sábado, 18 de fevereiro de 2017

O PARADOXO DA CRISE

As crises sempre fizeram parte da história da humanidade. Algumas podem ser evitadas, outras apenas adiadas, mas aquelas que inesperada e inevitavelmente se instalam trazem medo e instabilidade para o indivíduo e a sociedade. Muitos sucumbem, mas outros são erguidos. Muitos são enfraquecidos, mas alguns ficam ainda mais fortes. 
As crises sempre serviram de oportunidade para uma boa avaliação. Quando chegam, é tempo de fazer uma checklist. Elas oferecem mecanismos de onde extraímos lições preciosas para a nossa vida e servem até para a mudança de rota. Há histórias de pessoas que, diante do aparecimento de uma crise, adotaram um novo estilo de vida, com novos valores agregados, o singelo assumindo uma perspectiva de encanto, o tempo passando a ser valorizado, e a família recebendo uma atenção especial e singular. 
A natureza das crises são diversas. Pode ser de cunho existencial, interna e externa, pessoal, familiar, social, estrutural, econômica, política, moral e espiritual. Além disso, elas são oportunas para o florescimento de ideologias boas e más. Durante o seu “nascimento” e a sua permanência surgem os oportunistas para semear o joio no meio do trigo.
 Para exemplificar o que falamos, citamos o historiador Geoffrey Blainey, que afirma que a grande depressão econômica, após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), serviu de combustível para o comunismo e o fascismo.[1] Hoje todos sabemos que ambos fizeram um estrago irreparável na história da humanidade. Dessas correntes ideológicas surgiram homens autoritaristas, sanguinários e truculentos que perseguiram e mataram milhares de pessoas, além de levar várias populações à miséria.
A história do povo brasileiro tem muitos exemplos de crises. Elas permeiam a nossa trajetória desde o período colonial até a redemocratização. De alguma forma sempre estiveram presentes nos campos social, político e econômico. É necessário aprender e apreender de nossa própria biografia,  ler aquilo que aconteceu no passado e ficar atento com os acontecimentos presenciados no presente. A leitura da crise ocorrida é importante, pois pode ajudar no diagnóstico do colapso presente para então encontrarmos soluções.
Sob outro ponto de vista, durante as crises surgem homens que se despontam com soluções cabíveis, urgentes, necessárias, precisas e relevantes. Mas também líderes populistas e autoritários, cujo discurso é moldado pelos sofismas. Falam mentiras que se parecem verdades. Ludibriam a mente do incauto. Com isso, enganam o povo. Recentemente, vimos o que líderes populistas fizeram com o nosso país, bem como com nações vizinhas: mergulharam a economia e o moral de seu povo num poço profundo, de onde não sabemos quando vamos sair.
Dentre os vários paradoxos que uma crise pode apresentar, uma diz respeito à revelação que faz ser quem somos. Já sabíamos disso, mas, como efeito empírico, no dia 3 de fevereiro de 2017, ficou provado que a sociedade reflete o que cada indivíduo de verdade é. Com a instalação de uma convulsão na segurança pública do Estado do Espírito Santo - provocada por algumas mulheres que impediram os militares de cumprir a sua missão de agente protetor da sociedade, a fim de reivindicar aumento de salário, melhores condições de trabalho etc., surgiu uma oportunidade de colocar em tela um pouco de cada agente social.
Ficamos alarmados com os crimes praticados. Arrombamentos e saques de lojas. Assaltos e vários homicídios. Roubos, furtos e ônibus incendiados. Porém, além de todo caos, constatamos com tristeza que alguns indivíduos que tinham o NADA CONSTA impecável aproveitaram-se da situação para revelar o paradoxo da crise. Diversos motoristas não paravam no semáforo. Aproveitaram a circunstância nefasta para ignorar as normas de trânsito. Ficamos chocados.
Ainda outro paradoxo pode ser visto por intermédio dos veículos de comunicação. Embora tenham um papel importante no contexto social, ao mesmo tempo que divulga e faz cobranças necessárias, são instrumentos geradores de “pesadelo” social.
Finalizamos nossa abordagem com o modo como os chineses compreendem a crise. “Quando escrita em chinês, a palavra possui dois caracteres: um representa perigo e o outro oportunidade”. Portanto, inegavelmente, o risco existe num tempo de crise, mas também apresenta sublimes oportunidades. Precisamos ficar alertas, mas também atentos para as boas chances que surgem.  


