quarta-feira, 26 de março de 2014

OS MODERNOS FARISEUS

OS MODERNOS FARISEUS1

Os cristãos das igrejas da Galácia haviam iniciado a caminhada cristã de modo correto. A pregação chegou aos gálatas como uma mensagem num outdoor, cujo anúncio havia causado um impacto profundo e transformador. O evangelho que receberam foi o da graça de Deus, cujo cerne era a pessoa de Cristo, sua morte e ressurreição. A mensagem da graça tinha desarraigado aqueles crentes do mundo perverso. Todavia, não demorou para que os cristãos que foram alcançados pela pregação do evangelho sofressem um forte assédio por parte do legalismo judaizante. Os judaizantes pregavam um evangelho híbrido, porque ensinavam que era preciso adicionar a lei da circuncisão ao evangelho da graça, para a salvação. Com isso, além de desviar e perturbar os crentes, também pervertia “[...] o evangelho de Cristo” (Gl 1. 7).

Na verdade, eles pregavam outro evangelho. O ensino judaizante havia enfeitiçado a mente daqueles que haviam recebido o evangelho da glória de Cristo. A sedução da estética ritualística da circuncisão havia capturado o intelecto e o coração dos gálatas. O apóstolo Paulo, porém, os adverte com a seguinte mensagem: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho” (Gl 1. 6). Mais adiante diz: “Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, [...] (Gl 3. 1).   

Os gálatas que ouviram a gloriosa boa nova de salvação em Cristo agora estavam prestes a abraçar um evangelho espúrio, nascido no coração do homem, que não era do céu, mas da terra. Eles, que tinham recebido o Espírito pela pregação da fé, agora estavam atando sobre os ombros novamente o fardo da lei. Aqueles que foram libertos por Cristo agora precisavam ouvir a solene advertência: “Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão” (Gl 5. 1). Eles, que começaram no Espírito, agora estavam buscando o aperfeiçoamento pela obra da carne.

Historicamente fica comprovado que a igreja sempre teve que enfrentar os extremos. Tais extremismos são oriundos de uma má interpretação bíblica e uma falsa compreensão da vida cristã. Sempre que a hermenêutica foi utilizada de modo inapropriado, os opostos surgiram como consequência de equívoco, ou desvio exegético ou interpretativo. Por exemplo, não é incomum encontrar nestes mais de dois séculos da era cristã o surgimento de grupo que defendia a corrente antinomista. Outras vezes, porém, do outro lado da “pista” surgiam dentro da comunidade da fé aqueles que ardorosamente abraçaram o velho farisaísmo sem vida. Enquanto que o primeiro rejeita toda a lei, em nome da graça, o segundo apega a toda lei, em nome da “santidade”.

Percebemos que ao longo da história da igreja de Deus têm surgido as duas vertentes. Aqui, porém falaremos apenas da segunda, para fazer jus ao título do texto: “Os modernos fariseus”. Quem são os modernos fariseus hodiernos? O que fazem? Antes, porém, urge a necessidade de entendermos uma coisa aqui: o tempo passa, as eras vão, as coisas mudam, mas aqueles que tentam adicionar novos elementos ao evangelho jamais acabam. Em alguns casos até usam novas vestes, porém as motivações são as mesmas do passado, ou seja, desviar os crentes do verdadeiro evangelho da graça de Deus.

O escritor inglês, John Bunyan, em sua magnífica obra, O peregrino, conta que durante a caminhada de Cristão, personagem fictício, surgem muitos outros personagens, dentre os vários personagens, surge o senhor Sábio-segundo-o-mundo. Cristão conta-lhe que a caminhada está sendo difícil, porque o farto é pesado. Daí, Sábio diz que existe uma vila chamada moralidade, onde mora um cavalheiro chamado Legalidade. Com isso, cristão fica entusiasmado com a proposta e envereda-se pelo caminho do atalho. Mais tarde, porém, encontra Evangelista. Quando cristão vê Evangelista fica profundamente envergonhado por ter seguindo outro rumo, todavia, Evangelista traz-lhe uma palavra de exortação, mas também de consolo. Evangelista, diz: “o meu justo viverá pela fé”.2 O grande problema do moderno fariseu é que não consegue vive somente pela fé. Ele precisa de sua justiça própria, assim como de outros instrumentos. Entretanto, fica o alerta: “Para aqueles, como os fariseus, que buscam ser justificados mediante a própria justiça, a lei surge para condenar e julgar”.3

A história contada por Bunyan é um reflexo de muitos cristãos, que seduzidos pelas vozes dos modernos fariseus vão para a vila moralidade, a fim de receber ajuda do cavaleiro legalidade. Contudo, na moralidade ninguém encontra alívio, pois legalidade não corta as amarras do peso de ninguém, na verdade, ata outros fardos ainda piores. Na caminhada, o cristão precisa ficar atento com as muitas vozes que ecoam de vários cantos. A persuasão vem de todos os lados, assim como vários mecanismos são utilizados para o convencimento dos incautos. Ora usa-se a voz para convencer, algumas vezes usa-se o comportamento para persuadir. Não importa quais são os modos, o certo é que são manuseados de todas as formas.

