quinta-feira, 9 de junho de 2011

TRADICIONALISTAS E PROGRESSISTAS: CONTRIBUIÇÕES E PERIGOS

TRADICIONALISTAS E PROGRESSISTAS: CONTRIBUIÇÕES E PERIGOS

O mundo é marcado por duas tendências ou estilos diferentes. A primeira tem como marca o conservadorismo, a segunda a inovação. Uma detém a tradição, a outra insere as novidades. Esses dois estilos são rotulados de radicais e revolucionários. Os radicais não suportam, nem estão abertos para novas possibilidades. Os tradicionalistas não dão abertura para o desenvolvimento prático e valorizam o engessamento estético. Além disso, eles são muitíssimos apegados à forma. Os revolucionários por sua vez, ignoram e quase sempre pisoteiam os fundamentos que foram fincados no passado, os quais são frutos de muito labor dos empreendedores no campo do saber. Essas duas tendências são percebidas na academia, na política, na sociedade de modo geral, na religião seja ela de qualquer natureza e na igreja. Essas divergências de posicionamentos, não são marcas exclusivas da era chamada pós-moderna, mas de vertentes que vem se perpetuando por várias gerações. Entretanto, elas são percebidas com mais clareza neste período supracitado.

O professor de inglês da Concordia University-Wisconsin, Gene Edward Veith, Jr. afirma que esses distintos estilos possuem valores diferentes. Por conta disso, eles tanto podem colaborar com o Cristianismo como podem prejudicá-lo. Por exemplo, os tradicionalistas têm um valor inestimável no que tange à tradição, pois sua função é preservar o conhecimento sistematizado e a experiência acumulados por décadas e séculos, para posteriormente transmití-lo como legado à geração futura. Contudo, precisamos acautelar-nos quanto ao passado para não mergulharmos no baú do tempo, cujo cadeado não tem chave para uma nova leitura e releitura dos fatos, nem tempos, nem luz para as mentes, a fim de promover avanço no campo do conhecimento. O passado tanto pode servir de base quanto pode ser um labirinto sem saída. O valor está no modo como o utilizamos. O filósofo Mário Sergio Cortella traz uma contribuição preciosa acerca dessa percepção ao afirmar que não devemos olhar para o passado como direção, mas como uma referência. Entretanto, tantas vezes fazemos o caminho inverso.

Por outro lado, os progressistas também contribuem de modo valioso com a questão do conhecimento, pois as descobertas e as mudanças são necessárias. No entanto, devemos tomar muito cuidado com o novo, pois muitas vezes ele quer sepultar o passado em nome do progresso ou do avanço. Para eles, o passado é como um corpo sem vida e inerte que não oferece nenhuma contribuição ou relevância para o presente. Equivocam-se os progressistas nesse ponto, porque a herança no que tange à construção do conhecimento pode servir de fundamento sólido para as novas descobertas e construções de conhecimento sapienciais, os quais são verdadeiros patrimônios da humanidade.

Enquanto os tradicionalistas exercem um papel importante como guardiões da tradição, os progressistas desempenham uma função magistral ao questionar a pirâmide do conhecimento sacralizada pelos homens e pelo tempo. Isso é bom e salutar, pois solidifica convicções, porém promove o abandono dos equívocos. Os inovadores, além de corroborar reflexivamente, eles repensam os conceitos e as situações, mas, sobretudo inserem novas ideias ao edifício construído pelos tradicionalistas, as quais provocam mudanças e tornam o legado herdado relevante para a geração atual. Gene destaca que sem a função progressista, “nós estaríamos satisfeitos com o que já sabemos, ou pensamos que sabemos, e a investigação, a curiosidade e a pesquisa cessariam”. Cortella segue nessa mesma direção. Ele oferece o seguinte conselho: “Afeste-se dos professores velhos, que acham que sabem tudo e não querem aprender, e junte-se aos idosos, com grande experiência e atualização”. Com isso, aprendemos que é extremamente possível ser uma pessoa conservadora e ao mesmo tempo inovadora.

A princípio, essas duas posições podem parecer opostas, mas de acordo com o espírito de equilíbrio e bom senso, podemos afirmar que elas se completam. Não que as tensões serão banidas entre ambas, mas irão se complementar na construção do pensamente e do conhecimento. O resumindo e usando uma linguagem metafórica, podemos dizer que: o mundo é como um veículo automobilístico que precisa tanto do freio como do acelerador. Sendo assim, é salutar que essas duas tendências sobrevivam. Se uma deixar de existir estamos fadados ao fracasso. Essas duas tendências não são perniciosas, mas colaboradoras na edificação do conhecimento, na criação de métodos relevantes, a fim aplicá-lo de forma correta e eficiente em cada geração.

