sexta-feira, 27 de julho de 2012

MORALIDADE, A ROUPA DO ORGULHO RELIGIOSO


MORALIDADE, A ROUPA DO ORGULHO RELIGIOSO
Certa feita, um amigo partilhou sobre a “pujança” de sua vida de oração. Ele disse-me que a sua meta era orar duas horas por dia de modo ininterrupto. Para atingir seu objetivo sagrado, bem como para evidenciar a sua espiritualidade tupiniquim, colocava uma fita cassete num toca fita auto-reverse, pois era o meio que demarcava começo, meio e fim. Quando o primeiro lado da fita terminava, a metade do percurso da sua maratona havia sido cumprida, então aguardava a finalização do segundo lado para completar sua jornada diária. A primeira vez que ouvi isso fiquei fascinado pelo seu fôlego de oração. Hoje, porém, não fico nem um pouquinho impressionado com este tipo de devoção. Não posso negar que meu amigo tinha disciplina, mas também devo admitir que a sua prática religiosa estava coberta do manto orgulhoso da religiosidade. Para ele seu orgulho religioso estava vestido de “piedade”, mas pode ser que o meu e o seu esteja com uma outra ou outras roupagens.

Ainda é preciso dizer que, para meu amigo, a oração deixou de ser um deleite e tornou-se uma norma preceitual, deixou de ser um meio de graça e tornou-se um fardo, deixou de ser um cultivo da intimidade com Deus e tornou-se um ritual árido. A vida cristã, no entanto, jamais deve ser medida pela quantidade de regras que uma pessoa observa nem pela quantidade de preceitos que guarda, mas pela liberdade que a graça proporciona-lhe em Cristo, para viver, orar e amar ao Senhor. Na dispensação do Evangelho está escrito: “Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor” (Gl 5. 6). Por isso, não adianta ser um exímio cumpridor das normas ritualísticas nem um supremo guardião das tradições dos anciãos, mas ser um inveterado violador dos mandamentos divinos. De sorte que, não adianta honrar o Senhor com os lábios, mas ter o coração longe dele.

Isso tudo lembra-nos sobre a postura dos fariseus. Eles orgulhavam-se da sua moral e da sua prática religiosa. Na verdade, o orgulho farisaico tem muitas facetas. Mahaney afirma que: “O orgulho assume inumeráveis formas, mas possui apenas uma finalidade: autoglorificação”.1 No meio religioso seu principal traje é a moralidade. Por conta disso, o orgulho tem uma indumentária bela e colorida, que impressiona de longe, porém de perto possui um ranço de podridão, um odor de privada e uma aparência de sepulcro caiado, pois por fora se mostra belo, mas por dentro está cheio de ossos e sujeiras. A veste externa do orgulho é a moralidade. Muitas pessoas se orgulham porque não são como os demais pecadores. Elas não bebem, não fumam, não são adulteras e não sonegam impostos. Quando perguntadas sobre os mandamentos, elas são ávidas em responder: “Tudo isso tenho observado desde a minha juventude” (Lc 18. 21). O currículo delas do lado externo é bonito de se ver, porém a parte interna está borrada pelo disfarce da hipocrisia que usam o tempo todo, para conservar a imagem de perfeição diante do público, pois temem ser conhecidas de fato como são.

Na verdade, o moralismo enquanto roupa do orgulho religioso é a catequese da escola dos fariseus. Os alunos desta escola são aprendizes do fariseu da parábola contada por Jesus cujo padrão de justiça são suas obras. De modo que a pós-graduação do farisaísmo é o moralismo religioso. O uniforme da universidade do orgulho religioso é o moralismo. As pessoas dessa “instituição” não dão espaço para aquilo que Cristo fez. O orgulho delas gira em torno do que não fazem, assim como do que fazem. Em suma, elas confiam nas suas obras. O outdoor da aparência é a principal preocupação dos moralistas. Brennan Manning afirma que: “Impostores se preocupam com aceitação e aprovação. Por causa da necessidade sufocante de agradar os outros, não conseguem dizer 'não' com a mesma convicção que dizem 'sim'. Assim, fazem das pessoas, dos projetos e das causas extensões de si, motivadas não pelo compromisso pessoal, mas pelo medo de não corresponder às expectativas das pessoas”2. Isso é o desvio da vida cristã.