[1] BLAINEY, Geoffrey; Uma breve história do mundo. São Paulo: Editora Fundamento Educacional, 2009. p. 297, 298.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A REFORMA PROTESTANTE COMO NOSSA PEDAGOGA

Introdução       
Cada geração tem traços peculiares de sua época. Com a nossa não é diferente. Uma marca de nosso tempo é que não temos apreço pelo passado. Todos temos história familiar, mas poucos têm interesse pela sua. Conhecemos quase nada sobre os nossos ancestrais. A nossa raiz genealógica é totalmente ignorada. Quando as coisas são ampliadas para o campo da história geral, fica ainda mais evidente que os filhos hodiernos não dão importância à história.
Para a nossa geração, os acontecimentos são deixados debaixo do escombro do passado, assim como os personagens que marcaram a época e deixaram um legado são ignorados. Quase sempre tratamos o passado como algo obsoleto e antiquado, um aspecto sem valor. Todavia, uma análise acurada fará com que a nossa percepção daquilo que aconteceu seja alterada. Uma “investigação” mudará o modo como lidamos com o que foi realizado.   
A história, portanto, transmite uma herança valiosa para aquele que deseja compreender o seu presente, a fim de tomar algumas medidas quanto ao futuro. Ela pode ser para o presente um instrumento instrutivo e possuir um aspecto admoestador e pedagógico, pois pode advertir quanto ao perigo e endireitar a nossa rota. Como herança, enriquece o nosso intelecto e nos ajuda na compreensão de situações emergentes.
A leitura da história deve ser feita dentro de uma observação daquilo que serve para nos advertir, bem como para nos orientar. Além do mais, a história tem como finalidade recordar-nos sobre fatos importantes que podem direcionar e redirecionar a nossa vida rumo ao futuro. A Reforma Protestante pode servir de base de comparação, ou melhor, de referencial para uma avaliação daquilo que tem acontecido agora, para que a geração cristã contemporânea possa avaliar a situação na qual a igreja encontra-se, pois só assim poderá cumprir a sua missão de ser sal da terra e luz do mundo.
        Ainda ressaltamos que as mudanças têm efetivado não somente uma colisão na estrutura social, mas também no modo como pensamos e lidamos com a história. Com isso, o impacto existencial na sociedade tem uma conexão com o passado, pois o presente é fruto de um processo lento vivenciado agora enquanto aquilo que chamamos história. O que aconteceu durante o tempo que denominamos ontem pode trazer consequências negativas ou positivas para o hoje e o amanhã. Somos filhos de nosso próprio tempo, mas também frutos de uma gestação histórica. Somos de muitos modos influenciados pelo processo histórico. E por isso somos o que somos, pensamos o que pensamos e fazemos o que fazemos.
De sorte que a soma daquilo que ocorreu, bem como daquilo que ocorre agora, sem dúvida alguma determinará algumas situações vindouras. Todavia, a história da igreja não precisa ser uma catástrofe lá na frente. Mas, para que isso aconteça, a igreja precisa compreender a sua situação presente para buscar resposta na história, a fim de não perder a diretriz acerca do porvir. Não devemos ser aprisionados pelo passado, mas devemos voltar lá para pegarmos referênciais que possam ajudar-nos no presente.   
        A igreja necessita fazer uma viagem ao passado, porque diversas vezes a solução para um problema contemporâneo tem sua solução lá atrás. Uma enfermidade pode ser curada com um antídoto feito há algum tempo. O problema até pode ser “novo”, mas a solução, antiga e eficiente. Basta lermos a história com os óculos certos para encontrarmos uma diretriz apropriada.
Se o nosso entendimento é que a história tem muito a nos ensinar, o que podemos aprender com a Reforma Protestante enquanto acontecimento histórico? Muitas lições podem ser extraídas desse momento que se tornou um marco na história ocidental. Aqui, todavia, vamos destacar duas:
Primeiro, a Reforma Protestante como nossa pedagoga ensina que a história é dinâmica. Enquanto evento, ela instrui que a vida ou a existência da igreja não é estática. Todavia, nem sempre aqueles que fazem parte da liderança eclesiástica acompanham as mudanças, percebem os equívocos e discernem os desvios de seu próprio tempo. Outros veem a real situação, mas são covardes. Não querem lutar pela verdade. Além disso, para tantos outros é confortável manter as coisas do jeito que se encontram.
A liderança que antecedeu o período da Reforma do século XVI teve a sua oportunidade para realizar mudanças necessárias na igreja. Mas, a sua opulência, o seu excesso de autoridade, o seu status promovido pela instituição e a sua condição espiritual não permitiram que aquela liderança percebesse como a “igreja” estava deixando de cumprir o seu papel. Da forma como estava, o seu fim seria trágico.
