segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A SUPERIORIDADE DA ESCRITURA

A SUPERIORIDADE DA ESCRITURA
A Bíblia é a Palavra de Deus. Ela é a revelação proposicional, verbal e plena. As Escrituras são superiores a revelação natural e ao testemunho da consciência pela seguinte razão: nas Escrituras Deus revelou tudo quanto os homens precisam saber acerca da salvação.
A primeira seção da Confissão de Fé de Westminster registra essa verdade da seguinte forma: “Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, todavia não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade, necessário à salvação [...]”.[1] Vejamos a seguir cada um desses tópicos no que tange a superioridade da Escritura.
1) Ela é superior a revelação natural.
A revelação natural revela a grandeza de Deus, seu poder e glória, mas não transmite aos homens aquele conhecimento concernente à sua vontade e a salvação. Essa revelação coloca todos os homens numa situação de risco, pois eles ficam inescusáveis diante do Todo-poderoso.
Notem o testemunho da Escritura a esse respeito no Salmo 19:
“Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras até aos confins do mundo” (Sl 19. 1-4).
O salmo citado é um testemunho poderoso da revelação natural a respeito de Deus. Quando um homem olha para os céus, imediatamente ele está ouvindo uma mensagem em alto e bom som sobre a glória de Deus. A revelação natural é uma mensagem ouvida em toda a terra. Mas, mesmo diante do seu alcance universal, ela é insuficiente. Na Carta de Paulo aos Romanos, essa revelação segue essa mesma direção ao afirmar que:
“Porquanto, o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidas por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis” (Rm 1. 19, 20).
Lucas, no Livro dos Atos dos Apóstolos corrobora e fortalece ainda mais essa verdade ao destacar que a obra da providência também se enquadra na esfera da revelação natural. Observe o que diz o texto: “Contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria” (At 14. 17). Dr. Martyn Lloyd-Jones afirma que, “Todas essas afirmações nos lembram que Deus, antes de tudo, deixou suas marcas, suas impressões, na natureza e na criação; [...]. Tudo quanto foi criado é em si mesmo uma revelação de Deus”.[2]
Que Deus se revelou por meio da criação e da obra da providência é uma verdade factual. Os textos citados ensinam sobre a revelação natural de Deus na história, bem como por intermédio da obra da providência, mas ela não descortina para os homens sobre aquele conhecimento necessário a salvação em Cristo. Vejamos agora, o segundo ponto que também é inferior a revelação escriturística, mas que também consiste num instrumento da revelação divina.
2) Ela é superior ao testemunho da consciência.
A teologia reformada entende que além de Deus se revelar por meio da criação, ele também se revela por meio da consciência humana. O senso da divindade foi esculpido na alma de cada homem,[3] afirma o reformador João Calvino. Existe dentro do homem, ou se você prefere, na sua consciência, uma lei gravada. As Escrituras afirmam que,
“Quanto, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se” (Rm 2. 14, 15).
No capítulo anterior, versículo trinta e dois, temos uma boa ilustração do que foi dito acerca dessa verdade: “Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais cousas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem” (Rm 1. 32). Como eles sabem que são passíveis de punição? Obviamente por causa do testemunho da consciência.
O Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança é um ser moral, e um dos aspectos da imagem e semelhança de Deus nos homens é o elemento moral, o qual está gravado em cada indivíduo de modo pessoal e particular. A Bíblia chama de lei moral esse elemento. A lei é uma testemunha divina no espírito dos seres humanos. Conforme afirma Anglada, a lei é um padrão moral impregnado na consciência humana.[4] Lloyd-Jones afirma que em toda a raça humana existe a consciência da presença de Deus.[5]
Até aqui vimos o testemunho escriturístico sobre a inferioridade da revelação natural e do testemunho da consciência, em relação à revelação da Escritura ou como é conhecida na teologia, a revelação especial. Agora vejamos um exemplo nas Escrituras que solidifica esse ponto.
