sexta-feira, 27 de setembro de 2013

FELIZ AQUELE QUE PRATICA AQUILO QUE SABE

A contradição é uma marca inconfundível no século XXI. Ela é vista em todos os seguimentos da sociedade contemporânea. Hoje, vivemos um momento histórico de muita inconsistência entre aquilo que se fala e aquilo que se faz. Estamos no apogeu da crise da separação entre a ortodoxia e a ortopraxia. Existe uma ilha que separa a doutrina da prática, a fé da obra, a graça da ética. Existe um divórcio sem paralelo, nunca visto na história da igreja entre conhecimento e prática. Hodiernamente, o mundo contemporâneo é o mundo dos paradoxos. As ações são as ações da incoerência. As atitudes são ambíguas. Agora, o saber é um tipo de poder muito distante do fazer. Quem tem conhecimento julga ser um detentor do poder, mas não efetua nenhuma ação cuja resposta seja fruto daquilo que se sabe. O saber sem prática depõe contra a nossa cosmovisão cristã.

No entanto, a recomendação bíblica exige que seja feita uma conciliação indissociável entre saber e fazer. O cristianismo histórico tem um conteúdo que informa a mente, porém, tal informação precisa desembocar numa prática factível. Cristo deseja que as pessoas sejam atingidas pela mensagem que alcança o intelecto e transforma o coração. Ele valoriza tanto o conhecimento que atrela a vida eterna ao conhecer a Deus. Jesus diz: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste(Jo 17. 3). Todavia, o conhecimento do qual Jesus fala não está desvinculado da fé. Conhecer é tão necessário quanto ter fé. Aliás, a salvação também é conhecimento. Contudo, o Senhor repudia o saber que não pode ser medido pela prática. O prólogo do Livro de Apocalipse, diz: “Bem-aventurado aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo(Ap 1. 3). Sendo assim, não basta ler e ouvir, é preciso guardar aquilo que foi recebido como informação. Só são verdadeiramente felizes aqueles que leem, ouvem e guardam. Quando as pessoas apenas leem e ouvem, mas, não guardam as palavras da profecia, não são verdadeiramente felizes.

Por isso, que, para o Senhor Jesus, a felicidade não tem como fundamento o armazenamento ou acúmulo de conhecimento. Para Ele, a felicidade tem como alicerce o conhecimento que resulta em prática. Ele jamais emitiu carta de divórcio entre o saber e o fazer. Após ensinar aos seus discípulos com palavras e com exemplos, Jesus disse: “Ora, se sabeis estas cousas, bem-aventurados sois se as praticardes” (Jo 13. 17). Não tem nada mais impactante do que a comprovação do conhecimento pela prática. Da mesma forma, não existe nada mais desastroso que a dissociação daquilo que se fala com aquilo que não é realizado. Quando o conhecimento fica apenas no âmbito da teoria, as pessoas não conseguem encontrar o valor do saber. A verdade anunciada pelo Senhor Jesus nunca esteve dissociada da prática.

Temos muitos teólogos cuja teologia é um edifício monumental de ideias metafísicas. Eles constroem um arcabouço substancioso de argumentos lógicos sobre suas convicções. Suas construções teológicas são convincentes. Falam de humildade cheios de razão. Suas argumentações sobre a necessidade de servir têm amparo escriturístico. Os seus discursos apologéticos quanto ao senhorio de Cristo, são bíblicos. Todavia, não fazem absolutamente nada daquilo que sabem e nem daquilo que falam. São pregoeiros cujos discursos são vazios. Falam, mas, não comprovam pelo fazer o que sabem. Eles são os fariseus pós-modernos. São doutrinadores, porém, jamis praticam o que falam, pois “atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los(Mt 23. 4).

A história comprova que existe uma diferença colossal entre aqueles que sabem, e, aqueles que sabem e fazem o que sabem. Tiago, quando trata da matéria da fé, tendo como medidor as obras, faz uma pergunta que remete ao assunto aqui abordado: “Crês, tu, que Deus é um só?(Tg 2. 19). Uma pergunta dessa natureza, dentro de um ambiente cristão, tem uma resposta óbvia. Ele diz: “Fazes bem” (Tg 2. 19). Para Tiago, tal assertiva não é novidade nem é incomum, pois: “Até os demônios creem e tremem(Tg 2. 19). Temos aqui uma afirmação teológica correta. Crer que Deus é único demonstra uma construção teológica estritamente ortodoxa. Porém, não basta ter informação ortodoxa sobre a pessoa de Deus. Teologia, conhecimento e fé que não encontram ecos práticos, iguala-se à fé de demônios. Parabéns para aqueles que creem que Deus é um só. Teologia correta. Entretanto, isso não basta, porque “até os demônios creem e tremem(Tg 2. 19).