Como a igreja não está isenta dessas duas vertentes, então, precisamos atentar para a contribuição de ambas. Além disso, precisamos tomar muito cuidado com os perigos abissais que elas criam, os quais são emboscadas tenebrosas. Para Gene, “Os cristãos tradicionalistas, às vezes, olham mais as realizações e instituições humanas do que dão atenção à Palavra de Deus”. Essa supervalorização é perigosa. O apego a essa tendência nos rodeia há muito tempo. Uma atitude dessa natureza coloca em risco a supremacia da Escritura Sagrada. Ela foi cometida pela liderança da igreja no período que ficou conhecido como Idade Média ou Era das Trevas, como também pelos fariseus. Os fariseus erraram quando colocaram as tradições dos anciãos acima dos mandamentos divinos. Eles confundiram interpretação com a Palavra de Deus. Um exemplo disso pode ser visto por meio do testemunho da Escritura: “Então, vieram de Jerusalém a Jesus alguns fariseus e escribas e perguntaram: por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos quando comem. Ele, porém, lhes respondeu: por que transgredis vos também o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição? Porque Deus ordenou: honra teu pai e tua mãe, e: quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte. Mas vós dizeis: se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: é oferta ao Senhor aquilo que poderias aproveitar de mim; esse jamais honrará a seu pai ou sua mãe. E, assim, invalidastes a palavra de Deus, por causa da vossa tradição. Hipocritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito dizendo: este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15. 1-9). Esse tipo de atitude invalida o culto. Por conta disso, Jesus censurou, condenou e rejeitou a sua adoração. Os fariseus estavam mais preocupados com a questão estética do que com a essência. Em nome da tradição invalidavam a lei divina. Portanto, o perigo de invalidar a Palavra de Deus por causa da tradição pode ser uma emboscada sutil contra os conservadores, os guardiões da tradição. Na verdade, eles precisam cuidar para não sacrificarem os mandamentos divinos por guardarem de modo irrestrito o arcabouço da tradição teológica. Em suma, é preciso ficar claro, que toda tradição teológica tem o seu valor, mas, ela não é, nem nunca será, nem jamais deve ser confundida com a infalível poderosa Palavra de Deus.

Os perigos que cercam os progressistas são de outra ordem ou natureza, mas também são sorrateiros e extremamente nocivos. Os progressistas, porém, no afã de descobrir o novo, correm o risco de pisar em areia movediça, no pântano do lamaçal, bem como correm o risco de flutuar na escuridão do vazio. É por isso, que as pessoas têm medo daquilo que é novidade, e com razão, pois quase sempre o estrago é irreparável. Na verdade, se as novidades não estiverem alicerçadas em fundamentos sólidos, podem cavar a sepultura para uma geração inteira. Uma geração desprovida de fundamentos pode ser engolida pelos movimentos esdrúxulos inflados pelas bolhas da curiosidade, movido pelo vento do emocionalismo vazio e sem informação, sem vida e carente do saber. As inovações podem fazer com que as pessoas fiquem como crianças, agitadas de um lado para o outro. Os progressistas têm um papel importante na ampliação do conhecimento, mas não podem abandonar os pilares erigidos, porque senão farão com que as pessoas sejam levadas “por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4. 14). Portanto, as novas construções na área do pensamento e do conhecimento sistematizado, são legítimas e salutares. Entretanto, elas devem ser realizadas com sobriedade, bom senso e sabedoria. O velho não pode ser abandonado por conta do novo. Contudo, o velho não deve ser preservado a ponto de abortar o surgimento daquele que está para nascer com vitalidade. Todavia, se em algum momento da história, um legado do passado sufocar ou tolher a liberdade de pensar, criar e construir, a tradição precisará reencontrar o seu caminho e redescobrir o seu verdadeiro papel.

