina fez-se presente até aos recantos mais longínquos do nosso Cosmos.

E Isaías prossegue nessa perfeita definição da glória e da soberania do Senhor, expressando também a Onipotência do Deus Pai. Perceba, leitor, ao ler Isaías 40:26, que as hostes estelares somente se apresentam devido à grandeza de quem as convocou. Ora, as estrelas são corpos celestes muitas vezes maiores do que a Terra. O Sol é um exemplo das menores classes de estrelas presentes no Firmamento – e o Pai da Eternidade pode movê-los.

Esses corpos luminosos, a despeito de sua imponência, são destituídos de autonomia; eles se movimentam no Espaço Sideral impelidos pela interação entre seus campos gravitacionais. Não há volição, apenas Física. E o nosso Deus é o centro de tudo isso, é a suprema força motriz que atrai para si todos os elementos da ciranda espacial. As estrelas não vêm para Ele; Ele é que as traz. Portanto, não há, em toda a vastidão universal: algo que o Criador desconheça; lugar que sua voz não alcance; força que resista à sua vontade soberana e poderosa.

Frente a essas três verdades irrefutáveis da grandeza do SENHOR, só há uma conclusão a que podemos chegar. E ela está expressa nas palavras ditas pelo próprio Deus por intermédio de seu profeta, as quais encontram-se em Isaías 40:25. “A quem, pois, me comparareis para que lhe seja igual? – diz o Santo”

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A VERDADE PAVIMENTA O CAMINHO PARA A JUSTIÇA

A VERDADE PAVIMENTA O CAMINHO PARA A JUSTIÇA

A filosofia pluralista é uma marca da pós-modernidade. Com isso, ela agrega o relativismo e outros ismos. Cada pessoa escolhe ou tem sua própria verdade, mas todas vivem ou devem viver debaixo do mesmo “guarda-chuva” sem constranger o outro. Esse é o axioma pós-moderno. A partir de então, tudo deixa de ser absoluto. Essa fragmentação da verdade é vista na política, na ética e na religião. Ela está presente em todas as facetas da sociedade brasileira.

Contudo, com o abandono dos absolutos e sem os princípios fundamentais que norteiam à vida, a conduta, o procedimento e as ações das pessoas, a sociedade entra em colapso moral. As evidencias estão diante dos nossos olhos. Os telejornais e os demais veículos de comunicação noticiam diariamente as falcatruas na política. Elas ocorrem no governo municipal, estadual e federal. Tais práticas estão impregnadas como um ranço contagioso por toda parte da sociedade.

Com isso, a incoerência é notória entre o que se diz e o que se faz, entre o discurso e as obras. A lei é burlada em benefício próprio. O direito é torcido e a justiça sonegada. Embora todas essas práticas sejam obras das trevas, entretanto são praticas à luz do sol.

Diante disso, a situação não deve ser considerada como uma epidemia isolada que vem e passa rapidamente, mas como uma pandemia instalada por toda parte da nação brasileira. É claro que existem exceções, mas de um modo geral, a prática da maldade ocorre por todo país. Sendo assim, a povo está enfermo.

Contudo é espantoso, que mesmo diante dos fatos, a sociedade não consegue perceber os danos provocados a curto e a logo prazo, pois se encontra num estado de letargia, cujo intelecto está adormecido, cuja capacidade critica está atrofiada e cuja vida espiritual está num coma induzido profundo. Na verdade, falta o conhecimento de Deus e por conta disso, o povo está sendo destruído (Os 4. 6). A sociedade está embriagada pelo hedonismo desenfreado e enfeitiçada pelo “cântico da sereia”,

No entanto, o povo ainda não atentou para as consequências de tudo isso. Ele não tem tido a capacidade de discernir que a corrupção escancarada na política, a falta de ética social, o divorcio entre a fé verbalizada e a fé praticada, é um sintoma endêmico de uma rejeição deliberada da verdade de Deus.

Sendo assim, um dos motivos pelo qual a justiça não consegue prevalecer é que, os homens têm detido a verdade em nome da injustiça. A verdade tem sido peiada com as cordas das trevas, fruto de corações ímpios e gananciosos. Na verdade, existe uma tentativa concentrada para amordaçá-la. Essa tentativa tem alcançado êxito, pois aqueles que devem exercer o papel de legislador na criação de leis justas e mecanismos para o cumprimento das mesmas, muitas vezes tem se eximido da responsabilidade para qual foram colocados, além disso, os infratores não são punidos e tantas vezes escapam ilesos, provocando assim uma sensação de desleixo com o bem comum de todo cidadão. A impunidade é um verdadeiro descaso com a nação inteira.

Por outro lado, a igreja tem se acovardado diante da sua missão, sua responsabilidade e função profética. Ela tem assumido uma posição de expectadora. A ética é pisoteada sem nenhum pudor, os valores são invertidos e a verdade é sonegada. É por conta disso, que os representantes do povo tem se valido constantemente dos sofismas. Eles falam mentiras com cara de verdade. Iludem o povo. Criam e usam as leis em benefícios pessoais.

Portanto, a falta da verdade faz com que a injustiça e a mentira imperem, favorecendo assim, o florescimento da maldade. Quando a verdade é banida, o mal predomina. Quando a luz da verdade é apagada, o povo chama o mal de bem; o amargo de doce; as trevas de luz. Vivemos numa época em que a iniqüidade é aplaudida, porém, a verdade é vaiada. Uma recebe cântico de louvor, a outra de maldição. As pessoas dizem não à verdade, mas, em contra partida dão as boas vindas à injustiça e a mentira. Elas fecham o coração e mente para a verdade, mas abre os braços para o engano.

Entretanto, nem tudo está perdido. A verdade só é verdade porque não fica prostrada e nem pode ser detida pelos homens. Se ela tropeça, logo de apruma. A tentativa em aprisioná-la não conseguirá impedir a entrada da justiça, pois esta não pode ser confinada para sempre pelos ímpios. No entanto, enquanto isso não acontecer, a hegemonia será da injustiça.

O triunfo da verdade acontece efetivamente quando a mesma é erguida por meio da comunicação e é vivenciada pelos homens que a recebe. A verdade proferida, também deve ser vivida. A verdade que vence a iniqüidade é aquela que se materializa na história social dos homens, pois se ela for abstrata, nenhum sistema ou povo será mudado. A verdade é o caminho que pavimenta a solidificação da justiça. Ela é o instrumento por meio do qual a equidade é exercida, estabelecida e plenificada.

Portanto, a verdade e a justiça andam de mãos dadas. Elas são irmãs siamesas. A segunda é o resultado da primeira. Quando a verdade é negada, então, a justiça não será exercitada e fracassará em seu intento. Mas, se ela permanecer levantada, então a justiça penetrará por todos os seguimentos da sociedade brasileira. É tempo da igreja, que é coluna e baluarte da verdade, erguer a sua voz profética e denunciar a injustiça como fizeram os profetas. As peias que amarram a verdade só serão despedaçadas quando a igreja assumir o papel para o qual foi chamada. Que a verdade seja colocada de pé. Que a justiça encontre a porta de entrada. Que a verdade pavimente as veredas para a justiça. Que a justiça entre pelos caminhos da equidade e alcance o triunfo sobre a injustiça.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

QUARTA PARTE: O EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?