Por outro lado, durante tal período várias vozes ecoaram como proféticas. Alguns movimentos surgiram para protestar contra a situação na qual a igreja estava submergida, mas nada adiantaram, foram ignorados. Homens ergueram a voz para mostrar a negligência no que tange a pregação e instrução bíblica aos fiéis. O rebanho tinha sido deixado a mercê de sua própria sorte. Porém, quando as mudanças/reformas estão a cargo da instituição, cuja representatividade está sob aqueles que usufruem da benesse institucional, nada será efetuado.
        Nossa geração precisa aprender que as mudanças nunca acontecem quando ficam à mercê da estrutura institucional. Ainda que as vozes gritem para que sejam realizadas mudanças. Há, entretanto, um enrijecimento institucional que impede a flexibilidade que envolve alterações. Por conta disso, as vozes são ignoradas, os clamores, sufocados e o grito por mudança, cerceado. Por isso, as transformações não são concretizadas, além de outras razões, é claro.
        A leitura acerca do quesito aqui abordado vem tanto para alertar quanto para trazer esperança. Primeiro, se o “poder” de acompanhar o fluxo da história, a qual apresenta a necessidade de transformação, estiver sob a nossa responsabilidade de fazê-lo e, por razão egoísta, não o realizarmos, seremos cobrados. Segundo, por outro lado, mesmo que a instituição[1] impeça que tais reformas sejam realizadas, precisamos aprender que o sopro de Deus virá sobre a sua igreja. Saiba que o corpo de Cristo não é a denominação a que pertencemos, mas a igreja, a qual é formada por pessoas redimidas.
Precisamos ler a história para encontramos os vestígios da ação poderosa do Senhor no passado. Quando a instituição tenta impedir as reformas, urge a necessidade de compreendermos que um povo será levantado para fazer aquilo que apraz ao Senhor. Em momentos específicos, Deus levanta homens que sempre estiveram no anonimato. Eles são erguidos pelo poder do Espírito Santo, para que o povo de Deus ouça a boa nova do evangelho e a glória de Deus seja anunciada e conhecida. Portanto, nada nem ninguém pode aprisionar a mensagem gloriosa do evangelho da graça.
A história é nossa pedagoga. Ela prova de modo inegável que o mover do Senhor não pode ser confinado por nenhuma teologia, nem pode ser moldado pela forma, nem mobilizado pelo braço da instituição. Deus sempre esteve acima de tudo isso. Quando a Igreja Católica pensava que tinha a hegemonia teológica, Deus levantou Lutero para golpeá-la. Fica claro que o Espírito Santo é soberano. Ele é livre e poderoso. Sopra onde quer, sobre quem quer, usa quem quer, a hora que quer e realiza o que lhe apraz.         
Segundo, a Reforma Protestante como nossa pedagoga ensina que a linguagem precisa ser contextualizada. Para entendermos o ponto em questão, precisamos ver o que aconteceu antes e durante a Reforma e como era a linguagem teológica durante a Idade Média. A história dá conta que por séculos, durante boa parte do período, a teologia ficou distante da realidade do povo.
Naquele tempo o reduto de discurso da igreja estava confinado às cátedras. Não eram somente as paredes das universidades que impediam o povo de ter acesso à mensagem, mas também a linguagem incompreensível. Era uma teologia cuja mensagem era produzida somente para o espaço acadêmico, a qual não atingia a mente do “leigo”. Dentro daquela realidade, ficava no campo do abstrato, não chegava à concretude humana social e histórica. Não se materializava, porque não era prática e, portanto, também não tinha como ser praticada. 
Note que o período que antecedeu a eclosão da Reforma Protestante foi marcado pela pujança da teologia escolástica, que foi robusta em sua produção, mas raquítica em sua praticidade. Feita na universidade para aqueles que eram da universidade e viviam dentro do ambiente acadêmico. Portanto, estava longe da realidade do povo. Distante da mente do populacho, que não alcançava nem o intelecto nem as mãos, pois as pessoas não tinham como praticar aquilo que não entendiam.
Segundo González, a teologia daquele tempo tinha “[...] por base distinções cada vez mais sutis e um vocabulário cada vez mais especializado [...]”.[2] E, por fim, conclui: “[...] essa teologia perdeu contato com a vida diária dos cristãos, dedicando boa parte dos seus esforços a questões que interessavam somente aos próprios teólogos”.[3] Diríamos que era um capricho da mentalidade daquele tempo, uma pompa intelectual, uma verdadeira elucubração filosófica.