Contudo é preciso que fique claro, o orgulho é filho da pretensa autonomia. O homem sempre quis ser um ser autônomo. Ele sempre quis ser igual a seu Criador. Sua queda é resultado daquilo que desejou ser: ele quis ser como Deus. De sorte que, a gestação do orgulho ocorre dentro do coração, mas sua forma estética é o comportamento. A moralidade tende a tornar as pessoas cheias de si mesmas. Os legalistas fariseus orgulhavam-se de si mesmos pela seguinte razão: “eu faço”, ou “eu não faço”, ou “eu não sou como”, ou então, “eu sou”. O seu pecado principal é a egolatria. Logo, isso está intimamente relacionado com aquilo que pensam ser. Para os fariseus, a prática é o que são em essência. O moralista está mais preocupado com a imagem que é passada para as pessoas, ele é um impostor que “apregoa sua escuridão como se fosse a luz mais intensa, disfarçando a verdade e distorcendo a realidade”.3 Pessoas cujo vestido é a moralidade nunca são conhecidas pela essência, mas pela aparência projetada pela imagem dos óculos 3D, parece, mas não é.

Entretanto, essas coisas nem atingem nem transformam o coração de ninguém. É como afirma Mark Driscoll: “a realidade é que as regras, as regulamentações e a busca de uma moralidade exterior são essencialmente incapazes de prevenir o pecado. Elas podem, na melhor das hipóteses, reorganizar a carne e fazer com que as pessoas parem de beber, fumar e fazer sexo, apenas para torná-las orgulhosas de sua elevada moralidade”.4 Diante disso, afirmamos que a moralidade é o avental do orgulho. Ele avilta a transparência e a sinceridade. Além disso, ela faz com que as pessoas se sintam orgulhosas daquilo que fazem. Muitas coisas que as “instituições eclesiásticas” fazem não passam de dogmas moralistas preceituais. As tradições dos anciãos ganharam novas roupagens, todavia continuam sendo atadas sobre os ombros dos incautos. Tais instituições tem uma cartilha de ‘pode’ e ‘não pode’. Com isso, o surgimento de neofariseus continua sendo forjado ou fabricado na forma da moralidade religiosa, que é criada por instituições e por homens.

O moralista está sempre vestido com a capa da autoconfiança. Todo aquele que norteia sua vida com a bússola farisaica da religiosidade e da ética autorreferente, tende a confiar em si mesmo. Além do mais, tal indivíduo massageia seu ego com sua justiça própria, aplaude sua conduta e trata o outro com desdém. Por falar nisso, “Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, posto de pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ò Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho” (Lc 18. 10-12). Este personagem é a encarnação do orgulho materializado em moralismo. A avaliação que faz do outro tem como instrumento a visão que tem de si mesmo em relação ao outro, à sua prática religiosa e à sua ética. Mahaney afirma que, “[…] só os humildes podem identificar, de modo consistente, evidências da graça em pessoas que precisam ser corrigidas. Os orgulhosos e os que são justos aos seus próprios olhos são incapazes de perceber isso”.5

Entretanto, nosso moralismo religioso não é diferente. Somos parecidos com fariseus em muitos aspectos. Por isso, nosso discurso não atrai nem agrega pecadores, porém mantém as pessoas afastadas de nós por duas razões: primeiro, por conta daquilo que pensamos delas. Elas mais pecadoras que nós, são impuras, injustas e imorais. Segundo, por causa daquilo que pensam acerca de nós. Nossa capa religiosa tende a afastar as pessoas do nosso convívio, não por conta da nossa santidade, mas por causa da nossa cara feia. Os moralistas fariseus sempre meneiam a cabeça em sinal de reprovação, dizendo para si mesmos: “Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora” (Lc 7. 38). Ou então dizem: “Este recebe pecadores e come com eles” (Lc 15. 2). Noutra ocasião murmuram “dizendo que ele se hospedara com homem pecador” (Lc 19. 7). Eles são aptos para condenar e criticar. Eles desconhecem o amor, a misericórdia, a compaixão e o perdão.