Hoje, os modernos fariseus são como camaleões, pois mudam de cor conforme a situação e o momento. O grande problema dos modernos fariseus, porém, é que não conseguem viver somente pela fé. Eles precisam de sua justiça própria, assim como de outros instrumentos. Os fariseus usam a capa da lei. Sua roupa é o legalismo pesado, sem vida e com ranço de morte. Entretanto, fica o alerta: “Para aqueles, como os fariseus, que buscam ser justificados mediante a própria justiça, a lei surge para condenar e julgar”, afirma Michael Horton. Diz a Escritura que: “qualquer que guarda toda a lei, mas torpeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2. 10).

O fariseu veste a capa da justiça própria. O legalismo é a roupa do disfarce daquele que transmite uma aparência daquilo que não são, porque uma de suas principais marcas é a hipocrisia. Por isso, urge a necessidade de sermos vigilantes, porque a hipocrisia ronda-nos o tempo inteiro. Ela está mais perto do que imaginamos. Só para ter uma ideia, nem o apóstolo Pedro foi poupado de revelar o seu lado hipócrita, porque está escrito que: “Com efeito, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; quando, porém, chegaram, afastou-se e, por fim, veio a apartar-se, temendo os da circuncisão” (Gl 2. 12). Isto aconteceu, porque a face hipócrita procura manter a política da boa vizinhança. Os “hipócritas são fanáticos por aprovação”,4 A o aqui temos um protótipo daquilo que é uma hipocrisia. O nosso lado hipócrita é a face do fariseu.

Os fariseus estão sempre buscando a aprovação de Deus por meio daquilo que fazem ou deixam de fazer, porém, a Escritura é categórica em afirmar que: “[…] é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus” (Gl 3. 11). Os fariseus supervalorizam as normas, os preceitos e as leis. O legalismo farisaico é extremamente apegado a questão estética. Tal atitude, porém é uma forma de adorar a nossa própria justiça, nossa própria virtude e nossa própria força moral.5 Todavia, o conselho bíblico diz que sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11. 6). Ele diz que, o justo viverá pela fé somente.

Saiba que no mundo só existem duas religiões: a antropocêntrica e a teocêntrica. A primeira está centralizada no homem. Ela enfatiza que tudo depende do homem. A segunda tem como centro o Senhor Deus. Ela destaca que tudo depende de Deus. Aqui fica evidente que os modernos fariseus não são diferentes dos fariseus contemporâneos de Jesus e dos apóstolos, pois têm os mesmos equívocos acerca do perdão divino. Para eles, a graça é meritória. O favor divino é conquistado humana. Ensinam que a justificação está atrelada aquilo que fizemos ou deixamos de fazer. Todavia, quem procura justificar-se por intermédio da observância da lei está insultando a obra de Cristo.

  Fica aqui, portanto, o alerta, para aqueles que têm acatado a instrução dos modernos fariseus, daqueles que tem buscado o favor de Deus pelas obras que fazem. Porém, para você que começou com Cristo, a palavra de incentivo é: continue somente com Cristo. A recomendação bíblica diz: “de fé em fé, como está escrito: o justo viverá por fé” (Rm 1. 17). Amado, não podemos começar no Espírito e terminar na carne. Pleitear a justificação pela guarda da lei é promover uma ruptura com a graça. Nossa justificação não é pela lei das obras, mas pela lei da fé. O homem é justificado pela fé somente.

Tome cuidado, porque aquele que buscar a justificação pela instrumentalidade da lei, impreterivelmente, será desligado da graça, porque está escrito: “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes” (Gl 5. 5). Enquanto a lei da fé liga o pecador a Cristo, a lei da lei desliga o pecador da graça. A lei da fé ergue o caído, a lei da lei derruba o que está de pé. Uma conecta e levanta o homem, a outra desconecta e o derruba. A justificação pela fé absolve o homem de seus pecados; mas a justificação pela lei mantém o homem debaixo do juízo divino. E você, tem permanecido na justificação pela fé, ou tem buscado a justificação pela lei?



1 Os modernos fariseus é uma expressão que aparece na estrofe do hino – 147, do Hinário Novo Cântico.
2 BUNAYAN, John; O peregrino. São Paulo: Mundo Cristão, 2006. p. 15-21.
3 HORTON, Michael; A lei da perfeita liberdade: a ética bíblica a partir dos dez mandamentos. São Paulo: Cultura cristã, 1993. p. 24.
4 MANNING, Brennan; Falsos, metidos e impostores. São Paulo: Mundo Cristã, 2008. p. 39.
5 HORTON, Michael; A lei da perfeita liberdade: a ética bíblica a partir dos dez mandamentos. São Paulo: Cultura cristã, 1993. p. 39.

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