segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A FALTA DE LIDERANÇA

Darrin Patrick faz parte da geração contemporânea de plantadores de igrejas. Atualmente é o vice presidente da Rede de Plantação de Igrejas Atos 29. Ele é o pastor fundador da Journey Church em St. Louis. Sua experiência ministerial já passa de duas décadas. Tem atuado como conferencista para líderes, feito palestras para plantadores de igrejas e tem liderado novos líderes. Em sua obra: “O plantador de igreja: o homem, a mensagem, a missão”, Patrick faz uma constatação pertinente sobre a crise contemporânea.

Para Patrick, hoje, existem duas crises que atravancam a formação de liderança forte na igreja. Essas crises são chamadas de: crise cultural e crise teológica. Ambas estão relacionadas a mesma situação, ou seja, a falta de homem como líder:

NA PRIMEIRA CRISE, a sua constatação aponta que existe uma postergação da maturidade do gênero masculino. O tipo de gênero masculino da atualidade é uma espécie de ser que nem é menino nem é homem. Patrick denomina tal indivíduo de homenino. Ele prolonga a sua adolescência. Gosta de viver na imaturidade. Sua atratividade é o vídeo game. Passa diversas horas jogando. Não quer assumir compromisso. Casamento para o homenino é algo inviável, responsabilidade nem pensar. O homenino não tem afeição pela verdade absoluta. Seu principal foco é prolongar a sua adolescência. Com isso, Patrick conclui que surge uma lacuna dentro da sociedade, pois os homens de Deus que deviam influenciar a sociedade se exime de seu papel. O homenino é o homem que não quer assumir a liderança. Portanto, a crise cultural tem afetado a igreja. 

A SEGUNDA CRISE, não está desvinculada da primeira. Porém, ela é analisada sobre outro prisma. Enquanto que na primeira, o homem não é homem para encampar a sua missão, na segunda , ele toma a rota do subterfúgio. Para Patrick, a crise teológica tem como fator principal a delegação da tarefa masculina. A liderança não pode ser transferida para as mulheres. Para explicar tal situação, o autor usa dois conceitos: igualitarismo e complementarismo. Hoje, um grupo defende que a questão do igualitarismo coloca a mulher na mesma situação do homem. Ela é igual em todas as áreas da vida, inclusive na liderança espiritual. Contudo, isso gera um problema teológico. A criação estabelece que o homem e a mulher são iguais em essência e dignidade, mas, não são iguais para desempenhar funções semelhantes. Já o complementarismo estabelece que de fato existe uma questão completar, porém funcionalmente falando, o homem e a mulher foram criados para realizar tarefas diferentes. Nesse caso, a liderança na igreja e no lar é coisa de homem mesmo. Inverter a ordem da criação é entrar numa rota de colisão teológica. 

Patrick chegou a essa conclusão quando ainda era adepto do igualitarismo. Ele fez uma pesquisa para embasar sua convicção, mas, quando fez um exame acurado da história bíblica e da história da igreja, percebeu que não tinha amparo para a sua defesa. Foi então, que Patrick cedeu a autoridade bíblica. A Escritura ensina que a liderança deve ser exercida por homem. Tem cerca de cem anos que a visão igualitária tem sido ensina, enquanto que o complementarismo tem sido ensinado à luz da Bíblia pela igreja por mais de dois mil anos. Patrick conclui que, estamos numa crise espiritual (teológica) e numa crise de imaturidade masculina (cultural). Portanto, uma crise dessa natureza, assim como nessa proporção prejudica diretamente a igreja. Diante disso, o que faremos?

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

FELIZ AQUELE QUE PRATICA AQUILO QUE SABE

A contradição é uma marca inconfundível no século XXI. Ela é vista em todos os seguimentos da sociedade contemporânea. Hoje, vivemos um momento histórico de muita inconsistência entre aquilo que se fala e aquilo que se faz. Estamos no apogeu da crise da separação entre a ortodoxia e a ortopraxia. Existe uma ilha que separa a doutrina da prática, a fé da obra, a graça da ética. Existe um divórcio sem paralelo, nunca visto na história da igreja entre conhecimento e prática. Hodiernamente, o mundo contemporâneo é o mundo dos paradoxos. As ações são as ações da incoerência. As atitudes são ambíguas. Agora, o saber é um tipo de poder muito distante do fazer. Quem tem conhecimento julga ser um detentor do poder, mas não efetua nenhuma ação cuja resposta seja fruto daquilo que se sabe. O saber sem prática depõe contra a nossa cosmovisão cristã.

No entanto, a recomendação bíblica exige que seja feita uma conciliação indissociável entre saber e fazer. O cristianismo histórico tem um conteúdo que informa a mente, porém, tal informação precisa desembocar numa prática factível. Cristo deseja que as pessoas sejam atingidas pela mensagem que alcança o intelecto e transforma o coração. Ele valoriza tanto o conhecimento que atrela a vida eterna ao conhecer a Deus. Jesus diz: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste(Jo 17. 3). Todavia, o conhecimento do qual Jesus fala não está desvinculado da fé. Conhecer é tão necessário quanto ter fé. Aliás, a salvação também é conhecimento. Contudo, o Senhor repudia o saber que não pode ser medido pela prática. O prólogo do Livro de Apocalipse, diz: “Bem-aventurado aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo(Ap 1. 3). Sendo assim, não basta ler e ouvir, é preciso guardar aquilo que foi recebido como informação. Só são verdadeiramente felizes aqueles que leem, ouvem e guardam. Quando as pessoas apenas leem e ouvem, mas, não guardam as palavras da profecia, não são verdadeiramente felizes.

Por isso, que, para o Senhor Jesus, a felicidade não tem como fundamento o armazenamento ou acúmulo de conhecimento. Para Ele, a felicidade tem como alicerce o conhecimento que resulta em prática. Ele jamais emitiu carta de divórcio entre o saber e o fazer. Após ensinar aos seus discípulos com palavras e com exemplos, Jesus disse: “Ora, se sabeis estas cousas, bem-aventurados sois se as praticardes” (Jo 13. 17). Não tem nada mais impactante do que a comprovação do conhecimento pela prática. Da mesma forma, não existe nada mais desastroso que a dissociação daquilo que se fala com aquilo que não é realizado. Quando o conhecimento fica apenas no âmbito da teoria, as pessoas não conseguem encontrar o valor do saber. A verdade anunciada pelo Senhor Jesus nunca esteve dissociada da prática.

Temos muitos teólogos cuja teologia é um edifício monumental de ideias metafísicas. Eles constroem um arcabouço substancioso de argumentos lógicos sobre suas convicções. Suas construções teológicas são convincentes. Falam de humildade cheios de razão. Suas argumentações sobre a necessidade de servir têm amparo escriturístico. Os seus discursos apologéticos quanto ao senhorio de Cristo, são bíblicos. Todavia, não fazem absolutamente nada daquilo que sabem e nem daquilo que falam. São pregoeiros cujos discursos são vazios. Falam, mas, não comprovam pelo fazer o que sabem. Eles são os fariseus pós-modernos. São doutrinadores, porém, jamis praticam o que falam, pois “atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los(Mt 23. 4).