Os moralistas são como o primeiro filho da parábola contada por Jesus. O Pai diz: “Filho, vai hoje trabalhar na vinha” (Mt 21. 28). E então, o filho responde prontamente: “Sim, senhor; porém não foi” (Mt 21. 29). O Pai faz o mesmo pedido ao segundo filho, e este responde: “Não quero; depois, arrependido, foi” (Mt 21. 30). O primeiro filho é um moralista fariseu, vive sempre de aparência e de palavras afirmativas, mas não se arrepende. Sua vida é um engodo. Suas palavras um giz que apaga suas obras. Ele não muda sua conduta. Sempre critica os outros, todavia, não se arrepende. O segundo filho, embora desobediente e arredio, se arrepende. É por isso, que Jesus conclui a parábola com uma pergunta: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” (Mt 21. 31). Os moralistas são hipócritas, mas também são inteligentes. Eles respondem: “o segundo” (Mt 21. 31). Jesus, então declara: “Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus. Porque João veio a vós outros no caminho da justiça, e não acreditastes nele; ao passo que publicanos e meretrizes creram. Vós, porém, mesmo vendo isto, não vos arrependestes, afinal, para acreditardes nele.” (Mt 21. 31, 32).

Sabe por que este tipo gente não se arrepende? Porque não percebe sua condição diante de Deus, nem o seu pecado velado, nem as suas falhas de caráter. Pessoas que avaliam a sua condição com base na sua conduta, dificilmente se arrependerão. Ao passo que os miseráveis, os marginalizados, os trapaceiros cujas vestes estão dilaceradas pelo pecado, se escondem debaixo do abrigo do reino de graça primeiro, pois compreendem que nada são e nada podem fazer para receber o perdão do Pai. Por esta razão, colocam a boca no pó, arrependidas, e depositam sua confiança em Jesus Cristo. É por isso que a Escritura afirma que: “Deus escolheu as cousas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as cousas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as cousas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se glorie na presença de Deus” (1Co 1. 27-29).

Enquanto as pessoas estão em busca de adulação e autoglorificação, a Escritura ensina que “ninguém se glorie nos homens” (1Co 3. 21). Ao invés disso devemos imitar o apóstolo Paulo que afirma: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo” (Gl 6. 14). Aliás, diz a Escritura que: “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor. Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, e sim aquele a quem o Senhor louva” (2Co 10. 17, 18). Diante disso, a prudência orienta-nos a orarmos da seguinte forma: “Pai, eu quero ficar o mais perto possível da cruz, por é mais difícil ser arrogante quando estou lá”.6

As palavras de John Stott, citadas por Mahaney são profundamente instrutivas: “o orgulho é nosso maior inimigo e a humildade, a nossa maior amiga”.7 Se um homem ou uma mulher quiserem ser curados do autoengano moralista, suas capas da justiça precisam ser removidas, suas deficiências precisam ser assumidas e suas chagas precisam ser reveladas. Acatemos, pois, a admoestação do Espírito Santo: “cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça” (1Pe 5. 5). Vistamos as vestes da humildade, para então, recebermos a preciosa promessa do Senhor. Substituamos a roupa do moralismo do orgulho religioso, pelo avental da humildade. Por que devemos proceder assim? Porque as pessoas que usam a roupagem do moralismo só conseguem perceber o pecado do outro, porém só os humildes conseguem visualizar a ação da graça. “O orgulho não somente destrói, mas engana. O pecado, com seu poder enganoso, com frequência nos cega, deixando-nos inconscientes das falhas que as demais pessoas percebem claramente”, afirma Mahaney. Uma pessoa vestida de moralismo religioso, dificilmente perceberá os seus paradoxos, as suas contradições e as suas ambiguidades. Os humildes, porém, conseguem perceber sua condição e seu estado, assim como vêm a graça agindo na vida do outro, e se alegram com isso.