QUARTA PARTE: O EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?
GRAÇA IRRESISTÍVEL
Pode alguém resistir ao chamado divino? Ciro é da opinião que sim. Na verdade, ele afirma que “não existe graça irresistível”. Mais uma vez percebemos que o problema de Ciro é conceitual e interpretativo. Observe a sua argumentação: “Os calvinistas se apegam a passagens isoladas, como João 6. 37, 44 e 10. 29, para afirmar que apenas alguns eleitos são encaminhados pelo Pai a Jesus. Na verdade, tais passagens mostram, à luz do contexto, que até para aceitar a chamada para a salvação, o ser humano precisa de capacitação divina. É Deus quem concede a fé quando o pecador ouve a Palavra (Rm 10. 17); e é ele quem dá a possibilidade de arrependimento (At 11. 18). A salvação é pela graça de Deus (Ef 2. 8, 9)”. Analisemos a afirmação de Ciro à luz das Escrituras. Precisamos fazer algumas perguntas para o autor da obra: Evangelho que Paulo jamais pregaria. Primeiro, por que o homem precisa da capacitação divina para aceitar o chamado para a salvação? Segundo, se é Deus quem concede a fé salvadora ao pecador, por que você nega as demais verdades relacionadas com essa? Terceiro, já que é Deus quem concede o arrependimento para vida, por que você então, nega a doutrina da vocação eficaz? No entanto, antes de prosseguir, uma correção imediata precisa ser feita quanto ao texto de Atos 11. 18. Ciro afirma que Deus é “quem dá a possibilidade de arrependimento”, todavia, a Bíblia ensina que Deus é quem concede “o arrependimento para a vida” (At 11. 18). Existe uma diferença colossal entre o adjetivo da possibilidade e o verbo conceder. O arrependimento citado nesse texto não é uma probabilidade divina, mas uma outorga de fato e de verdade consumada pela graça de Deus.

Contudo, a fim de não sermos prolixos voltemo-nos para a questão citada no início desse artigo e trabalhemos a questão interpretativa. A compreensão equivocada sobre a antropologia bíblica, isto é, doutrina acerca do homem antes e depois da queda, assim como a ação monergistica de Deus na salvação do homem, pode e tem levado muitos intérpretes das Escrituras a um desvio doutrinário catastrófico, o qual pode afetar o entendimento sobre a pessoa de Deus e sua obra redentiva. Nesse caso, a interpretação incorreta do texto bíblico pode ser nociva e alterar o verdadeiro sentido do texto escriturístico. Isso fica evidente a partir de dois axiomas opostos, a saber: a Bíblia ensina que a salvação é uma obra da livre graça de Deus, Ciro e companhia (arminianos) ensinam que a salvação está baseada na “livre vontade” do homem, o qual é capaz de responder ou rejeitar a vontade soberana do SENHOR. O primeiro tem como fundamento o teocentrismo bíblico, o segundo tem como base o humanismo antropocêntrico. Duane Edward Spencer, um teólogo que por muitos anos foi adepto da corrente teológica arminianista, afirmou que depois de fazer um exame acurado da Escritura percebeu a incoerência entre a interpretação arminiana e o que a Bíblia ensina. Depois dessa experiência, Spencer afirma que “para o arminianismo, o homem é suficientemente poderoso para obstruir ou resistir à graça de Deus”. Uma coisa é certa, o homem depois da queda ficou impossibilitado ou incapaz de responder o chamado divino por diversas razões que destacaremos mais adiante, mas o homem em hipótese alguma pode impedir a ação efetiva da graça irresistível. Portanto, meu intelecto está convencido de que o problema do autor é tanto conceitual como interpretativo.

O que causa espanto é que Ciro tropeça numa dissertação pequena. Quando um escritor disserta sobre determinado assunto, que exige uma argumentação extensiva, é comum surgir à possibilidade de cometer alguns deslizes ou contraditar-se na argumentação. Mas, num texto de “quatro ou cinco linhas” é inadmissível tal contradição. Esse tipo problema evidencia pelo menos duas falhas: falta de conhecimento a respeito do assuntou ou método hermético equivocado. Penso que o autor da obra “Evangelho que Paulo jamais pregaria” padece de conhecimento da doutrina da graça irresistível, assim como utiliza um método hermenêutico inadequado.

Voltemo-nos ao texto do autor. Veja o que ele diz: “Na verdade, tais passagens mostram, à luz do contexto, que até para aceitar a chamada para a salvação, o ser humano precisa de capacitação divina”. Que fantástico! Ciro está certo, pois sem a capacitação divina ninguém absolutamente pode aceitar o chamado para a salvação. Por que não? Por causa do óbvio, o homem está morto nos seus delitos e pecados (Ef 2. 1, 5), o seu entendimento está obscurecido pelo pecado, isto é, os efeitos noéticos da queda afetou todas as suas faculdades (Ef 4. 18) e os olhos da sua alma foram afetados pelo deus do século (2Co 4. 4). Além disso, a condição, bem como o estado em que o homem se encontra não permite que ele volte para Deus por si mesmo. É muito oportuno citar a Escritura aqui. Veja o que dizem as Escrituras:
“Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urde engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Rm 3. 9-18).
Note que esse texto é uma contundente revelação do homem não salvo. Claro que o homem nessa condição jamais poderá voltar-se para o Senhor sem ser assistido pela graça e com a graça. Sendo assim, Ciro acertou, o homem precisa de fato da capacitação divina para responder ao chamado para a salvação. Agora façamo-lo as seguintes perguntas: Primeiro, que capacitação é essa? Segundo, sem essa capacitação o ser humano não pode ir a Jesus? Não acredito que Ciro saiba a que se refere essa capacitação, por conta disso deixemos a Bíblia falar sobre essa gloriosa verdade. Gostaríamos de responder a essas perguntas, mas invertendo a ordem das mesmas. Quanto a segunda pergunta, a resposta é um retumbante sim! Pois, sem a capacitação divina nenhum homem nunca, jamais ou de modo algum poderá ir a Cristo Jesus, o Salvador. Quanto à primeira, a resposta é que essa capacitação é o novo nascimento. A Bíblia ensina que os salvos da cidade de Éfeso estavam mortos, mas Deus deu vida (Ef 2. 1, 5). Ela ensina ainda que os que receberam o Senhor Jesus pela fé o fizeram porque nasceram de Deus (Jo 1. 12, 13). Essa capacitação é mais do que assistência, é uma ressurreição espiritual. A Confissão de Fé de Westminster corrobora conosco ao afirmar que: “Todos aqueles a quem Deus predestinou para a vida, e somente esses, aprouve ele, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente, por sua Palavra e por seu Espírito, daquele estado de pecado e de morte, em que estão por natureza, à graça e salvação por meio de Jesus Cristo; iluminando suas mentes espiritual e salvificamente para entenderem as coisas de Deus; removendo seus corações de pedra e dando-lhes coração de carne; removendo sua vontade e, por seu infinito poder, determinando-lhes o que é bom, e eficazmente atraindo-os a Jesus Cristo; mas de tal forma que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos por sua graça”. A definição da Confissão sobre garça irresistível é maravilhosa e precisa. Nessa definição encontramos uma vasta fundamentação bíblica cujo resultado é uma teologia saudável a qual faz jus ao todo das Escrituras.

Além disso, A Confissão de Fé de Westminster continua: “Esta vocação eficaz provém unicamente da livre e especial graça de Deus e não de coisa alguma prevista no homem; nesta vocação ele é totalmente passivo, até que, vivificado e renovado pelo Espírito Santo, seja desse modo capacitado a responder a esta vocação e a abraçar a graça oferecida e comunicada nela”. Sendo assim, a graça irresistível é tanto um convite externo como interno. Ela é tanto um convencimento interno como uma ordem imperativa e persuasiva à vontade humana escravizada. Por essa graça, Deus tanto informe ao intelecto, como atinge ou toca a emoção e persuade a volição. Nada fica inerte no homem quando o Senhor o chama eficazmente. Na verdade, o homem não pode resistir o chamado divino.