A história comprova que existe uma diferença colossal entre aqueles que sabem, e, aqueles que sabem e fazem o que sabem. Tiago, quando trata da matéria da fé, tendo como medidor as obras, faz uma pergunta que remete ao assunto aqui abordado: “Crês, tu, que Deus é um só?(Tg 2. 19). Uma pergunta dessa natureza, dentro de um ambiente cristão, tem uma resposta óbvia. Ele diz: “Fazes bem” (Tg 2. 19). Para Tiago, tal assertiva não é novidade nem é incomum, pois: “Até os demônios creem e tremem(Tg 2. 19). Temos aqui uma afirmação teológica correta. Crer que Deus é único demonstra uma construção teológica estritamente ortodoxa. Porém, não basta ter informação ortodoxa sobre a pessoa de Deus. Teologia, conhecimento e fé que não encontram ecos práticos, iguala-se à fé de demônios. Parabéns para aqueles que creem que Deus é um só. Teologia correta. Entretanto, isso não basta, porque “até os demônios creem e tremem(Tg 2. 19).

Portanto, a construção teológica que sistematiza a pessoa de Deus como sendo um só, que avança ao afirmar a sua Triunidade, pois, além de ser Único, Ele subsiste em três pessoas distintas: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, mas, que porém, não encontra eco vivencial, sem dúvida alguma, não difere daquele conhecimento ou fé encontrada nos demônios. Os demônios sabem que Deus existe, admitem a sua unicidade, até tremem diante do axial supracitado. Eles sabem muito de teologia; sabem quem é Deus. Contudo, tal conhecimento não se encarna na existência dos espíritos caídos, não transforma sua índole, não muda sua disposição para o arrependimento, e não traz implicações sociais nem históricas para a prática do bem. Embora os demônios tenham muito conhecimento, entretanto, não praticam aquilo que sabem. Ao invés de fazerem o bem, eles só fazem o mal.

O cristão, todavia, precisa ser diferente, pois é chamado para ser um agente do reino. Ele é comissionado para realizar aquilo que sabe dentro da realidade visível. Cristo diz: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também(Jo 13. 15). De que exemplo Cristo está falando? Basta voltarmos um pouco, para obtermos a resposta. Jesus estava participando de uma refeição com os seus discípulos, quando de repente, “levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima, e tomando uma tolha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Depois de lhes ter lavado os pés, tomou as vestes e, voltando à mesa, perguntou-lhes: compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros(Jo 13. 4, 5, 12-14). Depois disso chegamos a afirmação: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também(Jo 13. 15). Ele prossegue: “Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou(Jo 13. 16). O propósito de Cristo não é criar uma teologia de lava pés. Seu propósito é fornecer uma teologia que abarca tanto a humildade quanto o serviço ao próximo no da irmandade.

Portanto, o cristão que não coloca as vestes da humildade nem o espírito servil, por certo, ainda não compreendeu o ensino de Cristo. A maior crise existencial de um cristão é aquela na qual se vive somente para si mesmo, “sem nenhuma relação com um projeto existencial que se realize historicamente mediante a perspectiva missionária de ser uma bênção para a sociedade humana”.i O exemplo dado por Cristo, pôde ser visto. Não se tratava de uma questão abstrata, mas de uma situação concreta. Ele fez diante de seus discípulos algo palpável de como se pratica aquilo que se sabe. O que demonstra que uma pessoa de fato vivencia a experiência de estar com Jesus e permanecer em Cristo não é o seu nível intelectual, mas a sua demonstração vivencial daquilo que sabe. A palavra de Deus diz: “aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou(1Jo 2. 6). O conhecimento salvífico precisa ser comprovado pela realização daquilo que se sabe como vontade de Deus. Porque está escrito: “Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz: eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade” (1Jo 2. 3, 4). Todo conhecimento doutrinário, por mais ortodoxo que seja, se não resultar numa ortopraxia histórica passível de averiguação, com certeza não tem valor algum diante de Deus. Como diz Caio Fábio: “o saber teológico quase sempre produz um saber de Deus que não corresponde a um viver de Deus. Já a vivência da realidade de Deus como experiência nem sempre sabe como se explicar acerca de Deus, mas sempre sabe como se portar diante dele”.ii Uma teologia que não possui um desembocamento empírico, por certo é uma teologia de demônios. Tal teologia não serve para nada, a não ser para gerar o orgulho do saber.

Precisamos entender que, a doutrina que fica apenas no campo das ideias ou sem definições concretas, sem ser encontrada na encarnação por intermédio de personagens históricos, não passa de palavras vazias. Não que os conceitos não tenham valor. Todavia, conceito sem forma definida dificilmente encontra abrigo na experiência humana. Concordo com o jornalista cristão, Philip Iancey, quando afirma: “o evangelho da graça permeia o mundo não puramente por intermédio de palavras e argumentos racionais, mas através de atos, através de amor”.iii Diria também que por meio do serviço ao meu próximo.

Finalmente, podemos concluir que: Uma teologia voltada para a questão metafísica, mas que não se encaixa na história das pessoas, não passa de ideias abstratas. Uma teologia que não esteja a serviço do outro perde a sua razão de ser. Precisamos sim de uma teologia que trata da metafísica, mas que tenha eco na história do ser humano. Uma teologia que fale da transcendência, sem contudo, deixar de falar da imanência. Uma teologia que ecoe a sua voz de cima para baixo, mas, que se espalhe no meio das pessoas. Uma teologia cuja a voz seja celestial, mas que o seu eco seja ouvido na história. Uma teologia que tenha muita informação, para alcançar a razão humana, mas também precisamos de uma teologia que seja vista por intermédio daquilo que é realizado por meio de palavras, atos e ações. Precisamos de uma teologia que ensina que servir ao outro é matéria para o agora. O serviço ao próximo deve ocorrer no tempo que se chama hoje, no espeço que se denomina de agora e na história que está sendo construída. Aquele que não serve aqui, não servirá lá. Quem não serve agora, perde uma grande oportunidade de desfrutar da felicidade oriunda do verdadeiro saber. O exemplo de Cristo é factual, histórico, visível e palpável. Aquele que pratica aquilo que sabe é feliz.

FÁBIO, Caio; Oração para viver e morrer. Vinde Comunicações: Niterói – RJ, 1993. p. 31.
FÁBIO, Caio; Oração para viver e morrer. Vinde Comunicações: Niterói – RJ, 1993. p. 24.
IANCEY, Philip; Alma sobrevivente: sou cristão apesar da igreja. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. p. 148.

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terça-feira, 10 de setembro de 2013

DEUS CONCEDE A SUA GRAÇA

O apóstolo Paulo tem recebido muitos títulos. Ele tem sido chamado de o maior teólogo e o maior pastor da era cristã, o mais proeminente missionário e o mais profícuo plantador de igrejas. Podemos alcunhar ainda ao apóstolo Paulo mais uma designação: o apóstolo da graça. Suas Cartas exalam a doutrina da graça. As linhas de suas Epístolas estão repletas do ensino da graça de Deus. Para Paulo, assim como para os demais escritores neotestamentários, tudo provém da graça. A fé salvadora é concedida pela graça, o arrependimento também e o padecer por Cristo igualmente. Queremos partilhar três verdades acerca da temática supracitada:

1) Deus concede-nos a sua graça para crermos. Diz Paulo: “Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isso não vem de vós é dom de Deus” (Ef 2. 8). Ninguém nasce com capacidade nem com vontade para crer. A fé não é uma herança hereditária, nem um legado institucional, nem uma transferência genética. Não é a igreja nem a teologia que gera fé. A vontade de crer é um dom de Deus. A fé salvadora é um presente de Deus. É Deus quem habilita-nos a ter fé. Deus nos salva pela fé, somos guardados até o dia da ressurreição pelo seu poder, por intermédio da fé. Pela fé somos justificados, somos adotados como filhos de Deus e recebemos a certeza da vida eterna. O Deus que exige que os homens tenham fé para a salvação, também é o mesmo que doa graciosamente a fé. Deus requer dos homens a obra da fé, pois sem fé é impossível agradá-lo. Todavia, o homem não nasce com a fé. A disposição para crer no Senhor Deus e na sua Palavra não é uma semente inata no coração humano, mas uma semente plantada pelo Espírito de Deus. Todos nós estaríamos perdidos se Deus não nos tivesse doado a fé.

