sexta-feira, 28 de junho de 2013

A ORAÇÃO PERSEVERANTE

A ORAÇÃO PERSEVERANTE

Dentre as práticas devocionais, sem dúvida alguma, a oração é uma das mais importantes. Pela oração falamos com Deus, suplicamos o seu favor e intercedemos pelos homens. A oração é mais do que um deleite, ela é um dever. Para Cristo, a oração deve ser marcada pela perseverança, mas, também pela tarefa diligente. Para Jesus orar é vital, é oxigenar a vida espiritual, é manter acesa a chama da esperança. Para instruir os seus discípulos, Jesus usou métodos relevantes, simples, objetivos e revolucionários. O seu ensino causava grande impacto, pois criava situações, cujas imagens atingiam o coração dos seus ouvintes. Para ensinar que a oração é o instrumento medidor da fé, o Senhor Jesus conta a “parábola do juiz iníquo” (Lc 18. 1-8). A parábola supracitada contém varias lições, contudo, vamos elencar apenas três, para a nossa edificação:

1) A oração perseverante nunca desiste (Lc 18. 1-5).
O prólogo da parábola contada por Jesus ensina-nos três verdades. Diz o texto: “Disse-lhes Jesus uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer:” (Lc 18. 1). Em primeiro lugar, a oração é um dever. De acordo com Jesus orar para o crente não é uma questão opcional, mas, uma tarefa obrigatória. Em segundo lugar, a oração deve ser uma prática contínua. A oração deve ser um exercício progressivo, uma prática constante e ininterrupta. Em terceiro lugar, a oração constante só reconhece um tempo, isto é, o sempre. Devemos orar sempre, o tempo todo, em todas circunstâncias, indiferente das múltiplas adversidades e das diversas situações. Para realçar a importância da oração, Jesus pinta um cenário cujas cores sobressaem com brilho, com força e com intensidade. Sua pedagogia alcança o imaginário das pessoas. Ele conta que havia na mesma cidade um juiz e uma viúva (Lc 18. 2, 3). A viúva insistia com o juiz: “Julga a minha causa contra o meu adversário” (Lc 18. 3). O juiz, entretanto, “por algum tempo, não a quis atender”. Porém, a pobre mulher persistiu até que o juiz tomou a decisão: “julgarei a sua causa”. O pedido da viúva é um protótipo daquilo que o crente deve fazer, um retrato daquele que jamais desiste, uma caricatura do suplicante que não desiste. Ela sabe que não tem condição nem competência para resolver o seu problema. Por isso, implora o favor daquele que tem poder para julgar a sua causa. A viúva é um retrato da vulnerabilidade humana, de quem não tem forças nem influencia social, mas, que reconhece que existe alguém com prerrogativa legal para mudar a sua sorte. A perseverança da viúva é um estimulante para orarmos e uma fotografia da oração que jamais desiste de seu pleito.

2) A oração perseverante considera o privilégio eletivo (Lc 18. 7).
O juiz da parábola não possui nenhuma relação com o Senhor nosso Deus. O seu caráter é contrastado pelo caráter de Deus. Ele era impiedoso, “não temia a Deus, nem respeitava homem algum” (Lc 18. 2). Deus, todavia é bom, compassivo, gracioso e misericordioso. Contudo, por causa da perseverança da viúva, o juiz resolveu atendê-la. Cristo chama a atenção para o seguinte fato: “Considerai no que diz este juiz iníquo” (Lc 18. 6). O que Cristo quer ensinar? Que se um homem com uma índole tão perversa foi capaz de atender a demanda de uma mulher perseverante, quanto mais Deus, ele acudirá os seus filhos. A consideração que Jesus propõe é o divisor de águas da parábola. Aqui vemos nitidamente o contraste estabelecido pelo Senhor, pois, a seguir faz uma pergunta: “Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?” (Lc 18. 7). A nossa perseverança em oração deve passar pelo crivo do privilégio que temos. Não podemos nos esquecer de que somos filhos de Deus. Somos os seus eleitos. Povo de propriedade exclusiva do Deus vivo. Temos um status sem igual. Cristo estimula os crentes para que orarem sem esmorecer, porque Deus escuta os seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite.