Claro que nem tudo pode ser ignorado nem rejeitado daquilo que foi produzido naquele tempo, nem essa é a proposta aqui. Não somos contrários à produção teológica da universidade, mas o que percebemos, assim como aprendemos da história da Reforma Protestante, é que os pré-reformadores, bem como os reformadores propriamente ditos, conseguiram trazer para o povo a mensagem da boa nova com uma linguagem inteligível e compreensiva para aquela geração.
No século XII, por exemplo, o pregador itinerante Pedro Valdo esforçou-se para distribuir porções da Escritura na língua do povo. Além disso, o culto passou a ser realizado na língua comum da população. Mais tarde, mesmo sob dura perseguição, os seus discípulos conseguiram lograr êxito entre muitos camponeses e operários.[4] No século XIV, outro homem, John Wycliff, fez com que a mensagem chegasse até os ingleses. Os seus tratados contra a opulência, os desvios e os equívocos da Igreja Católica tinham uma “[...] linguagem acessível ao povo comum”.[5] Além disso, Wycliff formou uma liderança de gente simples, porém homens cultos para espalhar a palavra de Deus entre os ingleses.[6] Caetano ressalta que seu maior legado “[...] foi a tradução da Bíblia para a língua do seu povo”.[7]
Muitos outros homens durante o período da Idade Média tiveram os mesmos intentos, entretanto foram cerceados pela perseguição implacável da Igreja Católica. Todos eles de alguma forma trouxeram contribuições importantes acerca dessa matéria. Serviram de instrumentos preparatórios para aquilo que haveria de acontecer no século XVI.
Diante disso, sem sombra de dúvida, os reformadores conseguiram efetivamente colocar a mensagem numa linguagem que fosse acessível ao povo e ao mesmo tempo compreensível. Lutero é muito lembrado pelas 95 teses afixadas na capela de Wittenberg, por intermédio das quais condenava os abusos e as distorções doutrinárias da Igreja Católica. Contudo, o mais magnífico feito do monge alemão foi colocar a Escritura entre o povo. Para que isso acontecesse requereu uma contextualização de linguagem bíblica. Ainda, foi por Lutero que hinos robustos na teologia ganharam o coração do povo. Depois de muito tempo, o cristão passou a cantar aquilo que acreditava. Os hinos cantados foram uma forma de contextualizar as verdades absolutas do evangelho. Com isso, Nichols afirma que: “Os alemães se congregavam em torno dessa religião cristã de portas abertas, de consciência aberta e de Escrituras abertas”.[8]
O nosso momento também tem as suas complexidades próprias. Muitas coisas mudaram. A nossa geração vive num período que tem sido denominado “era da informação”. Dentro desse campo, a comunicação ocorre de diversas formas e por intermédio de variados meios. Todavia, os homens não mudaram, ainda vivem cheios de temores, regidos por falsas esperanças e dominados por crendices. Nosso mundo ainda é habitado por homens pecadores, com as mesmas necessidades de outrora. Sendo assim, não precisamos de uma nova mensagem, mas, uma coisa é certa, ncessitamos  contextualizar a mensagem.
Nossa convicção é de que a verdade proclamada pelo reformadores no século XVI também deve ser pregada no século XXI, diz Horton, porém, “[..] é preciso entender melhor a condição do moderno e pós-moderno antes que o evangelho possa ser dirigido a nossos contemporâneos com poder e impacto”.[9] A história da Reforma Protestante enquanto nossa pedagoga pode auxiliar-nos na contextualização da mensagem bíblica para nossa geração.
Em primeiro lugar, como aprendizes que somos, temos que ter bem assentado em nossa mente que a história da igreja continua em movimento e jamais deve ficar paralisada, pois é um corpo vivo que anda, vê, fala, pensa, cria, percebe, discerni e reflete. Se nalgum momento a “igreja” ficar confinada à estrutura institucional/denominacional, morrerá asfixiada, para depois disso virar uma múmia, porque a igreja vai além da estrutura institucional. Não podemos esquecer que o oxigênio da igreja não vem da instituição. Aliás, a instituição pode até mesmo “matá-la”.
Em segundo lugar, como alunos da história, temos o dever de ler a nossa própria época, fazer um diagnóstico da nossa geração para pregar o evangelho. O homem continua sendo pecador. As suas necessidades só  podem ser supridas pelo evangelho. Contudo, a igreja tem a responsabilidade de fazer uma contextualização da mensagem.
Concluímos, portanto, que embora a nossa geração não precise de uma nova mensagem nem outra qualquer, devemos, porém primar pela pregação contextualizada, dentro da realidade contemporânea. A mensagem não pode ser sonegada ao povo, mas também cabe à igreja fazer com que seja acessível e compreensível em sua geração, época e contexto. Esse é o nosso dever de cristão. Essa é nossa missão como igreja. Aprendamos com a história da Reforma Protestante. Ela pode ser a nossa pedagoga.