Para exemplificar o que fora dito acima, gostaríamos de citar um caso bíblico. O exemplo é de um homem rico, maioral dos publicanos, chamado Zaqueu. Esse exemplo encontra-se no Evangelho de Jesus Cristo, conforme a narrativa do evangelista Lucas (Lc 19. 1-10). Esse homem queria ver quem era Jesus. Ele tinha uma curiosidade como muitas pessoas, mas a sua intenção e aspiração se limitava a esse campo. Nessa passagem temos um excelente exemplo da graça irresistível. Diz o texto que: “Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa” (Lc 19. 5). Você sabe que o resultado final de tudo isso foi a conversão do milionário da cidade de Jericó. Note que o verbo descer está no imperativo. Cristo não fez um pedido, porém deu uma ordem. Desce depressa, disse Jesus. Sabe o que aconteceu? “Ele desceu a toda pressa e o recebeu com alegria” (Lc 19. 6). Portanto, a conversão de Zaqueu é um exemplo concreto do que seja a graça irresistível. Somente o Deus que chama eficazmente pode colocar um escravo em liberdade e ressuscitar um morto (Jo 8. 36; Ef 2. 1, 5). Sendo assim, o leitor constatará à luz da Escritura que a graça irresistível é uma doutrina bíblica. Damos glórias a Deus pelo chamado eficaz. Esse verdade foi ensinada por Cristo, e pregada por Paulo e companhia. E você, pregará também essa verdade gloriosa da graça?

quinta-feira, 9 de junho de 2011

TRADICIONALISTAS E PROGRESSISTAS: CONTRIBUIÇÕES E PERIGOS

TRADICIONALISTAS E PROGRESSISTAS: CONTRIBUIÇÕES E PERIGOS

O mundo é marcado por duas tendências ou estilos diferentes. A primeira tem como marca o conservadorismo, a segunda a inovação. Uma detém a tradição, a outra insere as novidades. Esses dois estilos são rotulados de radicais e revolucionários. Os radicais não suportam, nem estão abertos para novas possibilidades. Os tradicionalistas não dão abertura para o desenvolvimento prático e valorizam o engessamento estético. Além disso, eles são muitíssimos apegados à forma. Os revolucionários por sua vez, ignoram e quase sempre pisoteiam os fundamentos que foram fincados no passado, os quais são frutos de muito labor dos empreendedores no campo do saber. Essas duas tendências são percebidas na academia, na política, na sociedade de modo geral, na religião seja ela de qualquer natureza e na igreja. Essas divergências de posicionamentos, não são marcas exclusivas da era chamada pós-moderna, mas de vertentes que vem se perpetuando por várias gerações. Entretanto, elas são percebidas com mais clareza neste período supracitado.

O professor de inglês da Concordia University-Wisconsin, Gene Edward Veith, Jr. afirma que esses distintos estilos possuem valores diferentes. Por conta disso, eles tanto podem colaborar com o Cristianismo como podem prejudicá-lo. Por exemplo, os tradicionalistas têm um valor inestimável no que tange à tradição, pois sua função é preservar o conhecimento sistematizado e a experiência acumulados por décadas e séculos, para posteriormente transmití-lo como legado à geração futura. Contudo, precisamos acautelar-nos quanto ao passado para não mergulharmos no baú do tempo, cujo cadeado não tem chave para uma nova leitura e releitura dos fatos, nem tempos, nem luz para as mentes, a fim de promover avanço no campo do conhecimento. O passado tanto pode servir de base quanto pode ser um labirinto sem saída. O valor está no modo como o utilizamos. O filósofo Mário Sergio Cortella traz uma contribuição preciosa acerca dessa percepção ao afirmar que não devemos olhar para o passado como direção, mas como uma referência. Entretanto, tantas vezes fazemos o caminho inverso.

Por outro lado, os progressistas também contribuem de modo valioso com a questão do conhecimento, pois as descobertas e as mudanças são necessárias. No entanto, devemos tomar muito cuidado com o novo, pois muitas vezes ele quer sepultar o passado em nome do progresso ou do avanço. Para eles, o passado é como um corpo sem vida e inerte que não oferece nenhuma contribuição ou relevância para o presente. Equivocam-se os progressistas nesse ponto, porque a herança no que tange à construção do conhecimento pode servir de fundamento sólido para as novas descobertas e construções de conhecimento sapienciais, os quais são verdadeiros patrimônios da humanidade.

Enquanto os tradicionalistas exercem um papel importante como guardiões da tradição, os progressistas desempenham uma função magistral ao questionar a pirâmide do conhecimento sacralizada pelos homens e pelo tempo. Isso é bom e salutar, pois solidifica convicções, porém promove o abandono dos equívocos. Os inovadores, além de corroborar reflexivamente, eles repensam os conceitos e as situações, mas, sobretudo inserem novas ideias ao edifício construído pelos tradicionalistas, as quais provocam mudanças e tornam o legado herdado relevante para a geração atual. Gene destaca que sem a função progressista, “nós estaríamos satisfeitos com o que já sabemos, ou pensamos que sabemos, e a investigação, a curiosidade e a pesquisa cessariam”. Cortella segue nessa mesma direção. Ele oferece o seguinte conselho: “Afeste-se dos professores velhos, que acham que sabem tudo e não querem aprender, e junte-se aos idosos, com grande experiência e atualização”. Com isso, aprendemos que é extremamente possível ser uma pessoa conservadora e ao mesmo tempo inovadora.

A princípio, essas duas posições podem parecer opostas, mas de acordo com o espírito de equilíbrio e bom senso, podemos afirmar que elas se completam. Não que as tensões serão banidas entre ambas, mas irão se complementar na construção do pensamente e do conhecimento. O resumindo e usando uma linguagem metafórica, podemos dizer que: o mundo é como um veículo automobilístico que precisa tanto do freio como do acelerador. Sendo assim, é salutar que essas duas tendências sobrevivam. Se uma deixar de existir estamos fadados ao fracasso. Essas duas tendências não são perniciosas, mas colaboradoras na edificação do conhecimento, na criação de métodos relevantes, a fim aplicá-lo de forma correta e eficiente em cada geração.

Como a igreja não está isenta dessas duas vertentes, então, precisamos atentar para a contribuição de ambas. Além disso, precisamos tomar muito cuidado com os perigos abissais que elas criam, os quais são emboscadas tenebrosas. Para Gene, “Os cristãos tradicionalistas, às vezes, olham mais as realizações e instituições humanas do que dão atenção à Palavra de Deus”. Essa supervalorização é perigosa. O apego a essa tendência nos rodeia há muito tempo. Uma atitude dessa natureza coloca em risco a supremacia da Escritura Sagrada. Ela foi cometida pela liderança da igreja no período que ficou conhecido como Idade Média ou Era das Trevas, como também pelos fariseus. Os fariseus erraram quando colocaram as tradições dos anciãos acima dos mandamentos divinos. Eles confundiram interpretação com a Palavra de Deus. Um exemplo disso pode ser visto por meio do testemunho da Escritura: “Então, vieram de Jerusalém a Jesus alguns fariseus e escribas e perguntaram: por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos quando comem. Ele, porém, lhes respondeu: por que transgredis vos também o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição? Porque Deus ordenou: honra teu pai e tua mãe, e: quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte. Mas vós dizeis: se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: é oferta ao Senhor aquilo que poderias aproveitar de mim; esse jamais honrará a seu pai ou sua mãe. E, assim, invalidastes a palavra de Deus, por causa da vossa tradição. Hipocritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito dizendo: este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15. 1-9). Esse tipo de atitude invalida o culto. Por conta disso, Jesus censurou, condenou e rejeitou a sua adoração. Os fariseus estavam mais preocupados com a questão estética do que com a essência. Em nome da tradição invalidavam a lei divina. Portanto, o perigo de invalidar a Palavra de Deus por causa da tradição pode ser uma emboscada sutil contra os conservadores, os guardiões da tradição. Na verdade, eles precisam cuidar para não sacrificarem os mandamentos divinos por guardarem de modo irrestrito o arcabouço da tradição teológica. Em suma, é preciso ficar claro, que toda tradição teológica tem o seu valor, mas, ela não é, nem nunca será, nem jamais deve ser confundida com a infalível poderosa Palavra de Deus.

