sexta-feira, 10 de junho de 2011

QUARTA PARTE: O EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?

QUARTA PARTE: O EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?
GRAÇA IRRESISTÍVEL
Pode alguém resistir ao chamado divino? Ciro é da opinião que sim. Na verdade, ele afirma que “não existe graça irresistível”. Mais uma vez percebemos que o problema de Ciro é conceitual e interpretativo. Observe a sua argumentação: “Os calvinistas se apegam a passagens isoladas, como João 6. 37, 44 e 10. 29, para afirmar que apenas alguns eleitos são encaminhados pelo Pai a Jesus. Na verdade, tais passagens mostram, à luz do contexto, que até para aceitar a chamada para a salvação, o ser humano precisa de capacitação divina. É Deus quem concede a fé quando o pecador ouve a Palavra (Rm 10. 17); e é ele quem dá a possibilidade de arrependimento (At 11. 18). A salvação é pela graça de Deus (Ef 2. 8, 9)”. Analisemos a afirmação de Ciro à luz das Escrituras. Precisamos fazer algumas perguntas para o autor da obra: Evangelho que Paulo jamais pregaria. Primeiro, por que o homem precisa da capacitação divina para aceitar o chamado para a salvação? Segundo, se é Deus quem concede a fé salvadora ao pecador, por que você nega as demais verdades relacionadas com essa? Terceiro, já que é Deus quem concede o arrependimento para vida, por que você então, nega a doutrina da vocação eficaz? No entanto, antes de prosseguir, uma correção imediata precisa ser feita quanto ao texto de Atos 11. 18. Ciro afirma que Deus é “quem dá a possibilidade de arrependimento”, todavia, a Bíblia ensina que Deus é quem concede “o arrependimento para a vida” (At 11. 18). Existe uma diferença colossal entre o adjetivo da possibilidade e o verbo conceder. O arrependimento citado nesse texto não é uma probabilidade divina, mas uma outorga de fato e de verdade consumada pela graça de Deus.

Contudo, a fim de não sermos prolixos voltemo-nos para a questão citada no início desse artigo e trabalhemos a questão interpretativa. A compreensão equivocada sobre a antropologia bíblica, isto é, doutrina acerca do homem antes e depois da queda, assim como a ação monergistica de Deus na salvação do homem, pode e tem levado muitos intérpretes das Escrituras a um desvio doutrinário catastrófico, o qual pode afetar o entendimento sobre a pessoa de Deus e sua obra redentiva. Nesse caso, a interpretação incorreta do texto bíblico pode ser nociva e alterar o verdadeiro sentido do texto escriturístico. Isso fica evidente a partir de dois axiomas opostos, a saber: a Bíblia ensina que a salvação é uma obra da livre graça de Deus, Ciro e companhia (arminianos) ensinam que a salvação está baseada na “livre vontade” do homem, o qual é capaz de responder ou rejeitar a vontade soberana do SENHOR. O primeiro tem como fundamento o teocentrismo bíblico, o segundo tem como base o humanismo antropocêntrico. Duane Edward Spencer, um teólogo que por muitos anos foi adepto da corrente teológica arminianista, afirmou que depois de fazer um exame acurado da Escritura percebeu a incoerência entre a interpretação arminiana e o que a Bíblia ensina. Depois dessa experiência, Spencer afirma que “para o arminianismo, o homem é suficientemente poderoso para obstruir ou resistir à graça de Deus”. Uma coisa é certa, o homem depois da queda ficou impossibilitado ou incapaz de responder o chamado divino por diversas razões que destacaremos mais adiante, mas o homem em hipótese alguma pode impedir a ação efetiva da graça irresistível. Portanto, meu intelecto está convencido de que o problema do autor é tanto conceitual como interpretativo.

O que causa espanto é que Ciro tropeça numa dissertação pequena. Quando um escritor disserta sobre determinado assunto, que exige uma argumentação extensiva, é comum surgir à possibilidade de cometer alguns deslizes ou contraditar-se na argumentação. Mas, num texto de “quatro ou cinco linhas” é inadmissível tal contradição. Esse tipo problema evidencia pelo menos duas falhas: falta de conhecimento a respeito do assuntou ou método hermético equivocado. Penso que o autor da obra “Evangelho que Paulo jamais pregaria” padece de conhecimento da doutrina da graça irresistível, assim como utiliza um método hermenêutico inadequado.