[1] Uso aqui a palavra instituição como o propósito para se referir às denominações eclesiásticas.
[2] GONZÁLEZ, Justo L.; Visão panorâmica da história da igreja. São Paulo: Vida Nova, 1998. p. 16.
[3] GONZÁLEZ, Justo L.; Visão panorâmica da história da igreja. São Paulo: Vida Nova, 1998. p. 16.
[4] NICHOLS, Robert Hastings; História da igreja cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 143.
[5] NICHOLS, Robert Hastings; História da igreja cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 146.
[6] NICHOLS, Robert Hastings; História da igreja cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 146.
[7] CAETANO, FABIO HENRIQUE DE JESUS; História e teologia da evangelização. São Paulo: Arte Editorial, 2010. p. 58.
[8] NICHOLS, Robert Hastings; História da igreja cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 163.
[9] HORTON, Michael, Reforma hoje. São Paulo: Cultura Cristã, 1999. p. 125. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

RELEMBRANDO A REFORMA PROTESTANTE

Dizem que recordar é viver. Neste ano de 2017, a Reforma Protestante fará 500 anos. Iniciada em 1517 pelo monge alemão Martinho Lutero, que afixou, na porta da igreja do Castelo de Wittemberg na Alemanha, as 95 teses que confrontavam os ensinos da Igreja Católica Romana a respeito de várias questões teológicas vigentes. Com isso, o pontapé inicial para que a Reforma Protestante acontecesse foi dado.
A pergunta que não quer calar: por que relembrar algo que aconteceu há 500 anos? Algumas objeções podem surgir a respeito disso. Muitos poderão dizer que o passado deve ficar no passado, pois ele não tem nada a nos ensinar, afinal, estamos em pleno século XXI e, portanto, o presente é sempre melhor. Esse tipo de abordagem não edifica nem tem relevância para a nossa geração. Ainda sobre relembrar, alguns terão uma abordagem diferente. Há pessoas que só valorizam o passado. Vivem presas a ele, e não dão valor ao presente. “Tempo bom era antigamente!” - exclamam muitos. Porém, essa também não é um entendimento sadio.
Qual deve ser, então, a análise mais indicada em relação ao tema? A Bíblia ensina que o passado tem muito a nos ensinar. Existe um relato bíblico no qual a crise do momento é sanada com aquilo que foi falado e realizado na história. Ele mostra que dois discípulos a caminho para Emaús, após a ressurreição, estão decepcionados, pois não conseguem compreender a importância da morte de Jesus, que se aproxima deles (Lc 24.13-35). Após ouvi-los, Jesus os confronta e explica-lhes tudo que aconteceu a partir do Antigo Testamento. Ele olha para o passado, traz os ensinamentos para o presente e os aplica para aquela ocasião. Jesus os faz compreender o presente e transforma tanto o presente como o futuro deles. Essa é a abordagem sadia que devemos tomar. Mostrar a conexão do passado com o presente, para que o nosso futuro seja aguardado com viva expectativa.
A Reforma tem muito a nos dizer hoje. Aliás, ela foi uma forma boa de olhar o passado. “Reformar” significa trazer de volta a forma perdida. Quando falamos de Reforma Protestante retornamos às origens do cristianismo, que havia se perdido há muito tempo pela igreja dominante da época – a Católica Romana. O que existia era um falso cristianismo, distorcido.
De sorte que Lutero e Calvino, durante a Reforma, nada mais fizeram do que resgatar das Escrituras aquilo que já havia sido ensinado por Agostinho de Hipona (354 a 440 d. C), que, por sua vez, ensinou aquilo que fora dito pelos profetas e apóstolos, ou seja, o que a Escritura ensina.
A Reforma, portanto, foi um retorno à autoridade da Escritura (Sola Scriptura) e não às bulas papais ou ao ensino de homens; um retorno à salvação pela fé (Sola Fide) e não por sacrifícios ou indulgências; um retorno à salvação pela graça (Sola Gratia) de Deus e não por obras; um retorno a Cristo como único salvador (Solus Cristus) e não à igreja ou a seus representantes; e principalmente, um retorno à Glória de Deus (Soli Deo Glória) e não a de Papas, santos ou da igreja.
Ao relembramos a Reforma devemos entender que ela foi um dos mais importantes acontecimentos da história da igreja, assim como um dos maiores eventos da história ocidental. Ela não só alterou o curso da igreja, mas o do universo. O mundo de hoje, com todos avanços científicos, democracias, artes (em todos os aspectos), direitos civis, serviços públicos e muito mais, deve e muito àquilo que a Reforma Protestante conquistou.
Acima de tudo, devemos olhar para o passado e aprendermos principalmente que o Deus de Lutero é o mesmo Deus da Bíblia. Não podemos esquecer que: “Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre” (Hb 13.8). Se Deus fez uma grande Reforma no passado, não poderia fazer isso novamente hoje? Olhe para a igreja contemporânea. Será que ela também não está precisando passar por uma nova Reforma? Que Deus esteja sempre levantando homens fiéis para levar o seu povo de volta para Ele. Que Deus esteja sempre reformando a sua igreja para a sua própria glória. Amém!