Os perigos que cercam os progressistas são de outra ordem ou natureza, mas também são sorrateiros e extremamente nocivos. Os progressistas, porém, no afã de descobrir o novo, correm o risco de pisar em areia movediça, no pântano do lamaçal, bem como correm o risco de flutuar na escuridão do vazio. É por isso, que as pessoas têm medo daquilo que é novidade, e com razão, pois quase sempre o estrago é irreparável. Na verdade, se as novidades não estiverem alicerçadas em fundamentos sólidos, podem cavar a sepultura para uma geração inteira. Uma geração desprovida de fundamentos pode ser engolida pelos movimentos esdrúxulos inflados pelas bolhas da curiosidade, movido pelo vento do emocionalismo vazio e sem informação, sem vida e carente do saber. As inovações podem fazer com que as pessoas fiquem como crianças, agitadas de um lado para o outro. Os progressistas têm um papel importante na ampliação do conhecimento, mas não podem abandonar os pilares erigidos, porque senão farão com que as pessoas sejam levadas “por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4. 14). Portanto, as novas construções na área do pensamento e do conhecimento sistematizado, são legítimas e salutares. Entretanto, elas devem ser realizadas com sobriedade, bom senso e sabedoria. O velho não pode ser abandonado por conta do novo. Contudo, o velho não deve ser preservado a ponto de abortar o surgimento daquele que está para nascer com vitalidade. Todavia, se em algum momento da história, um legado do passado sufocar ou tolher a liberdade de pensar, criar e construir, a tradição precisará reencontrar o seu caminho e redescobrir o seu verdadeiro papel.

Sendo assim, os tradicionalistas precisam entender que a Palavra de Deus não muda jamais. Ela é absoluta, porém a tradição não. A tradição, embora tenha o seu valor, entretanto, ela muda, e em alguns casos é necessário que mude e sofra alterações sempre que houver uma necessidade papável e concreta. Gene afirma que: “Insistir que a Palavra de Deus é absoluta não é insistir que todo o conhecimento seja absoluto. Pelo contrário, uma visão elevada das Escrituras assegura que o conhecimento humano, à parte da Palavra de Deus, é caído, limitado e parcial”. Por outro lado, os progressistas precisam entender que não existem novas construções sem considerar aquilo que já é conhecido. Toda tentativa fora disso pode provocar estragos terríveis, bem como gerar ruínas e crateras irreparáveis na história da humanidade, e porque não dizer da igreja. Uma conclusão óbvia, sábia, prudente e relevante buscará sempre conciliar tanto a posição conservadora quanto a inovadora. Precisamos tanto do legado da tradição como de novas lajotas no edifício do conhecimento. “Uma cultura intelectual saudável precisa conter ambos os estilos, tanto aqueles que preservam a sua tradição como os que acrescentam a ela. Para os cristãos, cada um representa um certo risco e uma certa promessa. Os cristãos com fé bíblica podem ser tanto tradicionais quanto progressistas”, afirma Gene. Portanto, um cristão bíblico e sábio, cuja cosmovisão é conduzida pelas Escrituras nunca abandonará a tradição enquanto legado teológico, mas também jamais fechará os olhos para as novas possibilidades de realizações. Cristão que pensa biblicamente é radical por possui raízes, mas também é inteligente, inovador e criativo, porque tem a mente arejada pelas Escrituras. O mundo precisa de cristão conservador, mas também precisa do cristão criativo. O cristão deve ser tradicionalista, isto é, guardião da tradição, porém deve ser também progressista, ou seja, inovador na construção do conhecimento. Pense nisso!

1VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 59.
2 Extraído do Jornal Atribuna, terça-feira, 10 de maio de 2011.
3 VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 59.
4 Extraído do Jornal Atribuna, terça-feira, 10 de maio de 2011.
5 VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 61.
6 VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 65.
7 VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 61.

terça-feira, 26 de abril de 2011

TERCEIRA PARTE: O EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?

TERCEIRA PARTE: O EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?

Para Ciro Sanches Zibordi, a doutrina da eleição incondicional é incompatível com a justiça divina, com a vontade divina em salvar toda humanidade, com a expiação universal, com a pregação e o amor divino. Para ele é inconcebível que o Deus Justo e amoroso tenha escolhido algumas pessoas dentre a humanidade caída e deixado as demais mortas nos seus delitos e pecados. A ideia é a seguinte: Deus é justo, portanto, Ele não pode escolher alguns para a salvação e rejeitar outros. Deus não faz acepção de pessoas, afirma Ciro. Com certeza Deus não faz acepção de pessoas, mas esta não é toda verdade. Isso parece bonito, tem um som agradável, carregado de piedade, mas padece de fundamentação bíblica. Essa afirmação merece uma averiguação mais acurada das Escrituras.

Para fundamentar o argumento a respeito do amor de Deus, Ciro evoca o testemunho de Atos 10. 34, que diz: “Então, falou Pedro, dizendo: reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas”. Como é perigoso tomar um versículo fora do contexto para justificar um ponto de vista teológico, cujos pressupostos estão fincados em areia movediça. O que o texto nos ensina é que não existem barreiras raciais para impedir a manifestação da graça salvadora. Depois do derramamento do Espírito Santo ao cumprir-se o dia de Pentecostes, a salvação extrapolou as muralhas geográficas de Israel (At 2). Após isto as rédeas foram tiradas das mãos dos judeus. Basta ler Atos 10 35, texto que vem logo a seguir ao que é citado por Ciro: “pelo contrário, em qualquer nação, aquele que teme e faz o que é justo lhe é aceitável” (At 10. 35). Mas, além disso, esse versículo não está ensinando sobre soteriologia, ou seja, sobre doutrina da salvação. Muito embora haja nele alguns elementos os quais fazem parte deste ensino. É preciso ficar claro, pois do contrário, esse texto estaria ensinando sobre a salvação pelas obras, algo que é combatido pelas Escrituras de Gênesis ao Apocalipse. Além do mais, o contexto do capítulo 10 ensina-nos que até aquele momento, o centurião romano chamado Cornélio, ainda não era salvo, porque a salvação não é pelas obras. Cornélio tinha várias prerrogativas religiosas e morais, mas, ainda assim, não era salvo. O exemplo desse homem é um excelente instrumento pedagógico para desconstruir os preconceitos raciais arraigados entre os judeus.

Ainda na tentativa de substanciar seu argumento acerca da incompatibilidade entre a eleição e a justiça divina, Ciro cita a pergunta feita pelo patriarca Abraão: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18. 26). Fico irritado ao ver essas argumentações descabidas e falaciosas, que pegam o texto e fazem dele “um nariz de cera”, isto é, tiram do seu contexto e colocam onde bem querem. Isso é infidelidade. Essa postura deve ser classificada como prostituição doutrinária. Claro que, de acordo com o texto dentro do seu contexto, Deus jamais executaria seu juízo ou a sua ira contra os justos. Podemos exemplificar isso com o justo Ló, Deus o tirou de Sodoma e Gomorra para que não fosse fulminado com os homens ímpios daquelas cidades. Portanto, esse versículo jamais deve ser tomado para justificar que a eleição incondicional é uma injustiça divina.

