segunda-feira, 15 de novembro de 2010

CONSEVADORISMO: A NECESSIDADE DO EQUILÍBRIO

CONSERVADORISMO: A NECESSIDADE DO EQUILÍBRIO

Religião de poder é uma coletânea de artigos editados por Michael Scott Horton. Para essa compilação, ele requisitou vários autores de envergadura teológica singular. Dentre esses, o teólogo anglicano J. I. Packer, escritor renomado e contemporâneo. Packer tem dado uma contribuição ímpar para o evangelicalismo inglês, americano e brasileiro. Suas obras têm sido recebidas com muito apreço pela igreja brasileira. Em seu artigo, o conforto do conservadorismo, ele promove uma reflexão relevante e plausível sobre aspectos positivos e negativos do conservadorismo quanto à postura de alguns em relação à tradição teológica.

Antes de trabalhar sobre o assunto, o autor conceitua os termos conforto e conservadorismo. Segundo o autor a palavra conforto tem dois sentidos: o primeiro traz a ideia de revigoração e renovação das forças; o segundo traz a ideia pejorativa de comodismo e relaxamento. Da mesma forma, Packer afirma que existem dois tipos de conservadorismo. Para ele existe o conservadorismo criativo e o carnal. O primeiro é inteligente e luta bravamente contra a influência cultural, sem, contudo fechar os olhos à realidade contemporânea. O conservadorismo criativo convoca o povo a uma reflexão sobre o que está acontecendo no mundo com as lentes contemporâneas, mas com uma consideração daquilo que foi dito e feito na história da igreja. Esse jamais ignora o legado teológico. Já o segundo é cego. Ele busca ou faz apologia daquilo que é velho e convencional. Enquanto o conservadorismo criativo promove reflexão, faz leitura da atual circunstância sem rejeitar a herança da tradição, o carnal simplesmente se acomoda com e ao passado.

O conforto do conservadorismo apregoa um imobilismo, o qual deve olhar em todo tempo para o passado. Contudo, essa postura gera uma falsa sensação de bem estar, de segurança e de sapiência. Com isso, esse imobilismo é colocado sobre outras pessoas, o qual passa a exercer um papel tirânico sobre os demais. O argumento persuasivo dos tradicioneiros visa o acatamento de tradições de fé por pessoas adultas, mas que devem receber tais tradições sem nenhum senso crítico ou questionamento. No entanto, Packer não descarta o aspecto salutar da ortodoxia cristã, a qual deve ser recebida com responsabilidade e sob a autoridade autêntica. Dessa forma, o conforto do conservadorismo produz cristãos saudáveis e igrejas vibrantes.

A natureza da tradição cristã focaliza o estudo da tradição, bem como da sua compreensão positiva no século passado. Para isso, Packer destaca quatro pontos principais: a tradição caracteriza as comunidades; as tradições se iniciaram como atos contemporâneos, os cristãos se beneficiam e são vítimas da tradição e tradições seculares e religiosas do mundo se opõem e corrompem a tradição cristã. Todos os grupos têm suas tradições, as quais servem como fator identificador do mesmo. As tradições sempre começam como atos contemporâneos dentro de um contexto e em uma geração. Contudo, surgem também os extremistas. Alguns abraçam as tradições como inspiradas pelo Espírito Santo, outros se posicionam com absoluto desdém. Como existem tradições boas e más, logo somos beneficiados ou nos tornamos vítimas das mesmas. Portanto é preciso cautela. A tradição cristã esbarra sempre nas oposições das tradições religiosas e seculares. Por isso, a igreja precisa constantemente se contrapor aos ataques sutis destas tradições.

