terça-feira, 26 de abril de 2011

TERCEIRA PARTE: O EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?

TERCEIRA PARTE: O EVANGELHO QUE PAULO JAMAIS PREGARIA. E VOCÊ, PREGARIA?

Para Ciro Sanches Zibordi, a doutrina da eleição incondicional é incompatível com a justiça divina, com a vontade divina em salvar toda humanidade, com a expiação universal, com a pregação e o amor divino. Para ele é inconcebível que o Deus Justo e amoroso tenha escolhido algumas pessoas dentre a humanidade caída e deixado as demais mortas nos seus delitos e pecados. A ideia é a seguinte: Deus é justo, portanto, Ele não pode escolher alguns para a salvação e rejeitar outros. Deus não faz acepção de pessoas, afirma Ciro. Com certeza Deus não faz acepção de pessoas, mas esta não é toda verdade. Isso parece bonito, tem um som agradável, carregado de piedade, mas padece de fundamentação bíblica. Essa afirmação merece uma averiguação mais acurada das Escrituras.

Para fundamentar o argumento a respeito do amor de Deus, Ciro evoca o testemunho de Atos 10. 34, que diz: “Então, falou Pedro, dizendo: reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas”. Como é perigoso tomar um versículo fora do contexto para justificar um ponto de vista teológico, cujos pressupostos estão fincados em areia movediça. O que o texto nos ensina é que não existem barreiras raciais para impedir a manifestação da graça salvadora. Depois do derramamento do Espírito Santo ao cumprir-se o dia de Pentecostes, a salvação extrapolou as muralhas geográficas de Israel (At 2). Após isto as rédeas foram tiradas das mãos dos judeus. Basta ler Atos 10 35, texto que vem logo a seguir ao que é citado por Ciro: “pelo contrário, em qualquer nação, aquele que teme e faz o que é justo lhe é aceitável” (At 10. 35). Mas, além disso, esse versículo não está ensinando sobre soteriologia, ou seja, sobre doutrina da salvação. Muito embora haja nele alguns elementos os quais fazem parte deste ensino. É preciso ficar claro, pois do contrário, esse texto estaria ensinando sobre a salvação pelas obras, algo que é combatido pelas Escrituras de Gênesis ao Apocalipse. Além do mais, o contexto do capítulo 10 ensina-nos que até aquele momento, o centurião romano chamado Cornélio, ainda não era salvo, porque a salvação não é pelas obras. Cornélio tinha várias prerrogativas religiosas e morais, mas, ainda assim, não era salvo. O exemplo desse homem é um excelente instrumento pedagógico para desconstruir os preconceitos raciais arraigados entre os judeus.

Ainda na tentativa de substanciar seu argumento acerca da incompatibilidade entre a eleição e a justiça divina, Ciro cita a pergunta feita pelo patriarca Abraão: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18. 26). Fico irritado ao ver essas argumentações descabidas e falaciosas, que pegam o texto e fazem dele “um nariz de cera”, isto é, tiram do seu contexto e colocam onde bem querem. Isso é infidelidade. Essa postura deve ser classificada como prostituição doutrinária. Claro que, de acordo com o texto dentro do seu contexto, Deus jamais executaria seu juízo ou a sua ira contra os justos. Podemos exemplificar isso com o justo Ló, Deus o tirou de Sodoma e Gomorra para que não fosse fulminado com os homens ímpios daquelas cidades. Portanto, esse versículo jamais deve ser tomado para justificar que a eleição incondicional é uma injustiça divina.

