quarta-feira, 20 de abril de 2011

Uma visão cristã sobre o massacre em Realengo.




Essa semana o Brasil se consternou com os familiares dos adolescentes assassinados no colégio municipal Tasso da Silveira em Realengo no Rio de Janeiro. Doze crianças mortas e mais dez crianças internadas no hospital Albert Schweitzer, sem contar a ferida causada no psicológico e na alma dos adolescentes que presenciaram esse massacre é o retrato do luto que o Brasil passa.
Nesta mesma semana, como pastor evangélico de uma comunidade, fiz minha prédica no salmo seis, no momento de explanar o versículo três e seis, lembrei-me deste fatídico evento. No final do versículo três o salmista pergunta: “Senhor, até quando?”. Na dor, na angústia de sua alma, Davi encara a realidade que lhe cerca e faz esta pergunta, que de todas da bíblia é a mais admirada por João Calvino, pois o reformador vislumbra um momento em que o mal não mais existirá. Todavia por causa da nossa condição terrena e pecaminosa, somos levados a olhar mais para o presente do que para o futuro, nossas lágrimas embaçam nossos olhos e só enxergamos a dor que nos cerca. “Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço nadar o meu leito, de lágrimas o alago” (Sl 6.6). Nossa condição humana pueril presente nos leva a um sentimento excruciante, a uma dor mortal. Em momentos como estes, choramos e pensamos que vamos morrer de tanto chorar, pensamos que nossas lágrimas irão secar de tanto derramá-las.
Quando soube deste trágico fato, pouco tempo depois do ocorrido, não dei muita importância no momento, pois a agitação do dia levava minha atenção para outro lugar. Não tinha noção da amplitude do fato, que é tido hoje como sem precedentes na história brasileira. Depois, quando vi e ouvi pelos telejornais, chorei a semelhança dos amigos brasileiros e até hoje choro, quando ouço parentes e amigos externando seus lutos.
Creio que em momentos como este, não há tempo para questionamentos do por que, ainda que já tenha “pincelado” aqui, a saber, por causa da nossa condição humana presente em estado de pecado e morte. Mas, é tempo de fazermos nossa parte como cristãos, por isto nesta tragédia não encontrei nada mais oportuno do que o nome do hospital em que os adolescentes foram encaminhados, Albert Schweitzer. Quando ouvi o nome do hospital, lembrei deste notável homem que deixou sua posição famosa de médico, músico e pastor que possuía e foi cuidar dos africanos que não tinham cuidados médicos. Sua vida abdicada ao serviço ao próximo, o fez enxergar que na dor do outro, temos a oportunidade de manifestarmos o amor e a graça de Deus. É utópico viver uma vida de serviço aos que sofrem e derramam rios de lágrimas? Creio que não e Schweitzer mostra que somos capazes. “O Lugar dor” é o mesmo lugar da solidariedade, é a oportunidade que temos de não ficar questionando os fatos, mas de ajudar.
Além de Realengo ter um hospital com um nome tão apropriado para o momento, ao lado do colégio Tasso da Silveira encontramos a Igreja Presbiteriana de Piraquara-Realengo, que abrigou os feridos logo após o massacre, que cuidou da comunidade dando lanches para os policiais que ficaram de plantão no local e ainda realizaram cultos voltados para toda comunidade em solidariedade aos enlutados.
Oro pelos enlutados e peço licença aos que me lêem para citar o nome de Larissa Santos Atanásio, de 13 anos. Membro da Igreja Presbiteriana que fica ao lado do colégio Tasso da Silveira. Ela faz parte das vítimas que perderam a vida neste trágico evento. Cito a frase dita em oração pelo irmão da Larissa que emocionou todos os presentes: “Assim que a minha irmã foi batizada ela virou uma militar. Não do Exército, da Aeronáutica e da Marinha e sim de Cristo. Agora ela vai para as fileiras celestiais e vai subir de patente” (Felipe Atanásio). A família Atanásio está enlutada e a família presbiteriana também.
Não quero focar só o lado pessimista da situação, ainda que este seja bem patente, mas a oração do irmão da Larissa nos leva a uma visão sublime e concreta, a do cuidado de Deus para com os seus. E o Salmista nos versículos oito e nove do Salmo seis que já foi citado aqui, mostra que Deus responde a súplica e ouve a voz do nosso lamento, a tri-repetição nestes dois versos mostra a felicidade do Salmista em saber que em meio a todo sofrimento, Deus está presente e no socorre.
Pensei em escrever sobre a carta doentia e religiosa contendo até mesmo passagens bíblicas que o assassino deixou, ou até mesmo falar sobre sua atitude fria e calculista de escolher apenas meninas para matar, mas creio que com isso eu iria fazer exatamente o que este tresloucado queria, a saber, chamar a atenção para ele. E meu propósito aqui é exatamente outro, o de mostrar que o propósito da vida é refletir o amor de Deus no serviço que prestamos ao nosso próximo.
Acabei de voltar da reunião de oração e separei um tempo para orar por todos aqueles que foram afetados por este homem, que eu me recuso citar o nome, para que Deus possa dar forças a todos eles, a fim de enxergarem o amor de Cristo expressado na solidariedade que os cristãos em todo Brasil transmitem a eles.
E que a Paz de Cristo seja o árbitro em nossos corações.
Rev. Danilo Alves.

Frases de Albert Schweitzer.
“Um homem é verdadeiramente ético apenas quando obedece sua compulsão para
ajudar toda a vida que ele é capaz de assistir, e evita ferir toda a coisa que
vive”.
“Só são verdadeiramente felizes aqueles que procuram ser úteis aos outros”.
“Não há heróis da ação; só heróis da renúncia e do sofrimento”.
“Não devemos contentar-nos em falar do amor para com o próximo, mas praticá-lo”.
“A quem o sofrimento pessoal é poupado, deve sentir-se chamado a diminuir o sofrimento dos outros”.
“A tragédia da vida é o que morre dentro do homem enquanto ele vive”.

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