Na verdade, a eleição incondicional não é uma questão de justiça, mas de misericórdia. De justiça seria se Deus tivesse sentenciado todos os descendentes dos nossos primeiros pais à prisão perpétua, isto é, ao inferno. Existe injustiça da parte de Deus por te amado alguns e rejeitado a outros? A Escritura responde: “De modo nenhum” (Rm 9. 14). A verdade é que: “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9. 16). Ciro está equivocado em dois quesitos: primeiro na sua hermenêutica; segundo na sua compreensão da doutrina da salvação. Na hermenêutica, ele não respeita as normas elementares para interpretar as Escrituras. Na doutrina da salvação ele atribui à eleição a obra da fé, ou seja, uma pessoa só é eleita depois de crer e se arrepender. Isso é um desvio doutrinário. A Bíblia ensina que uma pessoa crê e se arrepende porque é eleita, e não o contrário. Deus não elegeu indivíduos porque previu que iriam crer, mas porque os elegeu, creram. Vejamos o que as Escrituras ensinam sobre essa verdade em Atos 13. 48 estar escrito: “Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna”. Aqui está escrito que as pessoas creram. Mas, quem foram as pessoas que creram? A Escritura afirma que foram as destinadas para a vida eterna. Elas foram destinas, e, por isso creram.

Um erro infantil cometido por Ciro é negar a eleição dizendo que, se houvesse eleição incondicional, se assim o fosse, não haveria necessidade de pregação. Ele se esquece ou desconhece a seguinte verdade bíblica: O Deus que escolheu pessoas para a salvação em Cristo, também é o Deus que escolheu os meios para alcançar os eleitos. Não há incoerência nisso. O eleito se encontra na mesma condição dos demais homens. Portanto, o instrumento de Deus para alcançá-lo é a pregação do evangelho.

Gostaríamos de elencar algumas razões pelas quais a eleição é extremamente compatível com a pregação: Primeira, porque a pregação é uma ordem de Cristo. Só essa verdade já seria motivo para não rejeitar a doutrina da eleição. Segunda, porque a Palavra é o instrumento gerador de fé. “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10. 17). Sem pregação não existe fé salvadora. O apostolo Paulo instruindo os crentes de Éfeso quanto à doutrina da eleição, afirma que, antes de serem selados com o Espírito santo da promessa, eles tiveram que ouvir apalavra da verdade, o evangelho da salvação, e além de ouvir tiveram que crer (Ef 1. 13). Terceira, porque é pela palavra e com a palavra que o Espírito Santo regenera ou efetua o novo nascimento numa pessoa (Jo 3. 5; 1Pe 1. 23). Quarta, porque Jesus orou dizendo: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra” (Jo 17. 20). Aqueles que hão de crer o farão por meio da palavra. Sendo assim, sem a pregação do evangelho não existe salvação. É por isso, que Cornélio teve que ouvir a palavra por meio da qual foi salvo (At 11. 14). Deus escolheu pessoas para salvação sim, mas também escolheu o meio para alcançá-las, a pregação

Portanto, esse evangelho foi pregado por Paulo após sua conversão, por toda sua vida e ministério. Seu ministério tinha como finalidade dentre outras coisas, o de promover a fé que é nos eleitos de Deus (Tt 1. 1). Por isso, não deixemos de pregar o evangelho pregado por Paulo. Não condicionemos à mensagem bíblica a nossa tendência humanista, que quer colocar o homem no centro de todas as coisas e destronar o Senhor, a quem pertence à salvação do seu trono. Não conspiremos contra os planos divinos.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Uma visão cristã sobre o massacre em Realengo.




Essa semana o Brasil se consternou com os familiares dos adolescentes assassinados no colégio municipal Tasso da Silveira em Realengo no Rio de Janeiro. Doze crianças mortas e mais dez crianças internadas no hospital Albert Schweitzer, sem contar a ferida causada no psicológico e na alma dos adolescentes que presenciaram esse massacre é o retrato do luto que o Brasil passa.
Nesta mesma semana, como pastor evangélico de uma comunidade, fiz minha prédica no salmo seis, no momento de explanar o versículo três e seis, lembrei-me deste fatídico evento. No final do versículo três o salmista pergunta: “Senhor, até quando?”. Na dor, na angústia de sua alma, Davi encara a realidade que lhe cerca e faz esta pergunta, que de todas da bíblia é a mais admirada por João Calvino, pois o reformador vislumbra um momento em que o mal não mais existirá. Todavia por causa da nossa condição terrena e pecaminosa, somos levados a olhar mais para o presente do que para o futuro, nossas lágrimas embaçam nossos olhos e só enxergamos a dor que nos cerca. “Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço nadar o meu leito, de lágrimas o alago” (Sl 6.6). Nossa condição humana pueril presente nos leva a um sentimento excruciante, a uma dor mortal. Em momentos como estes, choramos e pensamos que vamos morrer de tanto chorar, pensamos que nossas lágrimas irão secar de tanto derramá-las.
Quando soube deste trágico fato, pouco tempo depois do ocorrido, não dei muita importância no momento, pois a agitação do dia levava minha atenção para outro lugar. Não tinha noção da amplitude do fato, que é tido hoje como sem precedentes na história brasileira. Depois, quando vi e ouvi pelos telejornais, chorei a semelhança dos amigos brasileiros e até hoje choro, quando ouço parentes e amigos externando seus lutos.
Creio que em momentos como este, não há tempo para questionamentos do por que, ainda que já tenha “pincelado” aqui, a saber, por causa da nossa condição humana presente em estado de pecado e morte. Mas, é tempo de fazermos nossa parte como cristãos, por isto nesta tragédia não encontrei nada mais oportuno do que o nome do hospital em que os adolescentes foram encaminhados, Albert Schweitzer. Quando ouvi o nome do hospital, lembrei deste notável homem que deixou sua posição famosa de médico, músico e pastor que possuía e foi cuidar dos africanos que não tinham cuidados médicos. Sua vida abdicada ao serviço ao próximo, o fez enxergar que na dor do outro, temos a oportunidade de manifestarmos o amor e a graça de Deus. É utópico viver uma vida de serviço aos que sofrem e derramam rios de lágrimas? Creio que não e Schweitzer mostra que somos capazes. “O Lugar dor” é o mesmo lugar da solidariedade, é a oportunidade que temos de não ficar questionando os fatos, mas de ajudar.
Além de Realengo ter um hospital com um nome tão apropriado para o momento, ao lado do colégio Tasso da Silveira encontramos a Igreja Presbiteriana de Piraquara-Realengo, que abrigou os feridos logo após o massacre, que cuidou da comunidade dando lanches para os policiais que ficaram de plantão no local e ainda realizaram cultos voltados para toda comunidade em solidariedade aos enlutados.
Oro pelos enlutados e peço licença aos que me lêem para citar o nome de Larissa Santos Atanásio, de 13 anos. Membro da Igreja Presbiteriana que fica ao lado do colégio Tasso da Silveira. Ela faz parte das vítimas que perderam a vida neste trágico evento. Cito a frase dita em oração pelo irmão da Larissa que emocionou todos os presentes: “Assim que a minha irmã foi batizada ela virou uma militar. Não do Exército, da Aeronáutica e da Marinha e sim de Cristo. Agora ela vai para as fileiras celestiais e vai subir de patente” (Felipe Atanásio). A família Atanásio está enlutada e a família presbiteriana também.
Não quero focar só o lado pessimista da situação, ainda que este seja bem patente, mas a oração do irmão da Larissa nos leva a uma visão sublime e concreta, a do cuidado de Deus para com os seus. E o Salmista nos versículos oito e nove do Salmo seis que já foi citado aqui, mostra que Deus responde a súplica e ouve a voz do nosso lamento, a tri-repetição nestes dois versos mostra a felicidade do Salmista em saber que em meio a todo sofrimento, Deus está presente e no socorre.
Pensei em escrever sobre a carta doentia e religiosa contendo até mesmo passagens bíblicas que o assassino deixou, ou até mesmo falar sobre sua atitude fria e calculista de escolher apenas meninas para matar, mas creio que com isso eu iria fazer exatamente o que este tresloucado queria, a saber, chamar a atenção para ele. E meu propósito aqui é exatamente outro, o de mostrar que o propósito da vida é refletir o amor de Deus no serviço que prestamos ao nosso próximo.
Acabei de voltar da reunião de oração e separei um tempo para orar por todos aqueles que foram afetados por este homem, que eu me recuso citar o nome, para que Deus possa dar forças a todos eles, a fim de enxergarem o amor de Cristo expressado na solidariedade que os cristãos em todo Brasil transmitem a eles.
E que a Paz de Cristo seja o árbitro em nossos corações.
Rev. Danilo Alves.