2) Deus concede a sua graça para nos arrependermos. Quando Pedro teve que prestar um relatório a liderança de Jerusalém, ele disse: “Logo, também aos gentios Deus concedeu o arrependimento que conduz à vida” (At 11. 18). Para Pedro, o arrependimento é de natureza divina. É Deus quem concede a dádiva do arrependimento. O evangelho reivindica duas coisas do homem: fé e arrependimento. Assim como ninguém é salvo sem fé, da mesma forma ninguém é perdoado sem arrependimento. Acontece que tanto um como o outro é fruto da graça divina. Nossa salvação é iniciada por Deus, mantida por Deus e será plenificada por Deus. Todos nascemos com o coração de pedra e a mente cauterizada. Não há sensibilidade nem disposição para que o homem arrependa-se de seus maus caminhos. Porém é preciso entender, que o arrependimento não é uma reação natural do homem, mas uma ação fundida pela operação da graça de Deus. A bondade de Deus, além de conceder-nos a fé, também nos conduz ao arrependimento. A doação da graça do arrependimento, faz com o homem tenha consciência de seus pecados cometidos, gera tristeza para a salvação e o conduz à confissão.

3) Deus concede-nos a sua graça para sofrermos. O apóstolo da graça é categórico ao ensinar sobre a graça de sofrer por Cristo. Ele diz: “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de credes nele” (Fl 1. 29). A graça que habilita um homem a confiar, não é diferente daquela que é concedida para sofrer. A dádiva concedida para conduzir o ser humano ao arrependimento, não é de natureza distinta daquela que fora concedida para padecer pelo Senhor Jesus. Sofrer por Cristo não é masoquismo, fruto de uma mente doentia. Sofrer por Cristo é um privilégio. Aliás, o curso natural da vida cristã pressupõe que o cristão sofrerá por conta de sua fé. Enfrentar alguma oposição hostil por causa de Cristo é uma bem-aventurança. São felizes aqueles que são injuriados ou perseguidos por causa do nome de Jesus (Mt 5. 11). Os apóstolos foram presos e açoitados por causa da pregação do Evangelho, porém, eles não murmuraram. A Bíblia diz que: “E eles se retiraram do Sinédrio regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome” (At 5. 41). Paulo da mesma forma, relata que sua vida fora marcada por muitas perseguições. Ele diz: “que variadas perseguições tenho suportado! De todas, entretanto, me livrou o Senhor” (1Tm 3. 11). Portanto, durante o seu sofrimento, Paulo nunca esteve sozinho. Ele esteve o tempo todo assistido pela graça divina. Se sofrermos alguma perseguição por conta do nome de Cristo, não temos porque temer, pois seremos munidos pela graça para suportarmos os flagelos que o mundo lança sobre a nossa vida. Foi assim com os profetas, com os apóstolos, com a igreja primitiva, e será assim, com todo aquele que quiser viver piedosamente em Cristo Jesus (2Tm 3. 12). Não tenha medo nem fique desanimado, porque Deus continua concedendo a sua graça, para toda e qualquer situação.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

AS FUNÇÕES RECÍPROCAS DE TODOS OS CRENTES

A igreja é uma comunidade constituída por pessoas de várias faixas etárias, por diversos níveis intelectuais, por múltiplas nacionalidades e por classes sociais distintas. O povo de Deus é composto por homens e mulheres, por crianças e adultos, por ricos e pobres, por iletrados e cultos. A igreja têm muitos membros, mas um só corpo. Ela é gerada pela graça mediante a operação do Espírito Santo. Uma das suas principais dinâmicas é o convívio fraterno. Por isso, na igreja de Deus, não pode existir espaço para o isolacionismo. A vida cristã não é uma ilha de segregação racial, social e intelectual. Nenhum cristão deve viver no gueto do individualismo, pois somos membros da mesma família, amados com o mesmo amor, com a mesma medida, alcançados pela mesma graça, conectados num mesmo corpo, saciados pela mesma fonte espiritual e agraciados pelo perdão da mesma forma. Logo, somos filhos do mesmo Pai, pertencemos a mesma família e somos um só povo. Todos os membros do corpo de Cristo receberam dons espirituais, a fim de promoverem a edificação da igreja. Todos são chamados para desempenharem uma função recíproca. O apóstolo Paulo, diz que todo cristão deve ser um consolador e um edificador:

I) Todo crente deve exercer a função de consolador. Paulo ordena: “Consolai-vos, pois, uns aos outros […] reciprocamente, como também estais fazendo” (1Ts 5. 11). Amados, não somos como os pagãos que não têm esperança. Todavia, ainda vivemos num mundo caído, onde impera a injustiça. Pessoas inocentes são brutalmente assassinadas, violentadas e mutiladas. Os justos são injustiçados. Os fiéis são visitados e vitimados por enfermidades terríveis. Aqui, o mal tantas vezes triunfa sobre o bem. Esse mundo ímpio provoca angústia, gera tristeza e traz lágrimas. Ele rouba a paz, gesta insegurança na alma e assalta os corações com o medo. Embora os crentes não sejam do mundo, todavia vivem neste mundo perverso. Precisamos entender que os servos de Cristo também ficam aflitos e angustiados, tristes e desesperançados, cansados e abatidos. Os cristãos são pessoas que necessitam de consolo e de esperança no meio da tragédia. São indivíduos que esperam ansiosamente pelo encorajamento. Diante desse quadro, urge a necessidade diligente de que cada crente seja um consolador.

Veja, portanto, que o papel de levar o consolo para aqueles que estão aflitos não é uma exclusividade da liderança. A ordem imperativa de Paulo abarca todos os crentes. Paulo apenas reforça algo que já estava sendo praticado pelos cristãos de Tessalônica. Eles exerciam de modo ativo o consolo simultâneo. De modo que, sonegar o consolo para o que sofre é uma atitude anticristã. Há quanto tempo você não tem recebido nenhum consolo? Quando foi a última vez que você consolou alguém? Muitas vezes somos verdadeiros verdugos na alma do outro. Afligimos o aflito enquanto deveríamos consolá-lo. Outras vezes somos pródigos em acusar aqueles que estão precisando de refrigério. Porém, a função de todos os servos de Cristo é consolar o aflito e encorajar o desanimado.

II) Todo crente deve exercer a função de edificador. Paulo ensina: “[...] edificai-vos reciprocamente, como também estais fazendo” (1Ts 5. 11). O apóstolo usa uma linguagem metafórica para destacar que cada servo de Cristo é um edifício. O cristão é a casa de Deus, o templo do Altíssimo e o santuário do Espírito. Deus começou a construção e irá concluí-la até o dia de Cristo (Fl 1. 6). A edificação do povo de Deus é iniciada, assim como é realizada pelo próprio Deus. Jesus disse: “[...] eu [...], edificarei a minha igreja [...]” (Mt 16. 18). Conquanto, a edificação seja feita pelo Senhor, entretanto, por sua graça concede-nos o privilégio de sermos seus agentes e seus instrumentos nesse processo. Ele usa-nos como seus cooperadores, para fazer com que haja crescimento na vida do outro, bem como usa o outro, para produzir também maturidade em nossa vida. Portanto, todo crente tem a responsabilidade de efetuar a edificação de seus irmãos. Quando falamos a verdade de Deus, os outros são edificados, porém, quando os outros falam somos edificados.