3) A oração perseverante é o termômetro da fé (Lc 18. 8).
Na maioria das parábolas, a aplicação é encontrada no contexto anterior ou posterior. Nesta parábola, o seu efeito aplicativo está nela mesma. Sua aplicação visa um alcance pessoal, ou seja, cada crente deve fazer uma autoavaliação da sua vida de oração. Jesus conclui a parábola com uma pergunta: “Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?” (Lc 18. 8). Para Cristo, a oração perseverante é uma demonstração de fé. Logo, fica claro que a ausência de oração é entendida como falta de fé, pois só ora quem tem fé. A confiança exercitada pela oração persistente é uma comprovação da fé. O cristão que não gosta de orar, possivelmente está com a fé adoecida. Assim como as obras devem ser evidências materializadas da fé, da mesma forma, a oração também aponta o grau da fé operante. O crente deve insistir em oração, mesmo quando a resposta parece demorada, pois, o Senhor depressa defenderá os seus escolhidos. Portanto, persevere em oração, cultive sua vida devocional diária e considere a sua relação filial com o Senhor.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

CONFORTO DO CONSERVADORISMO

Religião de poder1 é uma coletânea de artigos editados por Michael Scott Horton. Para essa compilação, ele requisitou vários autores de envergadura teológica singular. Dentre esses, o teólogo anglicano J. I. Packer, escritor renomado e contemporâneo. Packer tem dado uma contribuição ímpar para o evangelicalismo inglês, americano e brasileiro. Suas obras têm sido recebidas com muito apreço pela igreja brasileira. Em seu artigo, o conforto do conservadorismo, ele promove uma reflexão relevante e plausível sobre aspectos positivos e negativos do conservadorismo de alguns em relação à tradição teológica.

Antes de trabalhar sobre o assunto, o autor conceitua os termos conforto e conservadorismo. Segundo o autor a palavra conforto tem dois sentidos: o primeiro traz a ideia de revigoração e renovação das forças; o segundo traz a ideia pejorativa de comodismo e relaxamento. Da mesma forma, Packer afirma que existem dois tipos de conservadorismo. Para ele existe o conservadorismo criativo e o carnal:

O primeiro é inteligente e luta bravamente contra a influência cultural, sem, contudo fechar os olhos à realidade contemporânea. O conservadorismo criativo convoca o povo a uma reflexão sobre o que está acontecendo no mundo, utilizando as “lentes da contemporaneidade”, mas considerando aquilo que foi dito e feito na história da igreja. Essa leitura jamais ignora o legado teológico.

Já o segundo é cego. Ele busca ou faz apologia daquilo que é velho e convencional. Enquanto o conservadorismo criativo promove reflexão, faz leitura da atual circunstância sem rejeitar a herança da tradição, o carnal simplesmente se acomoda com e ao passado.
O conforto do conservadorismo apregoa um imobilismo, o qual olha, em todo tempo, para o passado. Contudo, essa postura gera uma falsa sensação de bem estar, de segurança e de sapiência. Com isso, esse imobilismo é colocado sobre outras pessoas, o qual passa a exercer um papel tirânico sobre os demais. O argumento persuasivo dos tradicioneiros visa o acatamento de tradições de fé por pessoas adultas, mas que devem receber tais tradições sem nenhum senso crítico ou questionamento. No entanto, Packer não descarta o aspecto salutar da ortodoxia cristã, a qual deve ser recebida com responsabilidade e sob a autoridade autêntica. Dessa forma, o conforto do conservadorismo produz cristãos saudáveis e igrejas vibrantes.

A natureza da tradição cristã focaliza o estudo da tradição, bem como da sua compreensão positiva no século passado. Para isso, Packer destaca quatro pontos principais: a tradição caracteriza as comunidades; as tradições se iniciaram como atos contemporâneos, os cristãos se beneficiam e são vítimas da tradição e tradições seculares e religiosas do mundo se opõem e corrompem a tradição cristã. Todos os grupos têm suas tradições, as quais servem como fator identificador do mesmo. As tradições sempre começam como atos contemporâneos dentro de um contexto e em uma geração. Contudo, surgem também os extremistas. Alguns abraçam as tradições como inspiradas pelo Espírito Santo, outros se posicionam com absoluto desdém. Como existem tradições boas e más, logo somos beneficiados ou nos tornamos vítimas das mesmas. Portanto é preciso cautela. A tradição cristã esbarra sempre nas oposições das tradições religiosas e seculares. Por isso, a igreja precisa constantemente se contrapor aos ataques sutis destas tradições.