Frases de Albert Schweitzer.
“Um homem é verdadeiramente ético apenas quando obedece sua compulsão para
ajudar toda a vida que ele é capaz de assistir, e evita ferir toda a coisa que
vive”.
“Só são verdadeiramente felizes aqueles que procuram ser úteis aos outros”.
“Não há heróis da ação; só heróis da renúncia e do sofrimento”.
“Não devemos contentar-nos em falar do amor para com o próximo, mas praticá-lo”.
“A quem o sofrimento pessoal é poupado, deve sentir-se chamado a diminuir o sofrimento dos outros”.
“A tragédia da vida é o que morre dentro do homem enquanto ele vive”.

domingo, 3 de abril de 2011

SEGUNDA PARTE: EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?

SEGUNDA PARTE:
EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?
Na primeira abordagem que fizemos a respeito do evangelho que Paulo jamais pregaria, concluímos com uma pergunta mais ou menos assim: Judas foi escolhido? Se a resposta for sim, então, precisamos responder a outras perguntas: ele foi escolhido para quê? E com que finalidade? Como não somos adeptos nem da corrente teologicocêntrico, termo usado por Ciro Sanches Zibordi (autor do livro, Evangelho que Paulo jamais pregaria), nem da corrente antropocêntrica, então, proponho que deixemos a Escritura responder tais perguntas. Sendo assim, vamos à Bíblia e vejamos o que ela nos ensina acerca desse assunto tão controverso.

De acordo com o ensino de Jesus, Judas foi escolhido sim, porém não para a salvação, mas, para se cumprir as Escrituras. Analisemos alguns textos bíblicos a fim de recebermos a instrução genuína das Escrituras Sagradas. Comecemos esse exame, de forma sucinta, a partir do Evangelho de Jesus Cristo, conforme o registro do evangelista Lucas. Lucas é o Evangelista que mais fala sobre a vida de oração do Salvador. É Ele quem registra que Jesus antes de escolher os doze, “passou a noite orando a Deus” (Lc 6. 12) e mais: diz o texto que “quando amanheceu, chamou a si os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome de apóstolos” (Lc 6. 12). É importante destacar que à luz desse versículo, havia um número de discípulos que excedia aos doze. Todavia, quando Jesus os chamou, escolheu apenas doze, dentre os quais se encontrava Judas Iscariotes (Lc 6. 12). Seria isso obra do acaso? Ou obra do destino? Ou Judas foi escolhido por conta de um plano mais elevado? Estaria Jesus lançando sorte sobre Judas, ou podemos afirmar que a mão da providência o capturou para cumprir um plano divino? Com certeza, qualquer pessoa que examinar as Escrituras “desarmada”, chegará à conclusão e responderá afirmativamente que Judas foi escolhido, mas, não para a salvação e sim para a condenação. Judas era um predestinado sim. Deus o escolheu para compor o grupo dos doze, entretanto, ele não foi escolhido para ser redimido. Desde o início, o Senhor Jesus sabia quem era Judas, mas, mesmo assim, não o baniu do meio dos doze, antes o conservou no meio deles, a fim de cumprir o propósito divino. Deus se serviu de Judas para cumprir a profecia (At 1. 16). Aliás, é impressionante que a escolha tenha ocorrido debaixo de oração. Jesus orou a noite inteira antes de escolhê-lo.

No Evangelho de Jesus Cristo, capítulo 6, segundo o relato do evangelista João, o Senhor pregou uma mensagem duríssima. Daí, a Escritura relata a reação de alguns discípulos da seguinte forma: “Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: duro é este discurso; quem o pode ouvir? (Jo 6. 60). Jesus então faz algumas perguntas: “Isto vos escandaliza? Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava?” (Jo 6. 61, 62). Após isto Ele conclui dizendo: “Contudo, há descrente entre vós. Pois Jesus sabia, desde o princípio, quais eram os que criam e quem o havia de trair. E prosseguiu: por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim, se pelo Pai, não lhe for concedido” (J 6. 64, 65). Jesus termina esse bloco com as seguintes palavras: “Não vos escolhi eu em número de doze? Contudo, um de vós é diabo” (Jo 6. 70). Logo, João afirma que Jesus se referia “a Judas, filho de Simão Iscariotes; porque era quem estava para traí-lo, sendo um dos doze” (Jo 6. 71).

Jesus sabia que Judas seria o traidor (Jo 13. 11). O Senhor sempre soube quem eram os crentes e os descrentes. Ele sabia que Judas fazia parte daqueles que jamais creriam, daqueles que não estavam limpos, nem nunca ficariam purificados (J0 13. 10), porque a limpeza da qual Jesus falou não era uma obra fruto da ação humana, mas divina. Porém, no capítulo 13 de João, Jesus deixou-nos um legado precioso sobre humildade e serviço. Com isso, ele ensinou que devemos imitá-lo. Entretanto, a sua instrução, veio acompanhada de admoestação (J 13. 14-17). Embora a palavra fosse dura, ela não era para todos. Jesus disse: “Não falo a respeito de todos vós, pois eu conheço aqueles que escolhi; e, antes, para que se cumpra a Escritura: aquele que come do meu pão levantou contra mim seu calcanhar” (Jo 13. 18). Essa porção das Escrituras é deveras salutar para a compreensão de tudo que foi dito até aqui. Note a seguinte expressão: “eu conheço aqueles que escolhi; é, antes, para que se cumpra a Escritura”. Jesus conhecia Judas, mas mesmo assim o escolheu. Logo, podemos afirmar que Judas Iscariotes fazia parte de uma faceta da predestinação. Dos doze escolhidos apenas Judas se perdeu, afirmam as Escrituras. Na oração sacerdotal, Jesus orou dizendo: “Quando eu estava com eles, guardava-os no teu nome, que me deste, e protegia-os, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura” (Jo 17. 12). A predestinação é como um robusto tronco com dois grandes galhos, para explicar que, Deus escolheu alguns para a salvação em Cristo e reprovou os demais homens. A dupla predestinação é sem dúvida alguma, uma doutrina bíblica. Ela encontra amparo em toda a Escritura. Sendo assim, precisamos examinar toda Bíblia para pregar todo o desígnio de Deus.

Ciro combate o evangelho teologicocêntrico, bem como o antropocêntrico, mas entra em contradição ao negar as verdades teocêntricas e cristrocêntricas. Na verdade, negar a doutrina da eleição incondicional, assim como deixar de ensinar a reprovação, é o mesmo que abraçar uma religião humanista. Deixar de ensinar à luz das Escrituras a predestinação é o mesmo que abraçar o evangelho antropocêntrico. Ainda não acabamos. Queremos informar que teremos cenas do terceiro capítulo... Eleição é um ensino bíblico? E que negócio é esse de Livre-Arbítrio?

sexta-feira, 25 de março de 2011

EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?

EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?