Presb Luciano Sathler Faria exerce o seu presbiterato na IP Glória, Vila Velha 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A REFORMA COMO MOVIMENTO DE AVIVAMENTO ESPIRITUAL

O ano vigente tem atraído o interesse especial por parte de vários pensadores. No Brasil, especialistas acompanham com olhar atento a política e a economia. Nos EUA, a posse de Donald Trump foi aguardada com expectativa e receio. No oriente, os ataques terroristas também recebem atenção, pois a barbárie do medo assusta as nações europeias e, por que não dizer, o mundo. O interesse tem diversos matizes. Todavia, penso que dentre as várias razões, uma foge do campo convencional, pois tem como cerne um evento histórico ocorrido em 1517, o qual se tornou, desde então, matéria de debate e discussão na academia. Há 500 anos, o monge agostiniano alemão, Martinho Lutero fez algo que daria à história da igreja outro rumo, assim como a sociedade daquele tempo experimentaria os seus resultados numa dimensão jamais esperada e planejada.
A Reforma Protestante sem dúvida alguma é um marco na história ocidental. Minha parca iniciativa em escrever um sucinto texto sobre ela, teve como mola propulsora uma conversa que tive com um amigo semana passada, mas também por conta da recente publicação de dois artigos que circularam nos veículos de comunicação: um titulado como “Os 500 anos da Reforma Protestante, que abalou o mundo”, o qual foi redigido e publicado pela economista, também comentarista da Rádio CBN e Globo News, Míriam Leitão; O outro intitulado “Lutero e Trump”, escrito e publicado na Revista Veja, por Norman Gall, o qual dirige o Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, em São Paulo. No primeiro, parece-me que a articulista analisa a Reforma Protestante sob a ótica do resultado. Já no segundo, o articulista faz uma abordagem na qual quer mostrar “semelhanças” entre Lutero e Trump na utilização de veículos de comunicação.
Desde já, digo que talvez outros artigos tenham sido publicados, bem como muitos outros virão, mas tive acesso apenas aos dois supracitados. Tanto Míriam quanto Gall faz uma abordagem cuja ótica sobre a matéria parece-me ser periférica. Não tocam no ponto nevrálgico da Reforma Protestante. Por isso, urge a necessidade de compreendermos que, quando Martinho Lutero, em 31 de outubro de 1517, fixou as 95 teses na porta igreja de Wittenberg, só tinha um propósito. Claro que os efeitos da Reforma foram amplos, porém a intenção de Lutero era outra. Concordo com Adão Carlos Nascimento que o propósito de Lutero era reformar a igreja à qual pertencia.[1] Mas não uma reforma com algum fruto da inovação humana nem da criatividade na forma pensar ou fazer. A Reforma aconteceria por meio daquilo que foi esquecido.
De sorte que Lutero almejava, bem como promoveu um regresso ao ensino puro da Escritura Sagrada. Sua ênfase era trazer de volta a velha boa nova do evangelho para o pecador. Seu objetivo não era nem jamais foi promover um avanço no campo das ideias nem abrir um caminho para o surgimento do Iluminismo. Embora tenha acontecido uma transformação na política, na economia, na ciência e na filosofia, entretanto, as mudanças nessas áreas são fruto de um processo histórico “natural”.