Nosso papel como edificador é vital para que os membros cresçam igualitariamente. De sorte que, a imaturidade de muitos crentes nesta pista de mão dupla é decorrente da falta de engajamento e serviço. Se sou omisso na edificação o progresso espiritual na vida do outro desacelera. Da mesma forma, se você for negligente no exercício de edificador, a minha vida corre o risco de ficar estagnada. Amados, por isso, precisamos acatar a admoestação apostólica, para o bem da igreja: “Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras” (1Ts 4. 18). E mais: “[...] e edificai-vos reciprocamente, como também estais fazendo” (1Ts 5. 11). Portanto, consolemos uns aos outros e promovamos a edificação da igreja. Você que já tem agido dessa maneira, continue exercendo as funções de consolador e de edificador do povo de Deus. E você, que até hoje, não tem experimento esse privilégio de ser um conselheiro, agora, pode começar a exercitá-lo.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

DOIS ASPECTOS DO TESTEMUNHO CRISTÃO


Todo cristão não tem dúvida de que o evangelho deve ser pregado. Todo servo de Cristo crê que o evangelho da graça de Deus precisa ser proclamado e testemunhado. Sabe que deve anunciar e testemunhar, mas, não sabe como fazê-lo. Além disso, nem todo cristão consegue conciliar discurso com atos, ortodoxia com ortopraxia, fala com obra. Muitas vezes somos contraditórios. Falamos uma coisa, mas fazemos diferente daquilo que professamos. A Palavra de Deus, porém, atesta a necessidade de conciliarmos tanto o aspecto verbal quanto o aspecto ético. Precisamos falar, mas, também precisamos evidenciar a mensagem. Temos o dever de anunciar, mas, também temos a responsabilidade de materializar o nosso discurso. A Escritura enfatiza que o testemunho cristão tem outros aspectos, porém destacaremos apenas dois:

1. O aspecto verbal do testemunho cristão. O evangelista Marcos registra as palavras de Jesus da seguinte forma: “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16. 15). O evangelho é boa nova. Ele é a boa notícia de Deus aos homens perdidos. Pregar o evangelho subtende três verdades: Primeiro, a mensagem do evangelho precisa ser verbalizada. Anunciar a boa nova da salvação envolve comunicação inteligível. Segundo, a mensagem visa o alcance universal. Precisamos entender que a proclamação do evangelho tem como alvo o mundo inteiro. Todas as nações, todos os povos, todas as etnias e todas as tribos devem ser alvo da mensagem do evangelho. Jesus ensina que, o testemunho cristão tem caráter universal. A mensagem deve ser pregada aqui, ali e acolá (At 1. 8). Terceiro, a mensagem do evangelho não é exclusivista. Ela deve ser verbalizada para todas as pessoas, indiferente da classe social, intelectual ou racial. Precisamos pregar para a multidão, mas, também para uma pessoa apenas.

2. O aspecto ético do testemunho cristão. O apóstolo Pedro, sobre o segundo aspecto adverte: “Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma, mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação” (1Pe 2. 11, 12). O testemunho cristão não deve ser caracterizado apenas pela verbalização. Ele precisa ter como insígnia o exemplo. Ele precisa ser ouvido e observado. Precisa ser anunciado e comprovado pelo procedimento exemplar. Precisamos comunicar a mensagem do evangelho aos ouvidos, porém, também precisamos anunciá-la aos olhos. Nossa conduta precisa autenticar aquilo que falamos. O evangelho da graça, também é o evangelho da ética. O segundo é fruto do primeiro. Somos chamados para anunciar a boa nova, mas, além disso, devemos atestar aquilo que anunciamos com o nosso estilo de vida. 

Queridos, para tristeza do cristianismo, diversos cristãos não harmonizam a fala com a conduta. Para muitos, as palavras são como giz, a vida como lousa e a conduta como apagador. O que falam é apagado, logo a seguir, por meio daquilo que fazem. Portanto, meus amados, não deixemos de anunciar e testemunhar. Cuide, porém, para que a sua piedade confirme a sua mensagem, para que a sua vida seja um outdoor da mensagem que você anuncia.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A ORAÇÃO PERSEVERANTE

A ORAÇÃO PERSEVERANTE

Dentre as práticas devocionais, sem dúvida alguma, a oração é uma das mais importantes. Pela oração falamos com Deus, suplicamos o seu favor e intercedemos pelos homens. A oração é mais do que um deleite, ela é um dever. Para Cristo, a oração deve ser marcada pela perseverança, mas, também pela tarefa diligente. Para Jesus orar é vital, é oxigenar a vida espiritual, é manter acesa a chama da esperança. Para instruir os seus discípulos, Jesus usou métodos relevantes, simples, objetivos e revolucionários. O seu ensino causava grande impacto, pois criava situações, cujas imagens atingiam o coração dos seus ouvintes. Para ensinar que a oração é o instrumento medidor da fé, o Senhor Jesus conta a “parábola do juiz iníquo” (Lc 18. 1-8). A parábola supracitada contém varias lições, contudo, vamos elencar apenas três, para a nossa edificação:

1) A oração perseverante nunca desiste (Lc 18. 1-5).
O prólogo da parábola contada por Jesus ensina-nos três verdades. Diz o texto: “Disse-lhes Jesus uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer:” (Lc 18. 1). Em primeiro lugar, a oração é um dever. De acordo com Jesus orar para o crente não é uma questão opcional, mas, uma tarefa obrigatória. Em segundo lugar, a oração deve ser uma prática contínua. A oração deve ser um exercício progressivo, uma prática constante e ininterrupta. Em terceiro lugar, a oração constante só reconhece um tempo, isto é, o sempre. Devemos orar sempre, o tempo todo, em todas circunstâncias, indiferente das múltiplas adversidades e das diversas situações. Para realçar a importância da oração, Jesus pinta um cenário cujas cores sobressaem com brilho, com força e com intensidade. Sua pedagogia alcança o imaginário das pessoas. Ele conta que havia na mesma cidade um juiz e uma viúva (Lc 18. 2, 3). A viúva insistia com o juiz: “Julga a minha causa contra o meu adversário” (Lc 18. 3). O juiz, entretanto, “por algum tempo, não a quis atender”. Porém, a pobre mulher persistiu até que o juiz tomou a decisão: “julgarei a sua causa”. O pedido da viúva é um protótipo daquilo que o crente deve fazer, um retrato daquele que jamais desiste, uma caricatura do suplicante que não desiste. Ela sabe que não tem condição nem competência para resolver o seu problema. Por isso, implora o favor daquele que tem poder para julgar a sua causa. A viúva é um retrato da vulnerabilidade humana, de quem não tem forças nem influencia social, mas, que reconhece que existe alguém com prerrogativa legal para mudar a sua sorte. A perseverança da viúva é um estimulante para orarmos e uma fotografia da oração que jamais desiste de seu pleito.