Voltemo-nos ao texto do autor. Veja o que ele diz: “Na verdade, tais passagens mostram, à luz do contexto, que até para aceitar a chamada para a salvação, o ser humano precisa de capacitação divina”. Que fantástico! Ciro está certo, pois sem a capacitação divina ninguém absolutamente pode aceitar o chamado para a salvação. Por que não? Por causa do óbvio, o homem está morto nos seus delitos e pecados (Ef 2. 1, 5), o seu entendimento está obscurecido pelo pecado, isto é, os efeitos noéticos da queda afetou todas as suas faculdades (Ef 4. 18) e os olhos da sua alma foram afetados pelo deus do século (2Co 4. 4). Além disso, a condição, bem como o estado em que o homem se encontra não permite que ele volte para Deus por si mesmo. É muito oportuno citar a Escritura aqui. Veja o que dizem as Escrituras:
“Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urde engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Rm 3. 9-18).
Note que esse texto é uma contundente revelação do homem não salvo. Claro que o homem nessa condição jamais poderá voltar-se para o Senhor sem ser assistido pela graça e com a graça. Sendo assim, Ciro acertou, o homem precisa de fato da capacitação divina para responder ao chamado para a salvação. Agora façamo-lo as seguintes perguntas: Primeiro, que capacitação é essa? Segundo, sem essa capacitação o ser humano não pode ir a Jesus? Não acredito que Ciro saiba a que se refere essa capacitação, por conta disso deixemos a Bíblia falar sobre essa gloriosa verdade. Gostaríamos de responder a essas perguntas, mas invertendo a ordem das mesmas. Quanto a segunda pergunta, a resposta é um retumbante sim! Pois, sem a capacitação divina nenhum homem nunca, jamais ou de modo algum poderá ir a Cristo Jesus, o Salvador. Quanto à primeira, a resposta é que essa capacitação é o novo nascimento. A Bíblia ensina que os salvos da cidade de Éfeso estavam mortos, mas Deus deu vida (Ef 2. 1, 5). Ela ensina ainda que os que receberam o Senhor Jesus pela fé o fizeram porque nasceram de Deus (Jo 1. 12, 13). Essa capacitação é mais do que assistência, é uma ressurreição espiritual. A Confissão de Fé de Westminster corrobora conosco ao afirmar que: “Todos aqueles a quem Deus predestinou para a vida, e somente esses, aprouve ele, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente, por sua Palavra e por seu Espírito, daquele estado de pecado e de morte, em que estão por natureza, à graça e salvação por meio de Jesus Cristo; iluminando suas mentes espiritual e salvificamente para entenderem as coisas de Deus; removendo seus corações de pedra e dando-lhes coração de carne; removendo sua vontade e, por seu infinito poder, determinando-lhes o que é bom, e eficazmente atraindo-os a Jesus Cristo; mas de tal forma que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos por sua graça”. A definição da Confissão sobre garça irresistível é maravilhosa e precisa. Nessa definição encontramos uma vasta fundamentação bíblica cujo resultado é uma teologia saudável a qual faz jus ao todo das Escrituras.

Além disso, A Confissão de Fé de Westminster continua: “Esta vocação eficaz provém unicamente da livre e especial graça de Deus e não de coisa alguma prevista no homem; nesta vocação ele é totalmente passivo, até que, vivificado e renovado pelo Espírito Santo, seja desse modo capacitado a responder a esta vocação e a abraçar a graça oferecida e comunicada nela”. Sendo assim, a graça irresistível é tanto um convite externo como interno. Ela é tanto um convencimento interno como uma ordem imperativa e persuasiva à vontade humana escravizada. Por essa graça, Deus tanto informe ao intelecto, como atinge ou toca a emoção e persuade a volição. Nada fica inerte no homem quando o Senhor o chama eficazmente. Na verdade, o homem não pode resistir o chamado divino.