Li recentemente um livro que ganhei de um amigo. O livro tem um título inteligente, criativo e relevante. Apreciei bastante o modo de escrever do autor. Ele escreve com simplicidade, humor e algumas vezes com ironia. Embora a obra possua vários estigmas preciosos, entretanto, não pude deixar de observar alguns deslizes infantis fruto da formação teológica do autor. Além disso, ela possui algumas repetições cansativas, traços peculiares do seu estilo, os quais quase me levaram a desistência acerca da conclusão dessa leitura. Mas, uma coisa confesso, por conta dos temas ou assuntos dos capítulos fui até o fim. Contudo, ainda preciso observar uma coisa: o autor também escreve com paixão sobre aquilo que acredita ser correto e verdadeiro. Além disso, ele está com o coração cheio de boas intenções. Seu desejo é vacinar a igreja de Deus contra os desvios e equívocos atuais que rondam o povo do Senhor. Mas, nem sempre as boas intenções têm amparo bíblico teológico. Sendo assim, Ciro tropeça em suas próprias palavras nalgumas abordagens, não por falta de conhecimento, mas por conta da sua formação teológica.

Antes, no entanto, de fazer algumas considerações, gostaria de dizer que, nas minhas constatações é fruto de conhecimento doutrinário, teológico, e, sobretudo bíblico. É verdade que não existe neutralidade na hora de escrever ou ponderar sobre algum ponto sobre o qual concordamos ou discordamos. De modo que estou convencido de que durante a leitura da obra fui edificado, mas também não deixei de analisá-la sobre o crivo da Escritura e da teologia reformada. Aliás, ninguém absolutamente está isento da sua formação teológica ou bagagem de conhecimento e experiência. Estou certo que nisso Ciro também concorda. Também preciso falar, antes de prosseguir, que sou servo de Cristo Jesus, alcançado pela graça imerecida do Senhor Deus e transformado pelo verdadeiro evangelho, no qual Ciro crê e prega.

Minha intenção não é fazer uma resenha de todo o livro, mas considerar apologeticamente alguns pontos do capitulo – 5, cujo título é: “calvinista ou arminianista?” O apego exacerbado por qualquer corrente teológica é apelidado por Ciro nesse capítulo de Evangelho teologicocêntrico. Ciro propõe dissertar sobre duas correntes teológicas: calvinismo e arminianismo. O autor esboça uma preocupação que também a tenho, a saber: mostrar que teologia não é Palavra de Deus. Nisso concordamos! Entretanto, até onde sei, nenhuma dessas correntes negam a inspiração da Escritura, mesmo com pontos de vista doutrinário divergentes sobre outros aspectos. Elas, contudo, afirmam que as Escrituras Sagradas Antigo Testamento e Novo Testamento são totalmente inspiradas pelo Espírito de Deus. De modo que é preciso ter muita cautela para asseverar sobre tais pressuposições sem antes conceituar os termos, bem como sobre a necessidade de explicar os mesmos. A obra propõe falar sobre tais correntes, mas logo a seguir diz que “qualquer teologia que rejeite a inspiração plenária da Palavra de Deus deve ser rechaçada”, logo, as duas correntes estariam sobre o crivo dessa afirmação, visto que seu objetivo é discorrer a respeito delas.

Logo a seguir Paulo é tomado como exemplo supremo de teólogo. Ora, como nos colocar no mesmo patamar do apóstolo Paulo. Ele não fazia teologia como os teólogos a partir do primeiro século da era cristã. Claro que nenhum teólogo no sentido estrito da palavra não pode nem deve ser comparado ao Apóstolo Paulo. Nós fazemos teologia, Paulo não. Nós criamos formulações teológicas, mas Paulo falava movido pelo Espírito Santo de Deus, de maneira que os seus escritos são Palavras de Deus, pois foram inspirados. Todos os teólogos estão ou pelo menos deveriam está estribado sobre pressupostos teológicos. Alguns têm uma teologia boa ou saudável, outros não. Da mesma forma, todos ensinam doutrina. Alguns ensinam doutrina de homens e do diabo, outros ensinam a doutrina bíblica.

Depois de fazer a introdução, Ciro fala sobre a teologia romanista, do darwinismo, e consequentemente da teoria da evolução. Agora, Ciro entra no campo e pisa no solo sobre o qual estava se preparando para apoiar os seus pés argumentativos. Entretanto, a cosmovisão do autor é dicotômica, pois entende que não existe coerência entre fé e ciência. Ele se esquece ou não sabe que toda verdade é verdade de Deus. O prof. Adauto Lourenço afirma que: “Toda ciência devidamente estabelecida, bem como toda a Escritura corretamente interpretada nunca entrarão em contradição”. Portanto, não existe incoerência entre ciência e fé. A bem da verdade existe uma confusão conceitual nas colocações do autor, pois confunde a teoria da evolução com a ciência. Ciro, permita-me discordar, evolução não é ciência. Evolução é uma teoria. Para ele “existe uma tentativa de fazer-nos crer que Bíblia e ciência andam lado a lado, sabemos que tudo isso é estratégia do inimigo para nos confundir, minando a nossa fé”. Claro que não aceitamos a teoria da evolução como ciência nem precisamos da ciência para autenticar aquilo que cremos, mas não vemos nenhuma incoerência entre a fé e a ciência. Existem diversas obras sobre tais assuntos, as quais foram escritas por homens de Deus.

Além disso, Ciro deseja atacar as doutrinas da graça, as quais foram sistematizadas por João Calvino. Mas, Santo Agostinho, já havia dissertado sobre elas, além do apóstolo Paulo é claro! Ciro começa a sua discordância com a doutrina da eleição. Ciro, não peça Calvino para discordar, a sua discordância é com a Escritura. Ciro diz: “Caro Calvino, permita-me discordar”. “Segundo as Santas Escrituras, a escolha para a salvação foi, primeiramente, coletiva – Deus elegeu em Cristo o seu povo (Ef 1. 4, 5; 1Pe 2. 9)”. Caro colega, permita-me discordar também. Qualquer teólogo seja calvinista ou arminianista ou de outra corrente teológica jamais dirá que Calvino negava que Deus elegeu em Cristo o seu povo. Afirmar que a eleição é coletiva somente com a intenção de negar a eleição individual é uma tolice. A eleição é coletiva, porque Deus escolheu um povo, mas o povo eleito é formado por indivíduos, logo, não existe nada mirabolante teologicamente na sua afirmação. Esse povo, o qual é chamado de corpo de Cristo foi escolhido antes da fundação do mundo, mas alcançado individualmente no tempo ou na história humana. É preciso entender também que o povo não é alcançado para se tornar eleito, o povo é eleito, e, por isso é alcançado. Assim como a Escritura afirma que Cristo foi morto antes da fundação do mundo, mas a concretização desse fato tenha ocorrido na história da humanidade. Ciro nega que não existe individuo eleito para salvação nem rejeitado. Contudo, a Bíblia está repleta de porções sobre indivíduos eleitos para a salvação em Cristo, como de indivíduos criados e deixados para a perdição. Na verdade, “O SENHOR fez todas as coisas para determinados fins e até o perverso para o dia da calamidade” (Pv 16. 4).