Portanto, a construção teológica que sistematiza a pessoa de Deus como sendo um só, que avança ao afirmar a sua Triunidade, pois, além de ser Único, Ele subsiste em três pessoas distintas: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, mas, que porém, não encontra eco vivencial, sem dúvida alguma, não difere daquele conhecimento ou fé encontrada nos demônios. Os demônios sabem que Deus existe, admitem a sua unicidade, até tremem diante do axial supracitado. Eles sabem muito de teologia; sabem quem é Deus. Contudo, tal conhecimento não se encarna na existência dos espíritos caídos, não transforma sua índole, não muda sua disposição para o arrependimento, e não traz implicações sociais nem históricas para a prática do bem. Embora os demônios tenham muito conhecimento, entretanto, não praticam aquilo que sabem. Ao invés de fazerem o bem, eles só fazem o mal.

O cristão, todavia, precisa ser diferente, pois é chamado para ser um agente do reino. Ele é comissionado para realizar aquilo que sabe dentro da realidade visível. Cristo diz: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também(Jo 13. 15). De que exemplo Cristo está falando? Basta voltarmos um pouco, para obtermos a resposta. Jesus estava participando de uma refeição com os seus discípulos, quando de repente, “levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima, e tomando uma tolha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Depois de lhes ter lavado os pés, tomou as vestes e, voltando à mesa, perguntou-lhes: compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros(Jo 13. 4, 5, 12-14). Depois disso chegamos a afirmação: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também(Jo 13. 15). Ele prossegue: “Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou(Jo 13. 16). O propósito de Cristo não é criar uma teologia de lava pés. Seu propósito é fornecer uma teologia que abarca tanto a humildade quanto o serviço ao próximo no da irmandade.

Portanto, o cristão que não coloca as vestes da humildade nem o espírito servil, por certo, ainda não compreendeu o ensino de Cristo. A maior crise existencial de um cristão é aquela na qual se vive somente para si mesmo, “sem nenhuma relação com um projeto existencial que se realize historicamente mediante a perspectiva missionária de ser uma bênção para a sociedade humana”.i O exemplo dado por Cristo, pôde ser visto. Não se tratava de uma questão abstrata, mas de uma situação concreta. Ele fez diante de seus discípulos algo palpável de como se pratica aquilo que se sabe. O que demonstra que uma pessoa de fato vivencia a experiência de estar com Jesus e permanecer em Cristo não é o seu nível intelectual, mas a sua demonstração vivencial daquilo que sabe. A palavra de Deus diz: “aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou(1Jo 2. 6). O conhecimento salvífico precisa ser comprovado pela realização daquilo que se sabe como vontade de Deus. Porque está escrito: “Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz: eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade” (1Jo 2. 3, 4). Todo conhecimento doutrinário, por mais ortodoxo que seja, se não resultar numa ortopraxia histórica passível de averiguação, com certeza não tem valor algum diante de Deus. Como diz Caio Fábio: “o saber teológico quase sempre produz um saber de Deus que não corresponde a um viver de Deus. Já a vivência da realidade de Deus como experiência nem sempre sabe como se explicar acerca de Deus, mas sempre sabe como se portar diante dele”.ii Uma teologia que não possui um desembocamento empírico, por certo é uma teologia de demônios. Tal teologia não serve para nada, a não ser para gerar o orgulho do saber.

Precisamos entender que, a doutrina que fica apenas no campo das ideias ou sem definições concretas, sem ser encontrada na encarnação por intermédio de personagens históricos, não passa de palavras vazias. Não que os conceitos não tenham valor. Todavia, conceito sem forma definida dificilmente encontra abrigo na experiência humana. Concordo com o jornalista cristão, Philip Iancey, quando afirma: “o evangelho da graça permeia o mundo não puramente por intermédio de palavras e argumentos racionais, mas através de atos, através de amor”.iii Diria também que por meio do serviço ao meu próximo.

Finalmente, podemos concluir que: Uma teologia voltada para a questão metafísica, mas que não se encaixa na história das pessoas, não passa de ideias abstratas. Uma teologia que não esteja a serviço do outro perde a sua razão de ser. Precisamos sim de uma teologia que trata da metafísica, mas que tenha eco na história do ser humano. Uma teologia que fale da transcendência, sem contudo, deixar de falar da imanência. Uma teologia que ecoe a sua voz de cima para baixo, mas, que se espalhe no meio das pessoas. Uma teologia cuja a voz seja celestial, mas que o seu eco seja ouvido na história. Uma teologia que tenha muita informação, para alcançar a razão humana, mas também precisamos de uma teologia que seja vista por intermédio daquilo que é realizado por meio de palavras, atos e ações. Precisamos de uma teologia que ensina que servir ao outro é matéria para o agora. O serviço ao próximo deve ocorrer no tempo que se chama hoje, no espeço que se denomina de agora e na história que está sendo construída. Aquele que não serve aqui, não servirá lá. Quem não serve agora, perde uma grande oportunidade de desfrutar da felicidade oriunda do verdadeiro saber. O exemplo de Cristo é factual, histórico, visível e palpável. Aquele que pratica aquilo que sabe é feliz.

FÁBIO, Caio; Oração para viver e morrer. Vinde Comunicações: Niterói – RJ, 1993. p. 31.
FÁBIO, Caio; Oração para viver e morrer. Vinde Comunicações: Niterói – RJ, 1993. p. 24.
IANCEY, Philip; Alma sobrevivente: sou cristão apesar da igreja. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. p. 148.

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