Para exemplificar o que fora dito acima, gostaríamos de citar um caso bíblico. O exemplo é de um homem rico, maioral dos publicanos, chamado Zaqueu. Esse exemplo encontra-se no Evangelho de Jesus Cristo, conforme a narrativa do evangelista Lucas (Lc 19. 1-10). Esse homem queria ver quem era Jesus. Ele tinha uma curiosidade como muitas pessoas, mas a sua intenção e aspiração se limitava a esse campo. Nessa passagem temos um excelente exemplo da graça irresistível. Diz o texto que: “Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa” (Lc 19. 5). Você sabe que o resultado final de tudo isso foi a conversão do milionário da cidade de Jericó. Note que o verbo descer está no imperativo. Cristo não fez um pedido, porém deu uma ordem. Desce depressa, disse Jesus. Sabe o que aconteceu? “Ele desceu a toda pressa e o recebeu com alegria” (Lc 19. 6). Portanto, a conversão de Zaqueu é um exemplo concreto do que seja a graça irresistível. Somente o Deus que chama eficazmente pode colocar um escravo em liberdade e ressuscitar um morto (Jo 8. 36; Ef 2. 1, 5). Sendo assim, o leitor constatará à luz da Escritura que a graça irresistível é uma doutrina bíblica. Damos glórias a Deus pelo chamado eficaz. Esse verdade foi ensinada por Cristo, e pregada por Paulo e companhia. E você, pregará também essa verdade gloriosa da graça?

quinta-feira, 9 de junho de 2011

TRADICIONALISTAS E PROGRESSISTAS: CONTRIBUIÇÕES E PERIGOS

TRADICIONALISTAS E PROGRESSISTAS: CONTRIBUIÇÕES E PERIGOS

O mundo é marcado por duas tendências ou estilos diferentes. A primeira tem como marca o conservadorismo, a segunda a inovação. Uma detém a tradição, a outra insere as novidades. Esses dois estilos são rotulados de radicais e revolucionários. Os radicais não suportam, nem estão abertos para novas possibilidades. Os tradicionalistas não dão abertura para o desenvolvimento prático e valorizam o engessamento estético. Além disso, eles são muitíssimos apegados à forma. Os revolucionários por sua vez, ignoram e quase sempre pisoteiam os fundamentos que foram fincados no passado, os quais são frutos de muito labor dos empreendedores no campo do saber. Essas duas tendências são percebidas na academia, na política, na sociedade de modo geral, na religião seja ela de qualquer natureza e na igreja. Essas divergências de posicionamentos, não são marcas exclusivas da era chamada pós-moderna, mas de vertentes que vem se perpetuando por várias gerações. Entretanto, elas são percebidas com mais clareza neste período supracitado.

O professor de inglês da Concordia University-Wisconsin, Gene Edward Veith, Jr. afirma que esses distintos estilos possuem valores diferentes. Por conta disso, eles tanto podem colaborar com o Cristianismo como podem prejudicá-lo. Por exemplo, os tradicionalistas têm um valor inestimável no que tange à tradição, pois sua função é preservar o conhecimento sistematizado e a experiência acumulados por décadas e séculos, para posteriormente transmití-lo como legado à geração futura. Contudo, precisamos acautelar-nos quanto ao passado para não mergulharmos no baú do tempo, cujo cadeado não tem chave para uma nova leitura e releitura dos fatos, nem tempos, nem luz para as mentes, a fim de promover avanço no campo do conhecimento. O passado tanto pode servir de base quanto pode ser um labirinto sem saída. O valor está no modo como o utilizamos. O filósofo Mário Sergio Cortella traz uma contribuição preciosa acerca dessa percepção ao afirmar que não devemos olhar para o passado como direção, mas como uma referência. Entretanto, tantas vezes fazemos o caminho inverso.

Por outro lado, os progressistas também contribuem de modo valioso com a questão do conhecimento, pois as descobertas e as mudanças são necessárias. No entanto, devemos tomar muito cuidado com o novo, pois muitas vezes ele quer sepultar o passado em nome do progresso ou do avanço. Para eles, o passado é como um corpo sem vida e inerte que não oferece nenhuma contribuição ou relevância para o presente. Equivocam-se os progressistas nesse ponto, porque a herança no que tange à construção do conhecimento pode servir de fundamento sólido para as novas descobertas e construções de conhecimento sapienciais, os quais são verdadeiros patrimônios da humanidade.

Enquanto os tradicionalistas exercem um papel importante como guardiões da tradição, os progressistas desempenham uma função magistral ao questionar a pirâmide do conhecimento sacralizada pelos homens e pelo tempo. Isso é bom e salutar, pois solidifica convicções, porém promove o abandono dos equívocos. Os inovadores, além de corroborar reflexivamente, eles repensam os conceitos e as situações, mas, sobretudo inserem novas ideias ao edifício construído pelos tradicionalistas, as quais provocam mudanças e tornam o legado herdado relevante para a geração atual. Gene destaca que sem a função progressista, “nós estaríamos satisfeitos com o que já sabemos, ou pensamos que sabemos, e a investigação, a curiosidade e a pesquisa cessariam”. Cortella segue nessa mesma direção. Ele oferece o seguinte conselho: “Afeste-se dos professores velhos, que acham que sabem tudo e não querem aprender, e junte-se aos idosos, com grande experiência e atualização”. Com isso, aprendemos que é extremamente possível ser uma pessoa conservadora e ao mesmo tempo inovadora.

A princípio, essas duas posições podem parecer opostas, mas de acordo com o espírito de equilíbrio e bom senso, podemos afirmar que elas se completam. Não que as tensões serão banidas entre ambas, mas irão se complementar na construção do pensamente e do conhecimento. O resumindo e usando uma linguagem metafórica, podemos dizer que: o mundo é como um veículo automobilístico que precisa tanto do freio como do acelerador. Sendo assim, é salutar que essas duas tendências sobrevivam. Se uma deixar de existir estamos fadados ao fracasso. Essas duas tendências não são perniciosas, mas colaboradoras na edificação do conhecimento, na criação de métodos relevantes, a fim aplicá-lo de forma correta e eficiente em cada geração.

Como a igreja não está isenta dessas duas vertentes, então, precisamos atentar para a contribuição de ambas. Além disso, precisamos tomar muito cuidado com os perigos abissais que elas criam, os quais são emboscadas tenebrosas. Para Gene, “Os cristãos tradicionalistas, às vezes, olham mais as realizações e instituições humanas do que dão atenção à Palavra de Deus”. Essa supervalorização é perigosa. O apego a essa tendência nos rodeia há muito tempo. Uma atitude dessa natureza coloca em risco a supremacia da Escritura Sagrada. Ela foi cometida pela liderança da igreja no período que ficou conhecido como Idade Média ou Era das Trevas, como também pelos fariseus. Os fariseus erraram quando colocaram as tradições dos anciãos acima dos mandamentos divinos. Eles confundiram interpretação com a Palavra de Deus. Um exemplo disso pode ser visto por meio do testemunho da Escritura: “Então, vieram de Jerusalém a Jesus alguns fariseus e escribas e perguntaram: por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos quando comem. Ele, porém, lhes respondeu: por que transgredis vos também o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição? Porque Deus ordenou: honra teu pai e tua mãe, e: quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte. Mas vós dizeis: se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: é oferta ao Senhor aquilo que poderias aproveitar de mim; esse jamais honrará a seu pai ou sua mãe. E, assim, invalidastes a palavra de Deus, por causa da vossa tradição. Hipocritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito dizendo: este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15. 1-9). Esse tipo de atitude invalida o culto. Por conta disso, Jesus censurou, condenou e rejeitou a sua adoração. Os fariseus estavam mais preocupados com a questão estética do que com a essência. Em nome da tradição invalidavam a lei divina. Portanto, o perigo de invalidar a Palavra de Deus por causa da tradição pode ser uma emboscada sutil contra os conservadores, os guardiões da tradição. Na verdade, eles precisam cuidar para não sacrificarem os mandamentos divinos por guardarem de modo irrestrito o arcabouço da tradição teológica. Em suma, é preciso ficar claro, que toda tradição teológica tem o seu valor, mas, ela não é, nem nunca será, nem jamais deve ser confundida com a infalível poderosa Palavra de Deus.

Os perigos que cercam os progressistas são de outra ordem ou natureza, mas também são sorrateiros e extremamente nocivos. Os progressistas, porém, no afã de descobrir o novo, correm o risco de pisar em areia movediça, no pântano do lamaçal, bem como correm o risco de flutuar na escuridão do vazio. É por isso, que as pessoas têm medo daquilo que é novidade, e com razão, pois quase sempre o estrago é irreparável. Na verdade, se as novidades não estiverem alicerçadas em fundamentos sólidos, podem cavar a sepultura para uma geração inteira. Uma geração desprovida de fundamentos pode ser engolida pelos movimentos esdrúxulos inflados pelas bolhas da curiosidade, movido pelo vento do emocionalismo vazio e sem informação, sem vida e carente do saber. As inovações podem fazer com que as pessoas fiquem como crianças, agitadas de um lado para o outro. Os progressistas têm um papel importante na ampliação do conhecimento, mas não podem abandonar os pilares erigidos, porque senão farão com que as pessoas sejam levadas “por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4. 14). Portanto, as novas construções na área do pensamento e do conhecimento sistematizado, são legítimas e salutares. Entretanto, elas devem ser realizadas com sobriedade, bom senso e sabedoria. O velho não pode ser abandonado por conta do novo. Contudo, o velho não deve ser preservado a ponto de abortar o surgimento daquele que está para nascer com vitalidade. Todavia, se em algum momento da história, um legado do passado sufocar ou tolher a liberdade de pensar, criar e construir, a tradição precisará reencontrar o seu caminho e redescobrir o seu verdadeiro papel.

Sendo assim, os tradicionalistas precisam entender que a Palavra de Deus não muda jamais. Ela é absoluta, porém a tradição não. A tradição, embora tenha o seu valor, entretanto, ela muda, e em alguns casos é necessário que mude e sofra alterações sempre que houver uma necessidade papável e concreta. Gene afirma que: “Insistir que a Palavra de Deus é absoluta não é insistir que todo o conhecimento seja absoluto. Pelo contrário, uma visão elevada das Escrituras assegura que o conhecimento humano, à parte da Palavra de Deus, é caído, limitado e parcial”. Por outro lado, os progressistas precisam entender que não existem novas construções sem considerar aquilo que já é conhecido. Toda tentativa fora disso pode provocar estragos terríveis, bem como gerar ruínas e crateras irreparáveis na história da humanidade, e porque não dizer da igreja. Uma conclusão óbvia, sábia, prudente e relevante buscará sempre conciliar tanto a posição conservadora quanto a inovadora. Precisamos tanto do legado da tradição como de novas lajotas no edifício do conhecimento. “Uma cultura intelectual saudável precisa conter ambos os estilos, tanto aqueles que preservam a sua tradição como os que acrescentam a ela. Para os cristãos, cada um representa um certo risco e uma certa promessa. Os cristãos com fé bíblica podem ser tanto tradicionais quanto progressistas”, afirma Gene. Portanto, um cristão bíblico e sábio, cuja cosmovisão é conduzida pelas Escrituras nunca abandonará a tradição enquanto legado teológico, mas também jamais fechará os olhos para as novas possibilidades de realizações. Cristão que pensa biblicamente é radical por possui raízes, mas também é inteligente, inovador e criativo, porque tem a mente arejada pelas Escrituras. O mundo precisa de cristão conservador, mas também precisa do cristão criativo. O cristão deve ser tradicionalista, isto é, guardião da tradição, porém deve ser também progressista, ou seja, inovador na construção do conhecimento. Pense nisso!

1VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 59.
2 Extraído do Jornal Atribuna, terça-feira, 10 de maio de 2011.
3 VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 59.
4 Extraído do Jornal Atribuna, terça-feira, 10 de maio de 2011.
5 VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 61.
6 VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 65.
7 VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 61.