2) A oração perseverante considera o privilégio eletivo (Lc 18. 7).
O juiz da parábola não possui nenhuma relação com o Senhor nosso Deus. O seu caráter é contrastado pelo caráter de Deus. Ele era impiedoso, “não temia a Deus, nem respeitava homem algum” (Lc 18. 2). Deus, todavia é bom, compassivo, gracioso e misericordioso. Contudo, por causa da perseverança da viúva, o juiz resolveu atendê-la. Cristo chama a atenção para o seguinte fato: “Considerai no que diz este juiz iníquo” (Lc 18. 6). O que Cristo quer ensinar? Que se um homem com uma índole tão perversa foi capaz de atender a demanda de uma mulher perseverante, quanto mais Deus, ele acudirá os seus filhos. A consideração que Jesus propõe é o divisor de águas da parábola. Aqui vemos nitidamente o contraste estabelecido pelo Senhor, pois, a seguir faz uma pergunta: “Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?” (Lc 18. 7). A nossa perseverança em oração deve passar pelo crivo do privilégio que temos. Não podemos nos esquecer de que somos filhos de Deus. Somos os seus eleitos. Povo de propriedade exclusiva do Deus vivo. Temos um status sem igual. Cristo estimula os crentes para que orarem sem esmorecer, porque Deus escuta os seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite.

3) A oração perseverante é o termômetro da fé (Lc 18. 8).
Na maioria das parábolas, a aplicação é encontrada no contexto anterior ou posterior. Nesta parábola, o seu efeito aplicativo está nela mesma. Sua aplicação visa um alcance pessoal, ou seja, cada crente deve fazer uma autoavaliação da sua vida de oração. Jesus conclui a parábola com uma pergunta: “Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?” (Lc 18. 8). Para Cristo, a oração perseverante é uma demonstração de fé. Logo, fica claro que a ausência de oração é entendida como falta de fé, pois só ora quem tem fé. A confiança exercitada pela oração persistente é uma comprovação da fé. O cristão que não gosta de orar, possivelmente está com a fé adoecida. Assim como as obras devem ser evidências materializadas da fé, da mesma forma, a oração também aponta o grau da fé operante. O crente deve insistir em oração, mesmo quando a resposta parece demorada, pois, o Senhor depressa defenderá os seus escolhidos. Portanto, persevere em oração, cultive sua vida devocional diária e considere a sua relação filial com o Senhor.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

CONFORTO DO CONSERVADORISMO

Religião de poder1 é uma coletânea de artigos editados por Michael Scott Horton. Para essa compilação, ele requisitou vários autores de envergadura teológica singular. Dentre esses, o teólogo anglicano J. I. Packer, escritor renomado e contemporâneo. Packer tem dado uma contribuição ímpar para o evangelicalismo inglês, americano e brasileiro. Suas obras têm sido recebidas com muito apreço pela igreja brasileira. Em seu artigo, o conforto do conservadorismo, ele promove uma reflexão relevante e plausível sobre aspectos positivos e negativos do conservadorismo de alguns em relação à tradição teológica.

Antes de trabalhar sobre o assunto, o autor conceitua os termos conforto e conservadorismo. Segundo o autor a palavra conforto tem dois sentidos: o primeiro traz a ideia de revigoração e renovação das forças; o segundo traz a ideia pejorativa de comodismo e relaxamento. Da mesma forma, Packer afirma que existem dois tipos de conservadorismo. Para ele existe o conservadorismo criativo e o carnal:

O primeiro é inteligente e luta bravamente contra a influência cultural, sem, contudo fechar os olhos à realidade contemporânea. O conservadorismo criativo convoca o povo a uma reflexão sobre o que está acontecendo no mundo, utilizando as “lentes da contemporaneidade”, mas considerando aquilo que foi dito e feito na história da igreja. Essa leitura jamais ignora o legado teológico.

Já o segundo é cego. Ele busca ou faz apologia daquilo que é velho e convencional. Enquanto o conservadorismo criativo promove reflexão, faz leitura da atual circunstância sem rejeitar a herança da tradição, o carnal simplesmente se acomoda com e ao passado.
O conforto do conservadorismo apregoa um imobilismo, o qual olha, em todo tempo, para o passado. Contudo, essa postura gera uma falsa sensação de bem estar, de segurança e de sapiência. Com isso, esse imobilismo é colocado sobre outras pessoas, o qual passa a exercer um papel tirânico sobre os demais. O argumento persuasivo dos tradicioneiros visa o acatamento de tradições de fé por pessoas adultas, mas que devem receber tais tradições sem nenhum senso crítico ou questionamento. No entanto, Packer não descarta o aspecto salutar da ortodoxia cristã, a qual deve ser recebida com responsabilidade e sob a autoridade autêntica. Dessa forma, o conforto do conservadorismo produz cristãos saudáveis e igrejas vibrantes.

A natureza da tradição cristã focaliza o estudo da tradição, bem como da sua compreensão positiva no século passado. Para isso, Packer destaca quatro pontos principais: a tradição caracteriza as comunidades; as tradições se iniciaram como atos contemporâneos, os cristãos se beneficiam e são vítimas da tradição e tradições seculares e religiosas do mundo se opõem e corrompem a tradição cristã. Todos os grupos têm suas tradições, as quais servem como fator identificador do mesmo. As tradições sempre começam como atos contemporâneos dentro de um contexto e em uma geração. Contudo, surgem também os extremistas. Alguns abraçam as tradições como inspiradas pelo Espírito Santo, outros se posicionam com absoluto desdém. Como existem tradições boas e más, logo somos beneficiados ou nos tornamos vítimas das mesmas. Portanto é preciso cautela. A tradição cristã esbarra sempre nas oposições das tradições religiosas e seculares. Por isso, a igreja precisa constantemente se contrapor aos ataques sutis destas tradições.

Como vimos toda tradição tem aspectos positivos e negativos. Ela pode ser boa, mas também pode ser má. A tradição cristã, a qual é avaliada pelo crivo da Escritura oferece benefícios. Packer destaca quatro: raízes, realismo, recursos e lembretes. Primeiro, quem conhece a tradição descobre suas raízes, identidade e origem. Além disso, as raízes ressaltam os fundamentos. Segundo, outro benefício é a questão da realidade, pois o passado ajuda a fazer uma leitura do presente, bem como avalia a cultura, a mentalidade e sobre e o futuro com uma percepção realista dos fatos. O terceiro benefício ensina que a tradição cristã é um precioso legado. Sendo assim, um recurso valioso para a geração contemporânea. Por fim, em quarto lugar, o benefício do lembrete pedagógico na questão do rememorar a geração militante sobre a história da tradição.

Embora a tradição cristã ofereça todos os benefícios supracitados, no entanto, ela pode cometer muitos abusos. Quando à tradição cristã absolutiza as formulações teológicas como sendo divinas e fechadas, não sujeitas as mudanças e aos questionamentos, ela comete um abuso quanto ao seu equívoco, pois inverte a ordem de valores. Essa percepção convenciona chavões e conceitos teológicos como se fossem inspirados e sacrossantos. Tal mentalidade rejeita todas as transições culturais que ocorrem entre ou no meio do podo de Deus em seu contexto histórico. Portanto, é um perigo e um abuso quando a tradição é colocada como o ideal de Deus em detrimento da Palavra. Por conta disso, todas as mudanças são recebidas e rechaçadas como sendo negativas e perniciosas. Esse tipo de postura quer domesticar o Senhor da história, deseja limitá-lo em seu agir e procura condicioná-lo à tradição. Tudo isso serve para manipular as pessoas e exercer domínio sobre elas.