A quantidade de textos bíblicos que Ciro cita fora do contexto para sustentar sua argumentação é inúmera, mas todos sem a devida compreensão do todo. Ele faz afirmações infundadas que o Senhor Jesus jamais fez. Por exemplo, Ciro afirma que: “Jesus enfatizou que a eleição individual é para quem aceita o seu chamamento geral para a salvação (Mt 11. 28-30)”. Notem que não existe nada acerca disso neste texto. Ele diz que Jesus “revelou que, das multidões que ouvem o Evangelho, apenas uma parte o segue (Mt 22. 14)”. Por que será que da multidão chamada, apenas uma parte segue o Senhor? Com certeza Ciro dirá que é por causa do livre arbítrio. Mas, a resposta não se encontra no evangelho teologicocêntrico, mas na Escritura. Vejamos o que ela tem a nos dizer sobre essa verdade. Por que algumas pessoas ouvem o evangelho e não crêem? Em primeiro lugar, Jesus disse que elas não crêem porque são incapazes de ouvir sua palavra. Aqui está uma doutrina que Ciro conhece superficialmente, a doutrina da depravação total. Todos os homens nascem mortos. Eles não tem predileção pelas coisas espirituais (Ef 2. 1, 5; Rm 3. 9-18). Em segundo lugar, Jesus disse que elas são filhas do diabo. Existem pessoas que não pertencem a Deus, mas ao diabo (Jô 8. 43-47). Muitas pessoas não fazem parte das ovelhas de Cristo. Elas não pertencem aquele grupo por quem Cristo morreu. Em terceiro lugar, Jesus disse: “vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas” (Jo 10. 26). Aos eleitos, Deus concede a fé salvadora. Os eleitos, o Senhor chama eficazmente. O plano eletivo de Deus é perfeito. “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8. 30). Claro que existem dezenas de textos escriturísticos que ensinam essa verdade, mas penso que estes bastam.

Mais adiante Ciro faz uma pergunta no mínimo interessante: “quanto os indivíduos se tornam efetivamente filhos de Deus e parte integrante do povo eleito?”. Ele responde corretamente citando o seguinte texto: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (Jo 1. 12). Embora a pergunta seja interessante, bem como a resposta esteja devidamente correta, contudo, a pergunta relevante a ser feita e consequentemente respondida é a seguinte: na ordus salutus ou ordem da salvação, o que vem primeiro: a fé ou a regeneração? Por que essa pergunta é a pergunta das perguntas para entender a eleição? Simples. Porque todos que receberam, os quais Deus concedeu o privilégio de serem feitos filhos de Deus, aqueles que creram e que ainda crerão, são aqueles que nasceram de Deus. Eles são o que são, tem o que tem por conta ação monergistica de Deus. Deus os regenerou, e, por isso, eles receberam a Jesus como Senhor e Salvador. Eles nasceram do alto, por isso tem o privilégio da filiação divina. Eles nasceram da água e do Espírito, por isso crêem na obra e pessoa de Jesus Cristo. É muito fácil perceber essa verdade bendita, basta continuar a leitura até o versículo 13, o qual diz: “os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1. 13). Por certo, todo leitor inteligente no exercício do seu intelecto chegará à conclusão inequívoca de que a regeneração ou o novo nascimento é efetuado antes da fé. Quem recebe ou crê no Filho de Deus, o Senhor e Salvador, Jesus Cristo, só o faz porque nasceu de Deus. Não existe cooperação humana nesse processo. Se for assim, e de fato é assim, logo, o alvo dessa ação graciosa são os leitos de Deus. Paulo pregou esse evangelho. Logo, todos os expositores bíblicos devem também pregar esse evangelho. Cenas do próximo capítulo... Judas era eleito?

sábado, 29 de janeiro de 2011

RAABE, A FÉ DO LIVRAMENTO

RAABE, A FÉ DO LIVRAMENTO

Raabe é um personagem enigmático. O seu nome aparece apenas nove vezes em toda a Bíblia. Quatro no livro de Josué (Js 2.3; 6.17, 23, 25) duas no livro dos Salmos (Sl 87. 4; 89. 10), uma no Evangelho Segundo Mateus (MT 1. 5), uma na Carta aos Hebreus (Hb 11. 31) e uma na Epístola de Tiago (Tg 2. 25). Portanto, a Escritura não faz muitas referências sobre sua vida, entretanto, as poucas citações que temos sobre Raabe são suficientes para autenticar a veracidade da sua fé. Essa mulher nasceu no paganismo, mas foi alcançada pela mão divina. Ela não conhecia o Deus de Israel, mas era conhecida por Ele. Além disso, ela era uma prostituta e provavelmente uma feiticeira. Seu meio de sobrevivência era a prostituição. Seu instrumento de trabalho o próprio corpo. Ela vendia a si mesma, mas também comercializava como mercadoria outras mulheres. Sua “boate” era freqüentada por seu povo, bem como pelos estrangeiros. Contudo, a mão da providência a alcançou e ela foi transformada pelo poder de Deus. O Deus de Israel produziu fé em seu coração. Pela fé sua vida foi salva e sua história alterada. Raabe é uma evidência de que a graça de Deus é livre e incondicional. O Escritor aos Hebreus é quem nos fala sobre a autenticidade da sua fé. A Escritura afirma: “Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias” (Hb 11. 31). Podemos destacar três importantes lições sobre os estigmas da fé do livramento:

A fé do livramento implora pela preservação pessoal (Js 2. 8-13).
Israel estava a caminho da terra prometida. As nações pagãs estavam sendo desbaratadas. O povo de Deus rumava em direção à Terra de Canaã, imbatível. As notícias sobre os feitos de Deus chegaram ao povo de Jericó. Com isso, o medo dominou e mobilizou a ação do povo. As pessoas estavam apavoradas. Enquanto a crise havia infundido pavor e desânimo na nação inteira, em Raabe havia gerado fé. Os homens estavam possuídos pelo medo, mas Raabe estava cheia de confiança. Ela sabia que o Deus de Israel não é um deus territorial, mas o Deus em cima no céu e embaixo na terra (Js 2. 11), Ele é o Senhor do mundo inteiro. Ele é o Deus que opera acima dos homens e no meio deles. Essa verdade inundou o coração de Raabe de confiança. Sua fé não ficou olhando a derrota, mas implorou pelo livramento divino. Raabe clamou por socorro, e, por isso recebeu o livramento.

A fé do livramento implora pela salvação de toda família (Js 2. 12, 13).
A fé de Raabe não era individualista. Raabe não queria benevolência e salvação somente para si mesma, mas também para os seus entes queridos. Raabe foi salva, todavia sua fé desejou que toda a sua casa recebesse o livramento. Seu anseio era que todos os membros de sua família fossem alcançados pela bondade do Senhor, e isto aconteceu. A fé salvadora leva-nos a uma vida intensa de súplica em favor dos nossos. Raabe não aceita a decretação da derrota de sua família. Os prognósticos eram assustadores, todavia, a sua fé vislumbrou tempos de refrigérios para os seus progenitores e os seus consanguíneos. Raabe intercedeu pelos seus porque cria na intervenção divina.

A fé do livramento é acompanhada pela responsabilidade (Js 2.17, 18).
A ação salvadora Deus é sempre monergistica. Ele tanto gera a fé como concede o arrependimento para a vida eterna. Todavia, Ele não crê nem se arrepende pelo homem. O ser humano é um ser moral, portanto tem responsabilidades. Assim, a fé salvadora é uma fé responsável. A fé verdadeira implora pelo livramento pessoal e coletivo. Ela nunca deixa para amanhã aquilo que precisa ser feito hoje. Raabe tinha fé, e por conta disso, implorou pela salvação de sua vida e de toda sua família. Aquilo que fugia da sua área de atuação, ela colocou nas mãos do Senhor, mas o que estava ao seu alcance e sob sua responsabilidade, ela não delegou a outrem. Uma fé genuína não adia a oportunidade do hoje. Raabe implorou para que a misericórdia fosse manifestada sobre sua casa, mas coube a mesma evidenciar a fé pelas obras (Tg 2. 25).

Raabe tem muito a nos ensinar. Pela fé, Raabe foi salva e intercedeu pelos seus familiares. Pelas obras, Raabe materializou sua fé. A fé que você tem, clama por livramento? Ela o impulsiona a suplicar pela salvação da sua família? Ela é acompanhada pelas obras? Que a nossa fé também seja reconhecida por essas marcas.