Como vimos toda tradição tem aspectos positivos e negativos. Ela pode ser boa, mas também pode ser má. A tradição cristã, a qual é avaliada pelo crivo da Escritura oferece benefícios. Packer destaca quatro: raízes, realismo, recursos e lembretes. Primeiro, quem conhece a tradição descobre suas raízes, identidade e origem. Além disso, as raízes ressaltam os fundamentos. Segundo, outro benefício é a questão da realidade, pois o passado ajuda a fazer uma leitura do presente, bem como avalia a cultura, a mentalidade e sobre e o futuro com uma percepção realista dos fatos. O terceiro benefício ensina que a tradição cristã é um precioso legado. Sendo assim, um recurso valioso para a geração contemporânea. Por fim, em quarto lugar, o benefício do lembrete pedagógico na questão do rememorar a geração militante sobre a história da tradição.

Embora a tradição cristã ofereça todos os benefícios supracitados, no entanto, ela pode cometer muitos abusos. Quando à tradição cristã absolutiza as formulações teológicas como sendo divinas e fechadas, não sujeitas as mudanças e aos questionamentos, ela comete um abuso quanto ao seu equívoco, pois inverte a ordem de valores. Essa percepção convenciona chavões e conceitos teológicos como se fossem inspirados e sacrossantos. Tal mentalidade rejeita todas as transições culturais que ocorrem entre ou no meio do podo de Deus em seu contexto histórico. Portanto, é um perigo e um abuso quando a tradição é colocada como o ideal de Deus em detrimento da Palavra. Por conta disso, todas as mudanças são recebidas e rechaçadas como sendo negativas e perniciosas. Esse tipo de postura quer domesticar o Senhor da história, deseja limitá-lo em seu agir e procura condicioná-lo à tradição. Tudo isso serve para manipular as pessoas e exercer domínio sobre elas.

Packer conclui o seu artigo salientando que existe cura. Que alívio! Porque diagnosticar um problema sem oferecer solução é uma lastima. O conservadorismo criativo utiliza à tradição como recurso de contribuição disponível para ajudar na compreensão de verdades e situações. Ela não é autoridade última, nem final e nem absoluta. O antídoto exige três posturas: honestidade na autocrítica; humildade no juízo particular e integridade na ação moral. A autocrítica deve ser honesta. É preciso descobrir porque erramos, onde erramos e no que erramos. Além disso, a mudança precisa ser feita, porém é preciso fazê-la de maneira sábia e eficaz. Tudo isso deve ser norteado pela honestidade. A segunda postura exige constância no exame da Escritura até que verdades obscuras fiquem claras. Contudo, o fator determinante não é o nosso intelecto orgulhoso, mas a obediência e humildade diante da Palavra de Deus. Por fim, a integridade na ação moral, a qual exige que ocorra um rompimento com a multidão, mesmo que essa seja cristã. De modo que o padrão de integridade do cristão é a Bíblia e não a legislação baseada na sabedoria humana.


Para Packer existem muitos evangélicos presos atualmente ao conforto do conservadorismo carnal. A igreja precisa fugir dessa armadilha. Ela precisa abraçar o conservadorismo criativo e inteligente. Ela precisa buscar a verdadeira renovação da fé reformada, a qual reconhece ser uma tradição, mas que se permite ser reformada, questionada e balizada pelo crivo da Escritura Sagrada.


Gostaríamos de salientar que, embora o artigo seja um texto pequeno, no entanto está inundado pela riqueza intelectual e relevante. Existem outros pontos que poderiam ser destacados nessa sucinta avaliação crítica, mas destacaremos apenas mais um: O texto é uma convocação à reflexão crítica acerca do perigo de abraçar a tradição sem submetê-la ao crivo final da Escritura, bem como o perigo de supervalorizar a tradição, ao ponto de comprometer a autoridade e suficiência da Bíblia. Contudo, o autor elaborou o seu artigo com equilíbrio, maturidade, bom senso e sobriedade cristã, pois reconhece o valor do legado da tradição teológica para a igreja cristã. Portanto, sem dúvida alguma, esse é um ponto que merece ser destacado. No mais, esse artigo deve ser lido por toda liderança cristã, porém, especialmente pela liderança herdeira da tradição reformada, para que a mesma não caia em ciladas da “sapiência humana”.