O caso que quero examinar com você se encontra no Livro de Atos, no capítulo 10. Trata-se de Cornélio, o centurião da corte chamada Italiana. Esse homem era um religioso excepcional. Ele temia a Deus, era piedoso, fazia caridade e de contínuo, orava a Deus. A Bíblia diz que Cornélio teve um encontro com o sobrenatural, pois viu um anjo do Senhor durante uma visão (At 10. 2, 3). Cornélio tinha todas essas prerrogativas religiosas, mas não era salvo.
O contexto posterior do texto supracitado nos ensina que no dia seguinte, isto é, um dia depois de Cornélio ter tido uma visão de um anjo, Pedro teve uma visão do céu aberto e de uma coisa como um lençol grande que baixou até a terra. Diz o texto que havia uma variedade imensa de animais dentro do “grande lençol”. Nesse ínterim, o apóstolo ouviu uma voz que dizia: “Levanta-te, Pedro! Mata e come” (At 10.13). Mas, Pedro retrucou e disse “[...] jamais comi cousa alguma comum e imunda” (At 10. 14). Mas, a voz lhe disse a mesma coisa pela segunda vez, todavia com um acréscimo: “Ao que Deus purificou não consideres comum” (At 10. 15). Isso aconteceu por três vezes consecutivas.
Pedro relutou por um bom tempo, mas foi vencido por Deus. Mais adiante ele explica como isso se deu: “Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que nenhum homem considerasse comum ou imundo; por isso uma vez chamado vim sem vacilar [...]” (At 10. 28, 29), pois “Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas”, disse Pedro (At 10. 34).
A Bíblia afirma que, enquanto Pedro estava perplexo, tentando decifrar o enigma, eis que os mensageiros de Cornélio chegaram à sua procura, bem como de sua casa. “Enquanto meditava Pedro acerca da visão, disse-lhe o Espírito: Estão aí dois homens que te procuram; levanta-te, pois desce e vai com eles, nada duvidando; porque eu os enviei” (At 10. 19, 20). E mais diz o texto:
“E descendo Pedro para junto dos homens, disse: Aqui me tendes; sou eu a quem buscais? A que viestes? Então, disseram: O centurião Cornélio, homem reto temente a Deus e tendo bom testemunho de toda a nação judaica foi instruído por um santo anjo para chamar-te a sua casa e ouvir as tuas palavras” (At 10. 21, 22).
Quando Pedro chegou a Cesáreia, na casa de Cornélio, onde estava um grupo de pessoas aguardando a chegada do apóstolo para ouvirem a mensagem, ele não perdeu tempo, fez uma belíssima exposição do evangelho. No seu sermão havia uma conexão entre os fatos ocorridos em Jerusalém referentes à crucificação, morte e ressurreição de Cristo e as Escrituras proféticas (At 10. 36-43). Antes de continuar, leia esses versículos citados. O que esse caso nos ensina? Ensina-nos que a revelação especial é infinitamente superior à revelação natural, ao testemunho da consciência e aos fenômenos sobrenaturais. Isso fica claro à luz do contexto geral das Escrituras, mas em especial nesse contexto.
Mais tarde, Pedro teve que prestar um relatório minucioso aos demais apóstolos em Jerusalém, e, então descobrimos o porquê da superioridade das Escrituras. Elas revelam tudo que precisamos saber concernentes a salvação. Veja o que diz o texto: “o qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa” (At 11. 14). Isso fica ainda mais evidente nas palavras do Senhor Jesus Cristo, em sua oração sacerdotal: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra” (Jo 17. 20). É por meio da pregação da Palavra que os homens chegam ao conhecimento salvífico. Portanto, as Escrituras são superiores à revelação natural, a qual se dá por meio da criação e da obra da providência, e também superior ao testemunho da consciência.

[1] Confissão de Fé de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 1994. p. 3.
[2] LLOYD-JONES, Martyn; Grandes Doutrinas Bíblicas: Deus o Pai, Deus o Filho. São Paulo: PES, 1996. p. 26.
[3] CALVINO, Juan; Institución de la Religión Cristiana, Tomo –I. Barcelona – Espana: FELiRE, 1999. p. 9.
[4] ANGLADA, Paulo; Introdução à Hermenêutica Reformada. Ananindeua-PA: Knox Publicações, 2006. p. 127.
[5] LLOYD-JONES, Martyn; