quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A REFORMA COMO MOVIMENTO DE AVIVAMENTO ESPIRITUAL

O ano vigente tem atraído o interesse especial por parte de vários pensadores. No Brasil, especialistas acompanham com olhar atento a política e a economia. Nos EUA, a posse de Donald Trump foi aguardada com expectativa e receio. No oriente, os ataques terroristas também recebem atenção, pois a barbárie do medo assusta as nações europeias e, por que não dizer, o mundo. O interesse tem diversos matizes. Todavia, penso que dentre as várias razões, uma foge do campo convencional, pois tem como cerne um evento histórico ocorrido em 1517, o qual se tornou, desde então, matéria de debate e discussão na academia. Há 500 anos, o monge agostiniano alemão, Martinho Lutero fez algo que daria à história da igreja outro rumo, assim como a sociedade daquele tempo experimentaria os seus resultados numa dimensão jamais esperada e planejada.
A Reforma Protestante sem dúvida alguma é um marco na história ocidental. Minha parca iniciativa em escrever um sucinto texto sobre ela, teve como mola propulsora uma conversa que tive com um amigo semana passada, mas também por conta da recente publicação de dois artigos que circularam nos veículos de comunicação: um titulado como “Os 500 anos da Reforma Protestante, que abalou o mundo”, o qual foi redigido e publicado pela economista, também comentarista da Rádio CBN e Globo News, Míriam Leitão; O outro intitulado “Lutero e Trump”, escrito e publicado na Revista Veja, por Norman Gall, o qual dirige o Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, em São Paulo. No primeiro, parece-me que a articulista analisa a Reforma Protestante sob a ótica do resultado. Já no segundo, o articulista faz uma abordagem na qual quer mostrar “semelhanças” entre Lutero e Trump na utilização de veículos de comunicação.
Desde já, digo que talvez outros artigos tenham sido publicados, bem como muitos outros virão, mas tive acesso apenas aos dois supracitados. Tanto Míriam quanto Gall faz uma abordagem cuja ótica sobre a matéria parece-me ser periférica. Não tocam no ponto nevrálgico da Reforma Protestante. Por isso, urge a necessidade de compreendermos que, quando Martinho Lutero, em 31 de outubro de 1517, fixou as 95 teses na porta igreja de Wittenberg, só tinha um propósito. Claro que os efeitos da Reforma foram amplos, porém a intenção de Lutero era outra. Concordo com Adão Carlos Nascimento que o propósito de Lutero era reformar a igreja à qual pertencia.[1] Mas não uma reforma com algum fruto da inovação humana nem da criatividade na forma pensar ou fazer. A Reforma aconteceria por meio daquilo que foi esquecido.
De sorte que Lutero almejava, bem como promoveu um regresso ao ensino puro da Escritura Sagrada. Sua ênfase era trazer de volta a velha boa nova do evangelho para o pecador. Seu objetivo não era nem jamais foi promover um avanço no campo das ideias nem abrir um caminho para o surgimento do Iluminismo. Embora tenha acontecido uma transformação na política, na economia, na ciência e na filosofia, entretanto, as mudanças nessas áreas são fruto de um processo histórico “natural”.
Por muito tempo Lutero teve uma vida marcada pela culpa e pelo desespero. Seu drama com a questão do pecado nunca fora resolvido pela prática sucessivas de penitências. Embora tivesse uma prática religiosa robusta, durante a sua peregrinação religiosa a sua alma ainda não havia experimentado a doçura do perdão de Deus, porque esse não pode ser comprado nem é recebido por mérito. Quando, porém, Lutero descobriu na Escritura que a “justificação é pela fé somente” (Rm 1. 17), ele não pôde mais ficar calado. A verdade, outrora perdida no escombro da história da Igreja Medieval, sufocada pela tradição da igreja e distorcida pela ganância sacerdotal, foi redescoberta e anunciada aos pecadores.
Para ele, o evangelho precisava ser proclamado para o seu povo. Sendo assim, começou a pregar que a salvação é pela graça somente, mediante a fé em Jesus Cristo. Com isso, uma oposição ferrenha havia de surgir. Por quê? Porque a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) estava engajada na venda sistemática de indulgências. Disso emana o protesto de Lutero por intermédio de suas 95 teses contra a venda de indulgências e a teologia que dava sustentação para a sua prática. Portanto, daqui surge na história da igreja o maior movimento de avivamento espiritual. A verdade que por muitos séculos havia sido sonegada agora era anunciada para alegria e alívio do povo. 
A tônica principal da Reforma Protestante era que a salvação não é comprada, é recebida por meio da fé somente. Aquilo que Cristo realizou na cruz é totalmente suficiente para o pecador receber o pleno perdão de Deus. Nada do que fez, faz ou vier a fazer pode conquistar o favor de Deus. A única coisa que precisa fazer é acatar ou responder positivamente () e negativamente (arrependimento) as reivindicações do evangelho: arrependa-se e creia no evangelho. Sei que a Reforma Protestante trouxe várias transformações, mas, sobretudo, o seu começo é uma clara demonstração de avivamento espiritual: um retorno à Escritura, à centralidade de Cristo, à eficiência da graça na salvação, à exclusividade da fé enquanto instrumento de apropriação da salvação e à vida que deve ser vivida para a glória de Deus. Definitivamente, a Reforma Protestante é um movimento de avivamento espiritual.      




[1] NASCIMENTO, Adão Carlos. A razão de nossa fé. São Paulo: Cultura Cristã, 1981. p. 5. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O FRACASSO DO ESFORÇO HUMANO NA BUSCA DA JUSTIFICAÇÃO

A Epístola aos Gálatas pode ser dividida em três seções: 1) A primeira seção (Cap. 1, 2) tem um caráter auto-biográfico. Nela Paulo faz uma defesade seu chamado e sua credencial apostólica. 2) A segunda seção (Cap. 3, 4) tem um caráter mais doutrinário. Nela Paulo combate o pernicioso ensino legalista dos judaizantes. 3) A terceira seção (Cap. 5, 6) tem um caráter mais prático. Nela Paulo argumenta como o cristão deve viver, apresentando-lhe algumas implicações éticas da verdadeira liberdade cristã.

A Epístola de Paulo aos Gálatas tem sido chamada de Carta Magna da liberdade cristã. Tal nomenclatura faz jus aquilo que o apóstolo ensina, pois, diz: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou, permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão” (Gl 5. 1).

Robert H. Gundry, afirma que: “[...] a epístola aos Gálatas é a grande carta patente da liberdade cristã, que nos livra de todas as opressivas teologias de salvação através dos esforços humanos, e que, por outro lado, serve de grandiosa afirmação da unidade (não uniformidade) e igualdade de todos os crentes, dentro da Igreja de Jesus Cristo”.[1]   

Para Broadus David Hale, “[...], Gálatas é o manifesto de Paulo contra a perversão da graça de Deus. A contínua batalha entre o legalismo e a graça de Deus é definida nesse livro”.[2] O legalismo escraviza o homem, pois o convence de que a graça de Deus só será recebida definitivamente mediante o esforço meritório.

Para Merril C. Tenney, Gálatas é “[...] um protesto contra a distorção do evangelho de Cristo”.[3] Desde o início da Epístola, Paulo revela a sua indignação e perplexidade: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho” (Gl 1. 6).

Nessa Carta fica claro que a graça da justificação de maneira nenhuma é resultado da observância da lei. A argumentação de Paulo parte da experiência vivida no passado por aqueles crentes, para relembrá-los que a justificação é pela fé somente.

A tônica do ensino apostólico aqui é a doutrina da justificação pela fé somente, então, para isso, Paulo recorre a algo que havia acontecido com aqueles cristãos quando ouviram a mensagem da cruz.

Sendo assim, perguntamos: o que determina que um indivíduo é verdadeiramente um cristão? Seria tão somente a fé naquilo que Deus realizou por intermédio de seu Filho? A fé é suficiente para a nossa justificação? Seria a fé em Cristo mais a incorporação de ritos do judaísmo ou coisa parecida?

Os judaizantes diziam que a fé não era suficiente. Era necessário agregar os ritos, especialmente o rito da circuncisão (At 15. 1). Porém, o ensino judaizante comprometia a mensagem do evangelho. Por isso, o apóstolo Paulo trata o assunto com enérgica veemência.
   
·        Crentes insensatos (Gl 1. 1).
Na primeira seção, Paulo havia feito uma defesa da suficiência do evangelho da graça de Deus. O apóstolo havia mostrado o “[...] contraste entre a mensagem judaizante, a qual requeria a aderência à lei mosaica como condição de salvação”[4] (Gl 2. 16).

Paulo tanto comporta-se como apóstolo que é, mas também como pastor para tratar a questão. Ele se dirigi àqueles cristãos chamando-os de irmãos (Gl 1. 2, 11; 3. 15; 4. 28, 31; 5. 13; 6. 1, 18). Mas, além disso, também toma a figura de uma mãe para se dirigir àqueles cristãos. Ele diz: “meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós;” (Gl 4. 19). Paulo é um pastor amoroso, mas também é um profeta ousado.    

Você já viu um pai irritado? Aqui Paulo age como um pai irritado por causa da atitude insensata de seus filhos. Um pai irritado por causa da insensatez de um filho, diria: “você perdeu o juízo?”. A postura daquela igreja era fruto de falta de juízo.

Trocar a graça pelo legalismo, a fé pela obra da lei, era um regresso absurdo. Era cometer aquilo que Paulo alerta: “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes” (Gl 5. 4).

Buscar a justificação por meio da circuncisão era sinal de falta de compreensão e raciocínio. Era como se aqueles cristãos tivessem abandonado o uso da razão. Buscar a justificação por meio de obras da lei, afirma Donald: “[...] sugere não só incapacidade de pensar quanto falha em fazer uso dos poderes mentais”. [5] Ou conforme afirma Davidson, aqueles crentes estavam “[...] destituídos de bom senso”.[6] 

O método de Paulo, portanto tem como finalidade despertar a consciência daqueles cristãos. Para alcançar êxito, o apóstolo utiliza como método cinco perguntas retóricas, para fazer com que os cristãos da Gálacia percebam o grande equívoco que estavam cometendo (Gl 3. 1-5). Dê uma conferida no texto, por certo você será enriquecido.




[1] GUNDRY, Robert H.; Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1978. p. 290.
[2] HALE, Broadus David; Introdução ao estudo do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001. p. 247.
[3] TENNEY, Merril C.; O Novo Testamento sua origem e análise. São Paulo: Shedd, 2008. p. 281.
[4] GUNDRY, Robert H.; Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1978. p. 293.
[5] GUTHRIE, Donald; Gálatas: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984. p. 114.
[6] DAVIDSON, F.; O Novo comentário da Bílbia. São Paulo: Vida Nova, 1997. p. 1238.