Como vimos toda tradição tem aspectos positivos e negativos. Ela pode ser boa, mas também pode ser má. A tradição cristã, a qual é avaliada pelo crivo da Escritura oferece benefícios. Packer destaca quatro: raízes, realismo, recursos e lembretes. Quem conhece a tradição descobre suas raízes, identidade e origem. Além disso, as raízes ressaltam os fundamentos. Outro benefício é a questão da realidade, pois o passado ajuda a fazer uma leitura do presente, bem como avalia a cultura, a mentalidade e sobre o futuro com uma percepção realista dos fatos. O terceiro benefício ensina que a tradição cristã é um precioso legado. Sendo assim, um recurso valioso para a geração contemporânea. Por fim, o benefício do lembrete pedagógico na questão do rememorar a geração militante sobre a história da tradição.

Embora a tradição cristã ofereça todos os benefícios supracitados, no entanto, ela pode cometer muitos abusos. Quando à tradição cristã absolutiza as formulações teológicas como sendo divinas e fechadas, não sujeitas as mudanças e aos questionamentos, ela comete um abuso quanto ao seu equívoco, pois inverte a ordem de valores. Essa percepção convenciona chavões e conceitos teológicos como se fossem inspirados e sacrossantos. Tal mentalidade rejeita todas as transições culturais que ocorrem entre ou no meio do podo de Deus em seu contexto histórico. Portanto, é um perigo e um abuso quando a tradição é colocada como o ideal de Deus em detrimento da Palavra. Por conta disso, todas as mudanças são recebidas e rechaçadas como sendo negativas e perniciosas. Esse tipo de postura quer domesticar o Senhor da história, quer limitá-lo em seu agir e quer condicioná-lo à tradição. Tudo isso serve para manipular as pessoas e exercer domínio sobre elas.

Packer conclui o seu artigo salientando que existe cura. Que alívio! Porque diagnosticar um problema sem oferecer solução é uma lastima. O conservadorismo criativo utiliza à tradição como recurso de contribuição disponível para ajudar na compreensão de verdades e situações. Ela não é autoridade última, nem final e nem absoluta. O antídoto exige três posturas: honestidade na autocrítica; humildade no juízo particular e integridade na ação moral. A autocrítica deve ser honesta. É preciso descobrir porque erramos, onde erramos e no que erramos. Além disso, a mudança precisa ser feita, mas precisa ser descoberta como deve ser feita. Tudo isso deve ser norteado pela honestidade. A segunda postura exige constância no exame da Escritura até que verdades obscuras fiquem claras. Contudo, o fator determinante não é o nosso intelecto orgulhoso. Por fim, a integridade na ação moral, a qual exige que ocorra um rompimento com a multidão, mesmo que essa seja cristã. De modo que o padrão de integridade do cristão é a Bíblia e não a legislação baseada na sabedoria humana.

Para Packer existem muitos evangélicos presos atualmente ao conforto do conservadorismo carnal. A igreja precisa fugir dessa armadilha. Ela precisa abraçar o conservadorismo criativo e inteligente. Ela precisa buscar a verdadeira renovação da fé reformada, a qual reconhece ser uma tradição, mas que se permite ser reformada, questionada e balizada pelo crivo da Escritura Sagrada.

Gostaríamos de salientar que, embora o artigo seja um texto pequeno, no entanto está inundado de riqueza intelectual e relevante reflexiva. Existem outros pontos que poderiam ser destacados nessa sucinta avaliação crítica, mas destacaremos apenas mais um: 1) O texto é uma convocação à reflexão crítica acerca do perigo de abraçar a tradição sem submetê-la a uma avaliação da Escritura, bem como o perigo de supervalorizá-la, ao ponto de comprometer a autoridade e suficiência da mesma. Contudo, o autor elaborou o seu artigo com equilíbrio, maturidade cristã, bom senso e sobriedade, pois sabe e reconhece o valor do legado da tradição teológica para a igreja cristã. Portanto, sem dúvida alguma, esse é um ponto que merece ser destacado. No mais, esse é um artigo que deve ser lido por toda liderança cristã, mas especialmente pela liderança herdeira da tradição reformada, para que a mesma não caia em ciladas da sapiência humana.