Na verdade, a eleição incondicional não é uma questão de justiça, mas de misericórdia. De justiça seria se Deus tivesse sentenciado todos os descendentes dos nossos primeiros pais à prisão perpétua, isto é, ao inferno. Existe injustiça da parte de Deus por te amado alguns e rejeitado a outros? A Escritura responde: “De modo nenhum” (Rm 9. 14). A verdade é que: “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9. 16). Ciro está equivocado em dois quesitos: primeiro na sua hermenêutica; segundo na sua compreensão da doutrina da salvação. Na hermenêutica, ele não respeita as normas elementares para interpretar as Escrituras. Na doutrina da salvação ele atribui à eleição a obra da fé, ou seja, uma pessoa só é eleita depois de crer e se arrepender. Isso é um desvio doutrinário. A Bíblia ensina que uma pessoa crê e se arrepende porque é eleita, e não o contrário. Deus não elegeu indivíduos porque previu que iriam crer, mas porque os elegeu, creram. Vejamos o que as Escrituras ensinam sobre essa verdade em Atos 13. 48 estar escrito: “Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna”. Aqui está escrito que as pessoas creram. Mas, quem foram as pessoas que creram? A Escritura afirma que foram as destinadas para a vida eterna. Elas foram destinas, e, por isso creram.

Um erro infantil cometido por Ciro é negar a eleição dizendo que, se houvesse eleição incondicional, se assim o fosse, não haveria necessidade de pregação. Ele se esquece ou desconhece a seguinte verdade bíblica: O Deus que escolheu pessoas para a salvação em Cristo, também é o Deus que escolheu os meios para alcançar os eleitos. Não há incoerência nisso. O eleito se encontra na mesma condição dos demais homens. Portanto, o instrumento de Deus para alcançá-lo é a pregação do evangelho.

Gostaríamos de elencar algumas razões pelas quais a eleição é extremamente compatível com a pregação: Primeira, porque a pregação é uma ordem de Cristo. Só essa verdade já seria motivo para não rejeitar a doutrina da eleição. Segunda, porque a Palavra é o instrumento gerador de fé. “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10. 17). Sem pregação não existe fé salvadora. O apostolo Paulo instruindo os crentes de Éfeso quanto à doutrina da eleição, afirma que, antes de serem selados com o Espírito santo da promessa, eles tiveram que ouvir apalavra da verdade, o evangelho da salvação, e além de ouvir tiveram que crer (Ef 1. 13). Terceira, porque é pela palavra e com a palavra que o Espírito Santo regenera ou efetua o novo nascimento numa pessoa (Jo 3. 5; 1Pe 1. 23). Quarta, porque Jesus orou dizendo: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra” (Jo 17. 20). Aqueles que hão de crer o farão por meio da palavra. Sendo assim, sem a pregação do evangelho não existe salvação. É por isso, que Cornélio teve que ouvir a palavra por meio da qual foi salvo (At 11. 14). Deus escolheu pessoas para salvação sim, mas também escolheu o meio para alcançá-las, a pregação

Portanto, esse evangelho foi pregado por Paulo após sua conversão, por toda sua vida e ministério. Seu ministério tinha como finalidade dentre outras coisas, o de promover a fé que é nos eleitos de Deus (Tt 1. 1). Por isso, não deixemos de pregar o evangelho pregado por Paulo. Não condicionemos à mensagem bíblica a nossa tendência humanista, que quer colocar o homem no centro de todas as coisas e destronar o Senhor, a quem pertence à salvação do seu trono. Não conspiremos contra os planos divinos.

2 comentários:

Pb.Valério Nascimento disse...

Rev.Fábio sua avaliação crítica desta obra mostra uma terrível realidade: analisar questões doutrinárias tendo como ponto de partida a Bíblia, mas mesmo assim,sem Bíblia. Este contra - senso foi analisado em seu texto no que diz respeito a hermenêutica. Alguém já disse que "a crise da igreja brasileira está fundamentada em um péssima interpretação da Bíblia".
Seu texto refuta com muita propriedade este devaneio e sendo honesto com os textos da Escritura. Sua preocupação e indignação são santas e proveitosas. Graças a Deus, pois tem levantado homens como você que não tem medido esforços para que se cumpra o propósito das escrituras, ou seja, Deus e não o homem falando por meio dela.

Anônimo disse...

Obrigado Valério por apreciar esses pequenos textos, bem como a relevância deles. Acredito que os maiores equívocos doutrinários ocorrem por conta da má interpretação, assim como de uma formação teológica distorcida.
Abs
Em Cristo, nosso comum Salvador e Senhor
Fábio Henrique