Não quero, todavia passar a ideia de que o evangelho não tem ética, absolutamente não, pois ele o tem. No entanto, a ética cristã é fruto daquilo que a graça realizou e ainda está realizando em nosso coração. Não direi que é natural, pois não é. Natural é o moralismo, pois é o resultado do esforço humano. A ética do evangelho é sobrenatural, visto que sua origem é a nova vida com Cristo e em Cristo. O moralismo é pesado e enfadonho, mas a ética do evangelho é leve e suave. O primeiro tem um odor insuportável, o segundo vem carregado do bom perfume de Cristo. Deixe que a fragrância da graça atraia pessoas para Cristo por meio da sua vida. Mas, para que isso ocorra, livre-se do vestido surrado e mal cheiroso do moralismo religioso. Ao contrário do fariseu da parábola contada pelo Senhor Jesus, devemos proceder como o publicano, que “estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” (Lc 18. 13). Então, Jesus conclui: “Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado” (Lc 18. 14). O modo como você ora, bem como a forma como procede relacionalmente com o outro, revela qual roupa tem usado. Só os que percebem sua nudez, serão revestidos com a justiça de Cristo. Que o SENHOR nos ajude! Amém!

NOTAS:
  1. MAHANEY, C. J.; Humildade: verdadeira grandeza. São José dos Campos – SP: Fiel, 2008. p. 30.
  2. MANNING, Brennan; O impostor que vive em mim. São Paulo: Mundo Cristão, 2007. p. 37.
  3. MANNING, Brennan; O impostor que vive em mim. São Paulo: Mundo Cristão, 2007. p. 38.
  4. DRISCOLL, Mark; Reformissão: como levar a mensagem sem comprometer o conteúdo. Niterói – RJ: Tempo de Colheita, 2009. p. 40.
  5. MAHANEY, C. J.; Humildade: verdadeira grandeza. São José dos Campos – SP: Fiel, 2008. p. 83.
  6. MAHANEY, C. J.; Humildade: verdadeira grandeza. São José dos Campos – SP: Fiel, 2008. p. 59.
  7. MAHANEY, C. J.; Humildade: verdadeira grandeza. São José dos Campos – SP: Fiel, 2008. p. 28.
1 MAHANEY, C. J.; Humildade: verdadeira grandeza. São José dos Campos – SP: Fiel, 2008. p. 30.
2 MANNING, Brennan; O impostor que vive em mim. São Paulo: Mundo Cristão, 2007. p. 37.
3 MANNING, Brennan; O impostor que vive em mim. São Paulo: Mundo Cristão, 2007. p. 38.
4 DRISCOLL, Mark; Reformissão: como levar a mensagem sem comprometer o conteúdo. Niterói – RJ: Tempo de Colheita, 2009. p. 40.
5 MAHANEY, C. J.; Humildade: verdadeira grandeza. São José dos Campos – SP: Fiel, 2008. p. 83.
6 MAHANEY, C. J.; Humildade: verdadeira grandeza. São José dos Campos – SP: Fiel, 2008. p. 59.
7 MAHANEY, C. J.; Humildade: verdadeira grandeza. São José dos Campos – SP: Fiel, 2008. p. 28.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O VELHO VAI MORRER


O VELHO VAI MORRER

         No Brasil é comum ouvirmos no fim do mês de dezembro que o velho está no CTI. Essa expressão visa a sinalizar que o fim do ano corrente está no balão de oxigênio, dando os seus últimos suspiros. Todas as vezes que pronunciamos essa frase, a tônica é a ênfase no término do ano vigente; porém, por detrás dela tem  outra verdade, salientamos que estamos prestes a iniciar um novo ano. Todavia, para que se inicie o novo o velho tem que terminar. O ano novo só tem início definitivo quando o ano velho é finalizado.