Packer conclui o seu artigo salientando que existe cura. Que alívio! Porque diagnosticar um problema sem oferecer solução é uma lastima. O conservadorismo criativo utiliza à tradição como recurso de contribuição disponível para ajudar na compreensão de verdades e situações. Ela não é autoridade última, nem final e nem absoluta. O antídoto exige três posturas: honestidade na autocrítica; humildade no juízo particular e integridade na ação moral. A autocrítica deve ser honesta. É preciso descobrir porque erramos, onde erramos e no que erramos. Além disso, a mudança precisa ser feita, porém é preciso fazê-la de maneira sábia e eficaz. Tudo isso deve ser norteado pela honestidade. A segunda postura exige constância no exame da Escritura até que verdades obscuras fiquem claras. Contudo, o fator determinante não é o nosso intelecto orgulhoso, mas a obediência e humildade diante da Palavra de Deus. Por fim, a integridade na ação moral, a qual exige que ocorra um rompimento com a multidão, mesmo que essa seja cristã. De modo que o padrão de integridade do cristão é a Bíblia e não a legislação baseada na sabedoria humana.


Para Packer existem muitos evangélicos presos atualmente ao conforto do conservadorismo carnal. A igreja precisa fugir dessa armadilha. Ela precisa abraçar o conservadorismo criativo e inteligente. Ela precisa buscar a verdadeira renovação da fé reformada, a qual reconhece ser uma tradição, mas que se permite ser reformada, questionada e balizada pelo crivo da Escritura Sagrada.


Gostaríamos de salientar que, embora o artigo seja um texto pequeno, no entanto está inundado pela riqueza intelectual e relevante. Existem outros pontos que poderiam ser destacados nessa sucinta avaliação crítica, mas destacaremos apenas mais um: O texto é uma convocação à reflexão crítica acerca do perigo de abraçar a tradição sem submetê-la ao crivo final da Escritura, bem como o perigo de supervalorizar a tradição, ao ponto de comprometer a autoridade e suficiência da Bíblia. Contudo, o autor elaborou o seu artigo com equilíbrio, maturidade, bom senso e sobriedade cristã, pois reconhece o valor do legado da tradição teológica para a igreja cristã. Portanto, sem dúvida alguma, esse é um ponto que merece ser destacado. No mais, esse artigo deve ser lido por toda liderança cristã, porém, especialmente pela liderança herdeira da tradição reformada, para que a mesma não caia em ciladas da “sapiência humana”.

1 PACKER, J. I. O Conforto do Conservadorismo. In: HORTON, Michael S. Religião de Poder. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p. 231-243.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

UMA FAMÍLIA FELIZ

UMA FAMÍLIA FELIZ
A felicidade é almejada por todos os gêneros, por todas as classes, por todas as faixas etárias. Todos querem ser felizes, mas nem todos encontram o caminho da felicidade. Muitos buscam a felicidade, mas nem todos se submetem as normas estabelecidas por Deus para recebê-la. Diversas vezes as pessoas pensam que serão felizes quando adquirirem algum patrimônio seja uma casa ou um carro. Tantas vezes nutrimos uma falsa esperança de que se concluirmos o nosso curso acadêmico, finalmente, seremos felizes. Outras vezes achamos que uma determinada situação vai proporcionar a felicidade da nossa família. Entretanto, tudo não passa de um ledo engano. Não somos felizes porque efetuamos algumas conquistas. Nossas conquistas podem até trazer satisfação para a nossa alma, mas não tem poder para nos tornar felizes.

Para uma melhor compreensão precisamos corrigir certos equívocos acerca da felicidade. Existem pelo menos três concepções equivocadas a cerca da felicidade familiar:

1) Felicidade não é perfeição. Muitas famílias confundem felicidade com perfeição. Acham que serão felizes quando o cônjuge e os filhos estiverem de acordo com os elevados padrões construídos pela família. Como a expectativa do marido perfeccionista não é cumprida nem a exigência da esposa detalhista não é atendida, logo ficam privados da felicidade, porém, tal cobrança não ocorre somente na esfera da relação conjugal. Inúmeras vezes os pais perfeccionistas atam fardos pesados sobre os seus filhos. Como os filhos não conseguem enquadrar-se no padrão erigido, entram numa rota de colisão relacional com os pais.

2) Felicidade não é sentimento. Aqui urge a necessidade de distinguir alegria de felicidade. Para muitos, a felicidade é sinônimo de alegria. Embora a alegria seja um componente da felicidade, no entanto, ela não deve ser confundida com felicidade. Alegria é um sentimento circunstancial, felicidade é um estado de espírito. Uma pessoa feliz pode ser assaltada pela tristeza, porém, uma pessoa sorridente pode ser extremante infeliz. Nossas manhãs nem sempre são marcadas por alegria indizível.

3) Felicidade não é sinônimo de ausência de crises. Uma família feliz também enfrenta dramas colossais. Ela não está isenta de problemas. Famílias felizes também ficam de luto, convivem com o drama da dor e da perda. Também são atacadas por diversas, repentinas e terríveis enfermidades.
A felicidade é um ensino bíblico. Encontramos na Escritura diversas vezes a expressão: “bem aventurado”, a qual pode ser traduzida por “muito feliz”. Portanto, Deus quer que sejamos felizes. No entanto, a felicidade nunca está atrelada aquilo que temos, mas, com quem somos, bem como com o que fazemos. Vejamos dois princípios a partir dos quais a felicidade se processa: “Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos” (Sl 128. 1). Temos aqui dois princípios inegociáveis para uma família que quer ser feliz. 

Em primeiro lugar, uma família feliz é aquela cujos membros temem a Deus. O princípio aqui se aplica a todos os membros da família. De sorte que, o pai, a mãe e os filhos que temem a Deus são felizes. Eles são felizes na família, porque se relaciona corretamente com o seu Redentor. Quando os membros da família se relacionam de acordo com o ensino bíblico. Logo, tal família será muito feliz.
 
Em segundo lugar, uma família feliz é aquela cujos membros fazem a vontade de Deus. O andar com Deus é um hebraísmo que traz a ideia de fazer a vontade do Senhor. Não basta saber que Deus tem uma vontade. A sua vontade deve ser conhecida, mas também deve ser obedecida. A família que deseja ser feliz deve levar muito a sério aquilo que Deus ordena em sua Palavra.

Ninguém pense que o vinculo relacional está dissociado da relação daquele que criou a família. A relação da esposa com o marido sinaliza que tipo de relação tem com Deus. O modo como o marido trata a esposa, revela o grau de temor que é abrigado em seu coração. Da mesma forma, o termômetro que afere o quanto os filhos honram aos pais caracterizam o quanto honram a Deus. O empenho dos pais na educação de seus filhos vai evidenciar o seu comprometimento com o Senhor. De sorte que, a felicidade de uma família tem início com Deus. A propósito, como você tem se relacionado com o Senhor? Sua família é feliz? Na prática, uma família feliz é aquela que se relaciona corretamente com o Senhor, cujo relacionamento é medido pelo modo como os membros da família se relacionam entre si.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

RESSURREIÇÃO, O TRIUNFO DA GRAÇA DE DEUS SOBRE A MORTE


O justo, Jesus Cristo, foi manietado pelos injustos e tratado como um malfeitor. Foi tratado como um facínora. O Filho Eterno de Deus foi profundamente humilhado pelos seus algozes. Ele levou cusparada no rosto, foi espancado e esmurrado. Como forma de escarnecimento, os soldados do governador o despiram e o cobriram com um manto escarlate, cravaram na sua cabeça uma coroa de espinhos, colocaram o caniço na sua mão direita, e com o mesmo davam-lhe na cabeça. Os soldados riam. Eles ironizavam: “Salve, rei dos judeus!” (Mt 27. 29). Depois da tortura física e psicológica, Jesus foi levado para ser crucificado.

