sábado, 24 de dezembro de 2016

DEUS ABRIU MEU CORAÇÃO, MAS FUI EU QUEM CRI.

A discussão sobre a conciliação entre soberania divina e responsabilidade humana sempre ocupou os compêndios da teologia sistemática. Para alguns, a discussão já é coisa resolvida, para outros, entretanto, ainda é um assunto interminável e irreconciliável. O debate ocorre tanto na esfera acadêmica quanto nos corredores da igreja. Todavia, o estudante da Escritura precisa ter cautela, bom senso e sobriedade para tratar da matéria, sem fazer “um corte cirúrgico” na interpretação bíblica, pois fazê-lo abrirá uma fenda irreparável.

Por essa razão, entendo que a forma como os teólogos da Abadia de Westminster trataram esta questão é deveras formidável. Eles foram extremamente sábios quanto à produção teológica, pois, além de responder as indagações da época e corrigir os equívocos, conseguiram manter o equilíbrio bíblico doutrinário, assim como dosaram as verdades supra de acordo com o ensino da Escritura. Hoje, uma leitura cuidadosa da Confissão de Fé de Westminster, com toda certeza servirá de “vacina” contra o arminianismo e contra o hiper-calvinismo. A teoria arminiana diz que tudo acontece por causa da decisão do homem. Com isso, caímos numa armadilha humanista. Já a teoria hiper-calvinista centraliza tudo na ação de Deus. Daí, somos levados para uma teologia abstrata, sem conexão com a esfera histórica, existencial e social da decisão humana. A primeira centraliza no homem, a segunda de certa forma nega que o homem é responsável por suas decisões. 

Para exemplificar, cito uma experiência ocorrida comigo. Quando fui apresentado ao presbitério, como aspirante ao sagrado ministério da palavra, para ser examinado, um membro da comissão interrompeu-me para corrigir uma afirmação que havia feito. Relatei que tinha me convertido ao Senhor, então, o irmão interrompeu a conversa, e disse-me: “espere um pouco”. “Você não deve falar que se converteu ao Senhor, mas, sim, que o Senhor te converteu”. Ele estava preocupado com uma faceta, entretanto, com a sua fala, infelizmente omitiu outra parte da verdade. Com toda certeza foi Deus quem me converteu, mas, também é verdade igualmente que me converti ao Senhor. Sua fala tinha um propósito: demover de minhas convicções todos os resquícios do arminianismo. Porém, embora estivesse preocupado com a soberania divina, todavia, não estava tão preocupado com outro axial bíblico: a responsabilidade humana.

Hoje, de igual forma temos diversos irmãos que têm as mesmas preocupações. Não suportam ouvir um cristão afirmando que um dia tomou a decisão de aceitar a Cristo. Para tais irmãos é inconcebível tal assertiva. Contudo, não percebem que ratificar uma verdade sem enfatizar outra pode fragmentar o todo, pois a soberania divina e a responsabilidade humana não são excludentes. Diante disso, precisamos ouvir a Escritura, para vermos o que a mesma revela sobre a soberania divina e a responsabilidade humana.   

        
A mesma Escritura que destaca com veemência a ação soberana do Senhor na salvação, também ressalta com força persuasiva a responsabilidade humana. De sorte que, não existe contradição nem dicotomia, embora haja aparente paradoxo. Nosso propósito, aqui, não é fazer uma exegese nem elaborar um compendio acadêmico, porém demonstrar à luz da revelação escriturística as duas verdades de modo sucinto. Também não vamos colocar somente os textos que tratam diretamente da doutrina da salvação, por vezes citaremos alguns versículos que atribuem a total responsabilidade do ser humana, sem, contudo, destronar Deus de seu trono. Um crente que tem simpatia pelo hiper-calvinismo fica tão preocupado com tal situação que fecha os olhos para a questão da atribuição feita pelo Senhor aos homens. Entretanto, a Escritura não omite a verdade da soberania nem esconde a verdade da responsabilidade humana.
        
Por isso, os teólogos de Westminster não hesitaram em afirmar que os eleitos são habilitados pela graça da fé, a crer para a salvação. Tal graça é operada pela ação do Espírito, mediante o ministério da palavra.[1] Mas, além disso, eles não se eximiram em demonstrar que a graça da fé salvadora possui atos, dentre os quais destacamos: o aceitar e o receber a Cristo.[2] Para os teólogos de Westminster, embora Deus seja quem concede a graça de crer, entretanto é o homem quem aceita e recebe Jesus como o redentor e Senhor. Ao que parece, para os nossos irmãos não havia incompatibilidade entre as duas verdades citadas.

Sendo assim, entendo que o pregador, o evangelista ou seja lá a nomenclatura que empregaremos para aqueles que anunciam o evangelho, precisa saber que Deus é o doador tanto da fé salvadora como do arrependimento salvífico. Porém, a Palavra de Deus também fornece forte subsídio de que a responsabilidade é totalmente lançada sobre o homem. Para exemplificar veja alguns textos que versam sobre a matéria. O evangelista Marcos registra que Cristo iniciou o seu ministério enfatizando as duas reivindicações do evangelho.  Ele diz: “Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: o tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1. 14-15). A mensagem anunciada pelo Senhor Jesus é categórica: o dever de arrepender e crer é de responsabilidade do homem.
        