         Para muitos, no entanto, o ano novo vem mesclado de uma mistura de sentimentos, é um tempo de tensões, de retrospectivas e uma oportunidade para olhar o futuro. O novo traz consigo expectativas, possibilidades e desafios. Todavia, traz também insegurança, vem acompanhado de ameaças, riscos e perigos. Por essas razões é que quase sempre preferimos injetar vitamina naquele cuja vida já deu seus honrosos e preciosos frutos. Porém, mantê-lo com vida implica dispendiosos custos financeiros, desgastes físicos e comprometimento emocional. 

         Diante disso, às vezes chegamos à fatídica conclusão de que o método velho precisa morrer mesmo. Referimo-nos aqui a métodos que foram pródigos em eficiência, deram maravilhosos frutos e resultados, mas, que agora, não passam de instrumentos sem vida e obsoletos.  É verdade que, com a chegada do novo, nem sempre é preciso que o velho morra imediatamente, mas, logo, logo terá que ser substituído definitivamente. O velho precisa dar lugar ao novo. Os métodos vem e vão. Não é sábio absolutizar os métodos. Sacralizar meios é banir a criatividade. Algumas pessoas descobrem que é possível fazer certas coisas de forma diferente do passado. Elas encontram modos  mais eficazes, e, o que é melhor, sem sacrificar a verdade ou a essência. Por isso, toda geração precisa reavaliar os contextos nos quais está inserida. Cada situação exige uma nova leitura, a viabilidade de meios e as maneiras de atingir alvos precisam ser gestadas. Entretanto, para que isto aconteça é necessário que o velho morra para que o novo nasça.

         Que o velho um dia vai morrer é fato. Podemos impedir a fertilização de uma nova gestação com as famosas pílulas de resistência e preconceito, mas, num momento ou noutro, o óvulo da criatividade será fecundado e dará vida à necessidade. Isso não é uma possibilidade, mas uma realidade escatológica. O velho  morrer faz parte do ciclo natural. Porém, quando o velho tem que morrer definitivamente? A troca deve ser feita por motivos justos. As mudanças devem ser realizadas por razões nobres. Nossas decisões devem ser fruto de profundas avaliações. Tudo quanto tivermos que fazer em termos de substituições não pode ser por causa do modismo imediatista, mas por conta das comprovações de que algo ficou inviável, ineficiente e ineficaz. Não é porque é velho ou obsoleto, mas porque é irrelevante que precisa dar lugar ao novo.

         Ah! Deus é uma pessoa criativa e inovadora. Ele ama o progresso. O Deus a quem servimos é zeloso e inovador. Ele afirma por intermédio de sua palavra que as mudanças são necessárias quando o novo é excelente em detrimento do velho. “Quando ele diz Nova, torna antiquada a primeira. Ora, aquilo que se torna antiquada e envelhecido está prestes a desaparecer” (Hb 8. 13). O Senhor tem uma única aliança, porém, ela fora administrada por diversos modos. Deus, nunca, jamais abre mão daquilo que é absoluto. Todavia, Ele jamais fica preso com aquilo que é secundário.

         Entendamos uma coisa, o antigo enquanto método, sempre cumpre o seu papel na história, no tempo e na circunstância que exigiu o seu nascimento. Ninguém deve ignorar a relevância do velho na história. Porém, não é sábio manter a hegemonia daquilo que deixou o seu valor no que tange a eficiência no passado. A rememoração do passado tem o seu valor, mas viver um saudosismo nostálgico é perigoso e atrofia a capacidade de pensar. Quem fica preso ao passado dificilmente efetuará alguma conquista no futuro.

         Uma placa que sinaliza a existência de uma curva perigosa não deve ser removida. Todavia, se a curva for retirada não faz mais sentido manter a placa. Ela perde o seu valor local e circunstancial. Talvez até seja utilizada noutra região, mas ali perdeu a sua relevância. A extinção de algo sacralizado pode ser ruim, causar desconforto, mas algumas vezes é necessária. A única coisa que jamais deve ser mudada é a essência. Os absolutos não podem nem devem ser removidos. Todavia, os modos de aplicá-los podem ser descobertos e experimentados. Portanto, não confundamos essência com meios.