A sexta-feira da paixão foi um dia sombrio. Naquele dia houve densas trevas sobre a terra. A paixão de Cristo foi marcada por muita dor e profundo sofrimento. Cristo sofreu na carne e na alma. Seu corpo foi ferido, sua alma ficou angustiada. A solidão alcançou a alma do Senhor Jesus. Quando deixado sozinho, gritou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46). Os discípulos também foram afetados pelos acontecimentos da sexta-feira da paixão. Eles ficaram como ovelhas desgarradas. A tristeza estava estampada na face de cada discípulo. Porém, a sexta-feira da paixão não é o ponto final da história da redenção. A redenção inicia-se com a morte, porém termina com a ressurreição no primeiro dia da semana. O dia da crucificação não tem a palavra derradeira, mas apenas demarca um pequeno intervalo, para dar lugar à vitória. A tarde de sexta-feira da paixão foi escura e tristonha, mas o domingo de páscoa não nasceu debaixo da escuridade, porém debaixo da luz da esperança e dos raios da alegria.

Enquanto a sexta-feira foi marcada pela traição, pelo medo, pela angústia e morte; o domingo de páscoa foi marcado pela celebração, pela renovação da esperança e pela vitória da vida sobre a morte. A gloriosa notícia da ressurreição começa assim: na madrugada de domingo de páscoa, algumas mulheres levantaram muito cedo, não para preparem a primeira refeição do dia, o café da manhã, porém para irem ao sepulcro, onde o corpo do Salvador tinha sido sepultado. No caminho, as mulheres perguntavam umas para as outras: “Quem nos removerá a pedra da entrada do túmulo?” (Mc 16.3). A pedra era muito grande, por isso fizeram a pergunta. Entretanto, para o espanto delas a pedra já tinha sido removida.

O domingo de páscoa também foi marcado pela insígnia da surpresa, pois as mulheres perceberam que a pedra não estava mais no túmulo. Com isso, imediatamente, correram para contar aos discípulos sobre o sumiço do corpo de Jesus. Elas disseram: “Tiraram do sepulcro o Senhor, e não sabemos onde o puseram” (Jo 20.2). A princípio, a pergunta fora feita pelas mulheres, agora, porém, será feita pelos anjos de Deus: “Por que buscais entre os mortos ao que vive?” (Lc 24.5). Eles perguntam, mas, logo a seguir, respondem: “Ele não está aqui, mas ressuscitou” (Lc 24.6). A notícia é estupenda. Jesus está vivo. A seguir, porém, elas “fugiram do sepulcro, porque estavam possuídas de temor e de assombro; e, de medo” (Mc 16.8). Elas estavam perplexas (Lc 24.4). Elas estão tomadas de pavor, mas também de grande alegria. As mulheres correm para contar aos discípulos: o túmulo está vazio. Jesus ressuscitou. Ele está vivo. No entanto, para os discípulos: “Tais palavras lhes pareciam um como delírio, e não acreditaram nelas. Pedro, porém, levantando-se, correu ao sepulcro. E, abaixando-se, nada mais viu, senão os lençóis de linho; e retirou-se para casa, maravilhado do que havia acontecido” (Lc 24.10-12).

O domingo de páscoa, portanto, vence a desesperança pela ressurreição de Cristo. A perspectiva esperançosa da existência humana fora perdida. Todavia, com a ressurreição renasce. A humanidade estava fadada à perdição eterna. Por isso, aquela manhã de domingo não era igual às demais, porque o fato histórico da ressurreição vislumbra um futuro de glória eterna. A morte foi vencida pela ressurreição de Jesus. Cristo venceu a morte. Ele matou a morte com a sua morte. A ressurreição é o triunfo da vida sobre a morte. É a vitória da graça de Deus sobre a desgraça humana. A Escritura atesta essa verdade com as seguintes palavras: “Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1Co 15.20).

Agora, porque Ele vive podemos crer no amanhã, já diz a música sacra. Porque Jesus ressuscitou, precisamos obedecer o imperativo evangelístico: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda a criatura” (Mc 16. 15). A ressurreição é o pressuposto motivacional para trabalhar com afinco na obra do Senhor: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1Co 15.58). Ah! Amados! Cristo ressuscitou dentre os mortos. Sua ressurreição é o fundamento da nossa esperança. O Cristo ressuscitado está vivo. Para uma mulher chorosa, Ele diz: “não chores”. Para os aflitos, Ele os saúda dizendo: “Paz seja convosco” (Jo 20.19). Para os amedrontados, Ele os encoraja dizendo: “Não temais!”. Ele ressuscitou dentre os mortos. Ele está vivo para sempre. Aleluia!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A MANIFESTAÇÃO DA GRAÇA DE DEUS

A MANIFESTAÇÃO DA GRAÇA DE DEUS

O homem é pecador. Ele é concebido em pecado, tem a natureza pecaminosa, vive pecando e é escravo da sua maldade. Nasce morto, e, portanto não tem condição de voltar-se para o seu Criador. Seu coração é insensível, por isso, não ama o Senhor Deus. Seus ouvidos estão impedidos para ouvir a voz de Deus. Por conta disso, o homem não pode retornar-se para Deus nem salvar a si mesmo. A salvação do homem, portanto é uma manifestação da graça salvadora de Deus. Ele é salvo e educado pela graça. Assim como o homem é salvo pela graça, da mesma forma podemos dizer que a graça o educa. Ninguém pode salvar a si mesmo nem mudar o seu próprio coração. Deus, porém, salva o ímpio e o faz santo. O apóstolo Paulo ensina que a manifestação da graça tem dois propósitos. A graça tanto salva quanto educa. A seguir vamos extrair duas lições sobre a manifestação da graça de Deus de acordo com (Tt 2. 11, 12):

1) A manifestação da graça de Deus salva o homem.
Em primeiro lugar, vejamos o que Paulo afirma acerca da manifestação da graça: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens(Tt 2. 11). A finalidade da manifestação da graça de Deus é salvar homens de toda as etnias e culturas. Entretanto, há pessoas de diversos matizes que ainda pensam que foram salvas por conta daquilo que deixam de fazer ou por causa daquilo que fizeram. Este tipo de compreensão é uma forma distorcida do ensino da salvação pelas obras. Contudo, o ensino da Escritura aponta noutra direção: não foi o que fizemos nem o que deixamos de fazer, nem o que éramos nem o que somos que atraiu a graça. O que Deus é e fez é que nos atraiu para a graça. Deus nos salvou pela graça. A Escritura é categórica quando diz: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2. 8). Portanto, não conquistamos a graça; foi a graça que nos conquistou. A salvação não é uma conquista humana, mas uma doação da graça divina. Não foi o homem quem primeiro amou a Deus; foi Deus quem nos amou e provou seu amor por nós, dando-nos seu Filho para morrer em nosso lugar, sendo nós ainda pecadores. Fomos conquistados pelo amor de Deus. Ele nos deu vida quando estávamos mortos, éramos filhos da ira, agora, porém, temos vida e somos filhos amados. Por isso, não nos esqueçamos de que devemos tudo à graça de Deus, sobretudo, a nossa salvação, pois precisamos de graça até para entendermos que a graça é graça. Concluímos, portanto, que a graça de Deus manifestou-se arrebatando-nos da perdição eterna. Além de nos salvar, a manifestação da graça tem como propósito nos educar. 