Por muito tempo Lutero teve uma vida marcada pela culpa e pelo desespero. Seu drama com a questão do pecado nunca fora resolvido pela prática sucessivas de penitências. Embora tivesse uma prática religiosa robusta, durante a sua peregrinação religiosa a sua alma ainda não havia experimentado a doçura do perdão de Deus, porque esse não pode ser comprado nem é recebido por mérito. Quando, porém, Lutero descobriu na Escritura que a “justificação é pela fé somente” (Rm 1. 17), ele não pôde mais ficar calado. A verdade, outrora perdida no escombro da história da Igreja Medieval, sufocada pela tradição da igreja e distorcida pela ganância sacerdotal, foi redescoberta e anunciada aos pecadores.
Para ele, o evangelho precisava ser proclamado para o seu povo. Sendo assim, começou a pregar que a salvação é pela graça somente, mediante a fé em Jesus Cristo. Com isso, uma oposição ferrenha havia de surgir. Por quê? Porque a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) estava engajada na venda sistemática de indulgências. Disso emana o protesto de Lutero por intermédio de suas 95 teses contra a venda de indulgências e a teologia que dava sustentação para a sua prática. Portanto, daqui surge na história da igreja o maior movimento de avivamento espiritual. A verdade que por muitos séculos havia sido sonegada agora era anunciada para alegria e alívio do povo. 
A tônica principal da Reforma Protestante era que a salvação não é comprada, é recebida por meio da fé somente. Aquilo que Cristo realizou na cruz é totalmente suficiente para o pecador receber o pleno perdão de Deus. Nada do que fez, faz ou vier a fazer pode conquistar o favor de Deus. A única coisa que precisa fazer é acatar ou responder positivamente () e negativamente (arrependimento) as reivindicações do evangelho: arrependa-se e creia no evangelho. Sei que a Reforma Protestante trouxe várias transformações, mas, sobretudo, o seu começo é uma clara demonstração de avivamento espiritual: um retorno à Escritura, à centralidade de Cristo, à eficiência da graça na salvação, à exclusividade da fé enquanto instrumento de apropriação da salvação e à vida que deve ser vivida para a glória de Deus. Definitivamente, a Reforma Protestante é um movimento de avivamento espiritual.      




[1] NASCIMENTO, Adão Carlos. A razão de nossa fé. São Paulo: Cultura Cristã, 1981. p. 5. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O FRACASSO DO ESFORÇO HUMANO NA BUSCA DA JUSTIFICAÇÃO

A Epístola aos Gálatas pode ser dividida em três seções: 1) A primeira seção (Cap. 1, 2) tem um caráter auto-biográfico. Nela Paulo faz uma defesade seu chamado e sua credencial apostólica. 2) A segunda seção (Cap. 3, 4) tem um caráter mais doutrinário. Nela Paulo combate o pernicioso ensino legalista dos judaizantes. 3) A terceira seção (Cap. 5, 6) tem um caráter mais prático. Nela Paulo argumenta como o cristão deve viver, apresentando-lhe algumas implicações éticas da verdadeira liberdade cristã.

A Epístola de Paulo aos Gálatas tem sido chamada de Carta Magna da liberdade cristã. Tal nomenclatura faz jus aquilo que o apóstolo ensina, pois, diz: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou, permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão” (Gl 5. 1).