Assim como vemos tal ênfase no ministério de Cristo, também da mesma forma vemos o realço da soberania diviana responsabilidade humana no ministério dos apóstolos. A Bíblia registra que depois que os apóstolos foram revestidos de poder para realizar a tarefa que receberam, as duas verdades seguem o seu curso da seguinte forma. Numa situação é narrado o que Deus faz, noutro é enfatizado o que o homem deve fazer. Veja como é registrado esse axioma. No primeiro sermão evangelístico pós-pentecostes, o apostolo Pedro se dirigiu aos seus ouvintes nos seguintes termos: “Arrependei-vos, [...]” (At 2. 38). Noutro lugar, o mesmo pregador diz: “Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para a vida” (At 11. 18). Quando as pessoas confrontadas pela mensagem perguntaram a Pedro, o que deveriam fazer para serem salvas, ele disse: “se arrependam”. Mas, a sua mente estava persuadida de que o arrependimento é uma dádiva divina. Por isso, que em seu relatório a liderança de Jerusalém a fala aponta para a graça de Deus: “Deus concedeu o arrependimento para a vida”, disse Pedro.

         Da mesma sorte, Paulo, o apóstolo temporão também foi indagado sobre o que fazer para ser salvo pelo o carcereiro. O carcereiro da prisão que ficava em Filipos, perguntou: “Senhores, que devo fazer para que seja salvo?” (At 16. 30). Paulo respondeu: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, [...]” (At 16. 31). Porém, numa passagem anterior, Lucas relata que foi Deus quem abriu o coração de Lídia: “o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia” (At 16. 14). Note que as verdades caminham lado a lado. Noutro lugar, Paulo diz que a fé é gerada pela pregação. Ele diz: “a fé vem pela pregação” (Rm 10. 17). Diz ainda que, a natureza da fé é divina: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Ef. 2. 8). Porém, na mesma Epístola diz: “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa” (Ef 1. 13). Diante disso, a conclusão que chegamos é a seguinte: uma pessoa pode e deve afirmar que Deus quem concede o arrependimento para a vida, mas, também pode afirmar que foi o homem quem se arrependeu para a salvação; pode afirmar que Deus doou a fé, mas também pode afirmar que foi o homem quem creu. O individuo pode e deve afirmar que a sua fé foi uma dádiva concedida pelo Senhor, porém, também poderá afirmar sem medo, que se não tivesse crido jamais seria salva. Cri no Senhor Jesus, e, por isso, fui salvo.  
           
         Aquilo que Deus concede como dádiva de sua graça, por certo precisa ser exercitada pelo sujeito que a recebe. Antes de receber o homem era um objeto passivo da ação divina. Todavia, após a habilitação espiritual, o homem torna-se um sujeito ativo para receber aquilo que lhe é oferecido pela graça de Deus. Por isso, não temos porque temer em afirmar que aceitamos a Cristo, que o recebemos como nosso Senhor, que abrimos a porta de nosso coração para o Salvador entrar. Porém, tudo isso acontece ou aconteceu porque o Espírito Santo agiu em nossa vida. Agora, que as inclinações carnais foram vencidas pelas inclinações espirituais, então podemos dizer que cremos em Cristo, nos arrependemos e nos convertamos de nossos maus caminhos. Não tenho dúvida de que foi Deus quem abriu meu coração para que eu fosse salvo, mas, também não tenho dúvida de que fui eu quem cri para a salvação. As duas verdades são terminantemente bíblicas. Portanto, podemos afirmar tanto uma quanto a outra.   



[1] A CFW. São Paulo: Cultura Cristã, 1994. p. 75.
[2] A CFW. São Pualo: Cultura Cristã, 1994. p. 76.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O JESUS QUE PRECISA SER CONHECIDO

O evangelista João, também conhecido como o discípulo amado, destaca uma rede de discípulos que vai se formando durante a caminhada. Os seguidores de Cristo vão sendo direcionados por meio daquilo que a Escritura do Antigo Testamento havia predito. Prova disso é que João Batista ao apontar para Jesus como sendo Ele o cordeiro de Deus (Jo 1. 29, 33), dois de seus discípulos imediatamente seguiram ao Senhor Jesus. Portanto, havia uma conexão entre o Cristo batizado por João Batista e o Cristo da Escritura. 

Temo, entretanto, que o cristo de nossos dias seja um cristo fruto da nossa imaginação religiosa. Temo que seja um cristo fabricado de acordo com a nossa predileção e gosto. Todavia, urge a necessidade de apresentarmos ao mundo/pessoas o Cristo da Escritura. Aquele que é Senhor, aquele sobre quem Moisés escreveu, os profetas referiram e que veio na plenitude dos tempos.