1 PACKER, J. I. O Conforto do Conservadorismo. In: HORTON, Michael S. Religião de Poder. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p. 231-243.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

UMA FAMÍLIA FELIZ

UMA FAMÍLIA FELIZ
A felicidade é almejada por todos os gêneros, por todas as classes, por todas as faixas etárias. Todos querem ser felizes, mas nem todos encontram o caminho da felicidade. Muitos buscam a felicidade, mas nem todos se submetem as normas estabelecidas por Deus para recebê-la. Diversas vezes as pessoas pensam que serão felizes quando adquirirem algum patrimônio seja uma casa ou um carro. Tantas vezes nutrimos uma falsa esperança de que se concluirmos o nosso curso acadêmico, finalmente, seremos felizes. Outras vezes achamos que uma determinada situação vai proporcionar a felicidade da nossa família. Entretanto, tudo não passa de um ledo engano. Não somos felizes porque efetuamos algumas conquistas. Nossas conquistas podem até trazer satisfação para a nossa alma, mas não tem poder para nos tornar felizes.

Para uma melhor compreensão precisamos corrigir certos equívocos acerca da felicidade. Existem pelo menos três concepções equivocadas a cerca da felicidade familiar:

1) Felicidade não é perfeição. Muitas famílias confundem felicidade com perfeição. Acham que serão felizes quando o cônjuge e os filhos estiverem de acordo com os elevados padrões construídos pela família. Como a expectativa do marido perfeccionista não é cumprida nem a exigência da esposa detalhista não é atendida, logo ficam privados da felicidade, porém, tal cobrança não ocorre somente na esfera da relação conjugal. Inúmeras vezes os pais perfeccionistas atam fardos pesados sobre os seus filhos. Como os filhos não conseguem enquadrar-se no padrão erigido, entram numa rota de colisão relacional com os pais.

2) Felicidade não é sentimento. Aqui urge a necessidade de distinguir alegria de felicidade. Para muitos, a felicidade é sinônimo de alegria. Embora a alegria seja um componente da felicidade, no entanto, ela não deve ser confundida com felicidade. Alegria é um sentimento circunstancial, felicidade é um estado de espírito. Uma pessoa feliz pode ser assaltada pela tristeza, porém, uma pessoa sorridente pode ser extremante infeliz. Nossas manhãs nem sempre são marcadas por alegria indizível.

3) Felicidade não é sinônimo de ausência de crises. Uma família feliz também enfrenta dramas colossais. Ela não está isenta de problemas. Famílias felizes também ficam de luto, convivem com o drama da dor e da perda. Também são atacadas por diversas, repentinas e terríveis enfermidades.
A felicidade é um ensino bíblico. Encontramos na Escritura diversas vezes a expressão: “bem aventurado”, a qual pode ser traduzida por “muito feliz”. Portanto, Deus quer que sejamos felizes. No entanto, a felicidade nunca está atrelada aquilo que temos, mas, com quem somos, bem como com o que fazemos. Vejamos dois princípios a partir dos quais a felicidade se processa: “Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos” (Sl 128. 1). Temos aqui dois princípios inegociáveis para uma família que quer ser feliz. 

Em primeiro lugar, uma família feliz é aquela cujos membros temem a Deus. O princípio aqui se aplica a todos os membros da família. De sorte que, o pai, a mãe e os filhos que temem a Deus são felizes. Eles são felizes na família, porque se relaciona corretamente com o seu Redentor. Quando os membros da família se relacionam de acordo com o ensino bíblico. Logo, tal família será muito feliz.
 
Em segundo lugar, uma família feliz é aquela cujos membros fazem a vontade de Deus. O andar com Deus é um hebraísmo que traz a ideia de fazer a vontade do Senhor. Não basta saber que Deus tem uma vontade. A sua vontade deve ser conhecida, mas também deve ser obedecida. A família que deseja ser feliz deve levar muito a sério aquilo que Deus ordena em sua Palavra.

Ninguém pense que o vinculo relacional está dissociado da relação daquele que criou a família. A relação da esposa com o marido sinaliza que tipo de relação tem com Deus. O modo como o marido trata a esposa, revela o grau de temor que é abrigado em seu coração. Da mesma forma, o termômetro que afere o quanto os filhos honram aos pais caracterizam o quanto honram a Deus. O empenho dos pais na educação de seus filhos vai evidenciar o seu comprometimento com o Senhor. De sorte que, a felicidade de uma família tem início com Deus. A propósito, como você tem se relacionado com o Senhor? Sua família é feliz? Na prática, uma família feliz é aquela que se relaciona corretamente com o Senhor, cujo relacionamento é medido pelo modo como os membros da família se relacionam entre si.