2) A manifestação da graça de Deus educa o homem. Em segundo lugar, vejamos a continuação da instrução apostólica sobre tal verdade: “educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2. 12). Hoje, fala-se muito sobre a questão da educação. Muitos acreditam que as mudanças sociais alcançarão o seu êxito por intermédio da instrução. A sociedade, no entanto, pode até informar o intelecto e preparar as pessoas para a inclusão social, mas não pode mudar o coração nem transformar o comportamento do ser humano. O profeta ensina a mesma verdade de uma forma magistral. Para isso, ele usa o recurso retórico, quando pergunta: Pode, acaso, o etíope mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas? Então, poderíeis fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal” (Jr 13. 23). A resposta é não. Ninguém altera sua conduta, sem antes ser transformado pela graça divina. Todavia, a manifestação da graça salvadora vem acompanhada de múltiplos benefícios. Ela encontra-nos mortos e concede-nos vida, alcança-nos caídos e coloca-nos de pé, encontra-nos com o entendimento obscurecido, porém traz luz à nossa mente. A graça tem método, alvo e conteúdo. Ela salva o homem e o matricula na escola da piedade, encontra-o no caminho tortuoso e coloca-o na vereda da justiça, resgata-o da prática do mal e ensina-o a fazer o bem. Ela prepara o crente para uma vida santa. Sua finalidade é conformar-nos à imagem do Filho de Deus. Assim, o propósito da graça é ensinar-nos a renunciar os comportamentos mundanos. Ela ensina-nos como viver. A graça, no seu exercício pedagógico, desconstrói os fundamentos velhos e edifica novos pilares, substitui hábitos pecaminosos por hábitos santos, remove os valores mundanos pelos do reino de Deus. Nosso destino é o céu, porém, a graça prepara-nos para vivermos como cidadãos da pátria celestial aqui e agora. A instrução da graça se inicia com a salvação e termina na glorificação. Deus salvou você para morar no céu, porém, o educa para viver aqui na terra, como cidadão da pátria celestial.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A PERGUNTA DA GRAÇA

A PERGUNTA DA GRAÇA

Nossos primeiros pais, seduzidos pela proposta enganosa da serpente, pecaram. Logo a seguir, abriram-se os olhos de ambos. Então, percebendo que estavam nus se esconderam. A desobediência fez com que nossos primeiros pais perdessem a inocência. Por isso, sentiram vergonha e tiveram medo do Criador. Agora, porém pesava sobre seus ombros o fardo da culpa. A vida estava marcada pelo vazio da solidão e em seus corações havia uma angústia por causa da ausência de Deus. Por conta da rebeldia, tomaram o caminho da fuga. Contudo, diante de tudo isto, Deus fez a magnífica pergunta da graça: “o SENHOR Deus chamou o homem, perguntando: Onde está você?” (Gn 3. 9). Esta pergunta enseja três lições preciosas sobre a graça de Deus:

1) Deus toma a iniciativa de procurar o homem caído. 
A pergunta feita por Deus demonstra que toda iniciativa em procurar o homem é uma ação divina. A culpa faz com que o homem fuja da presença de Deus. O pecado não somente afasta o homem de Deus, mas também constrói uma grande muralha entre o homem e o seu Criador. Traz consigo efeitos devastadores de caráter pessoal, existencial, emocional e universal. Por isso, a raça humana, a criação e todo o cosmo são afetados. Por causa dele, o homem sofre e a criação geme. O pecado provoca a ruptura de relacionamento, perturba a ordem da criação e traz consequências terríveis para a vida humana. Nesse ínterim, quando o medo, o desespero, a dor, a fuga e a culpa imperam, a voz da graça ecoa com uma magnífica pergunta: “Onde está você?”. Na verdade, o Senhor sabe onde estamos. Ninguém pode se esconder de seus olhos. Ele vê tudo, sabe tudo e conhece todas as coisas. Deus sabe quando, onde e porque nos escondemos. Mas, mesmo assim, Deus faz a pergunta da graça, pois tem prazer em buscar e salvar o perdido. Quando tudo parece estar perdido, o Senhor toma a iniciativa de sair à nossa procura.

2) Deus demonstra interesse pelo homem caído. 
A pergunta da graça demonstra o interesse que Deus tem pelos pecadores. O pecado mantém o homem longe de Deus. Aliás, o pecado sempre nos priva da comunhão com o Senhor. Isso ocorre, porque diversas vezes tomamos caminhos que nos conduzem para longe do convívio do amado Redentor. Com isso, evidenciamos a nossa falta de interesse pela presença de Deus, até porque, o engano do pecado endurece o coração e mata a sensibilidade. Entretanto, sempre que perdemos o encanto pela presença de Deus, a pergunta da graça é dirigida aos nossos ouvidos e atinge a nossa consciência, pois a voz divina almeja nos conquistar: “Onde está você?”. A pergunta de Deus feita ao homem é mais do que uma inquirição: é uma real demonstração do intenso amor e profundo interesse de Deus por ele. Deus pode escolher deixar-nos onde e como estamos, porém decide amorosamente nos procurar. Deus se interessa pelo homem, por isso, não o deixa como está nem como merece ficar.

3) Deus deseja restaurar o homem caído. 
A pergunta da graça é o veemente desejo de Deus restaurar o perdido. A graça de Deus é tanto pedagógica quanto restauradora. Na verdade, a pergunta da graça é perscrutadora: “Onde está você?”. Você precisa de restauração, porém, não tem condição de restaurar a si mesmo. O Senhor convida você para recomeçar, mas, para que isso ocorra é preciso apresentar-se diante dele. Deus deseja restaurar-nos, mas é preciso comparecer diante dele para receber aquilo que tanto necessitamos, isto é, o perdão. A cura dos traumas de nossa vida, assim como dos nossos dramas emocionais passa necessariamente pelo comparecimento à presença de Deus. Só assim, você terá sua vergonha coberta pela justiça de Cristo, o medo substituído pela segurança e a remoção da culpa pelo sangue de Jesus. o resultado do perdão é a paz. 

Para você que ainda vive sob o pavor da lei, a graça lhe convida para recomeçar. Venha agora mesmo. Não adie a sua decisão. A pergunta de Deus é uma profunda demonstração de seu propósito em restaurá-lo. A iniciativa, o interesse e o desejo de restaurar o homem são sempre do Senhor, porém, cabe a você responder ao seu chamado. Ele é quem chama, todavia, é você quem deve tomar a iniciativa de aceitar o convite. Deus faz a pergunta, mas cabe a você respondê-la. Se você tem medo e está com vergonha de comparecer à santa e augusta presença de Deus, saiba que ele não despreza um coração quebrantado. Se você ainda está carregando o fardo pesado da culpa, o Senhor lhe pergunta: “Onde está você?”. Se você está ouvindo a voz mansa e suave, porém, toda poderosa, não perca tempo. Saia de seu esconderijo existencial e compareça diante de Deus para receber alívio, graça e perdão. o Senhor tem prazer em receber os seus filhos para oferecer-lhes o banquete do seu perdão.