Robert H. Gundry, afirma que: “[...] a epístola aos Gálatas é a grande carta patente da liberdade cristã, que nos livra de todas as opressivas teologias de salvação através dos esforços humanos, e que, por outro lado, serve de grandiosa afirmação da unidade (não uniformidade) e igualdade de todos os crentes, dentro da Igreja de Jesus Cristo”.[1]   

Para Broadus David Hale, “[...], Gálatas é o manifesto de Paulo contra a perversão da graça de Deus. A contínua batalha entre o legalismo e a graça de Deus é definida nesse livro”.[2] O legalismo escraviza o homem, pois o convence de que a graça de Deus só será recebida definitivamente mediante o esforço meritório.

Para Merril C. Tenney, Gálatas é “[...] um protesto contra a distorção do evangelho de Cristo”.[3] Desde o início da Epístola, Paulo revela a sua indignação e perplexidade: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho” (Gl 1. 6).

Nessa Carta fica claro que a graça da justificação de maneira nenhuma é resultado da observância da lei. A argumentação de Paulo parte da experiência vivida no passado por aqueles crentes, para relembrá-los que a justificação é pela fé somente.

A tônica do ensino apostólico aqui é a doutrina da justificação pela fé somente, então, para isso, Paulo recorre a algo que havia acontecido com aqueles cristãos quando ouviram a mensagem da cruz.

Sendo assim, perguntamos: o que determina que um indivíduo é verdadeiramente um cristão? Seria tão somente a fé naquilo que Deus realizou por intermédio de seu Filho? A fé é suficiente para a nossa justificação? Seria a fé em Cristo mais a incorporação de ritos do judaísmo ou coisa parecida?

Os judaizantes diziam que a fé não era suficiente. Era necessário agregar os ritos, especialmente o rito da circuncisão (At 15. 1). Porém, o ensino judaizante comprometia a mensagem do evangelho. Por isso, o apóstolo Paulo trata o assunto com enérgica veemência.
   
·        Crentes insensatos (Gl 1. 1).
Na primeira seção, Paulo havia feito uma defesa da suficiência do evangelho da graça de Deus. O apóstolo havia mostrado o “[...] contraste entre a mensagem judaizante, a qual requeria a aderência à lei mosaica como condição de salvação”[4] (Gl 2. 16).

Paulo tanto comporta-se como apóstolo que é, mas também como pastor para tratar a questão. Ele se dirigi àqueles cristãos chamando-os de irmãos (Gl 1. 2, 11; 3. 15; 4. 28, 31; 5. 13; 6. 1, 18). Mas, além disso, também toma a figura de uma mãe para se dirigir àqueles cristãos. Ele diz: “meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós;” (Gl 4. 19). Paulo é um pastor amoroso, mas também é um profeta ousado.    

Você já viu um pai irritado? Aqui Paulo age como um pai irritado por causa da atitude insensata de seus filhos. Um pai irritado por causa da insensatez de um filho, diria: “você perdeu o juízo?”. A postura daquela igreja era fruto de falta de juízo.

Trocar a graça pelo legalismo, a fé pela obra da lei, era um regresso absurdo. Era cometer aquilo que Paulo alerta: “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes” (Gl 5. 4).

Buscar a justificação por meio da circuncisão era sinal de falta de compreensão e raciocínio. Era como se aqueles cristãos tivessem abandonado o uso da razão. Buscar a justificação por meio de obras da lei, afirma Donald: “[...] sugere não só incapacidade de pensar quanto falha em fazer uso dos poderes mentais”. [5] Ou conforme afirma Davidson, aqueles crentes estavam “[...] destituídos de bom senso”.[6] 

O método de Paulo, portanto tem como finalidade despertar a consciência daqueles cristãos. Para alcançar êxito, o apóstolo utiliza como método cinco perguntas retóricas, para fazer com que os cristãos da Gálacia percebam o grande equívoco que estavam cometendo (Gl 3. 1-5). Dê uma conferida no texto, por certo você será enriquecido.




[1] GUNDRY, Robert H.; Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1978. p. 290.
[2] HALE, Broadus David; Introdução ao estudo do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001. p. 247.
[3] TENNEY, Merril C.; O Novo Testamento sua origem e análise. São Paulo: Shedd, 2008. p. 281.
[4] GUNDRY, Robert H.; Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1978. p. 293.
[5] GUTHRIE, Donald; Gálatas: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984. p. 114.
[6] DAVIDSON, F.; O Novo comentário da Bílbia. São Paulo: Vida Nova, 1997. p. 1238.