Sendo assim, os tradicionalistas precisam entender que a Palavra de Deus não muda jamais. Ela é absoluta, porém a tradição não. A tradição, embora tenha o seu valor, entretanto, ela muda, e em alguns casos é necessário que mude e sofra alterações sempre que houver uma necessidade papável e concreta. Gene afirma que: “Insistir que a Palavra de Deus é absoluta não é insistir que todo o conhecimento seja absoluto. Pelo contrário, uma visão elevada das Escrituras assegura que o conhecimento humano, à parte da Palavra de Deus, é caído, limitado e parcial”. Por outro lado, os progressistas precisam entender que não existem novas construções sem considerar aquilo que já é conhecido. Toda tentativa fora disso pode provocar estragos terríveis, bem como gerar ruínas e crateras irreparáveis na história da humanidade, e porque não dizer da igreja. Uma conclusão óbvia, sábia, prudente e relevante buscará sempre conciliar tanto a posição conservadora quanto a inovadora. Precisamos tanto do legado da tradição como de novas lajotas no edifício do conhecimento. “Uma cultura intelectual saudável precisa conter ambos os estilos, tanto aqueles que preservam a sua tradição como os que acrescentam a ela. Para os cristãos, cada um representa um certo risco e uma certa promessa. Os cristãos com fé bíblica podem ser tanto tradicionais quanto progressistas”, afirma Gene. Portanto, um cristão bíblico e sábio, cuja cosmovisão é conduzida pelas Escrituras nunca abandonará a tradição enquanto legado teológico, mas também jamais fechará os olhos para as novas possibilidades de realizações. Cristão que pensa biblicamente é radical por possui raízes, mas também é inteligente, inovador e criativo, porque tem a mente arejada pelas Escrituras. O mundo precisa de cristão conservador, mas também precisa do cristão criativo. O cristão deve ser tradicionalista, isto é, guardião da tradição, porém deve ser também progressista, ou seja, inovador na construção do conhecimento. Pense nisso!

1VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 59.
2 Extraído do Jornal Atribuna, terça-feira, 10 de maio de 2011.
3 VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 59.
4 Extraído do Jornal Atribuna, terça-feira, 10 de maio de 2011.
5 VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 61.
6 VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 65.
7 VEITH JR., Gene Edward; De todo meu entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 61.

3 comentários:

Anônimo disse...

Me sinto privilegiada por receber um texto como este para refletir. Parabéns pelo trabalho!


Fabiola Caldas

Anônimo disse...

Especial d +,todos deveriam ler para entender a vida hoje,entre tantas tribulações,
e o porque de tantos desencontros entre a família de Deus.Parabéns,são menssa-
gens edficantes que precisamos ouvir e entender,pois nos ajuda a refletir e con -
tinuar sempre em frente,com Cristo sendo a nossa luz.
Aproveitando a oportunidade, como está o dia da família Henrique
para o sábado?Gostaria de recebê-los para um almoço.Se puder, responda-me por
favor.
Abs....Terezinha

Anderson Gonzaga disse...

Olá Rev. Fábio,
Interessante essa reflexão.

Entendo que quando se faz esse contraponto entre "tradicionalistas e progressistas" existe algo de caricatural nessas definições.

Inicalmente, o leitor não vê saída: já que "o mundo é marcado por duas tendências..." se eu não me encaixo nos tradicionalistas, só posso ser progressista.

Eu, particularmente, não gosto muito de rótulos; não quando eles são colocados em pessoas. Vejo que com muita facilidade as pessoas são rotuladas hoje: neo-pentecostais, ultracalvinistas, neo-ortodoxos, etc.
Para mim soa falso contrapor tradicional e progressista por uma questão semântica: enquanto progressista lembra progresso,
que lembra coisa boa, inovação dedicada ao nosso bem, uma melhoria, tradicionalista está atrelado (no pensamento moderno) a algo mofado, imobilizado, velho e, em suas palavras, engessado.
Só essa rotulação deixa o debate bastante prejudicado já no seu nascedouro.

Caso nos dediquemos, por exemplo, a analisar a igreja evangélica brasileira nos últimos 50 anos, talvez constatemos com tristeza que as inovações, os modernismos e o "progressismo" não contribuíram muito para tornar essa igreja mais fiel a Deus nem em sua vida diária e nem na sua relação com o mundo. Naquela época a igreja era reconhecida como muito diferente do mundo, o que levava o mundo a odiá-la e perseguí-la. O que somos hoje? Uma igreja que está por demais preocupada em ser "relevante", peocupadíssima em fazer com que o não-cristão se sinta bem ao visitá-la (e não com que ele se sinta incomodado e deslocado ao ser confrontado com o pecado).

Se importa que nos seja aposto um rótulo, que seja "igreja fiel". Pois se a igreja se mantiver fiel à bíblia, ela não precisará da muleta das tradições humanas, nem de ilusões vendidas pelos inventores das novidades da hora.

Parece que essa igreja está necessitada de ouvir novamente: "Estou admirado de que tão depressa estejais desertando daquele que vos chamou na graça de Cristo, para outro evangelho"
Gálatas 1:6

Um abraço, no amor de Cristo.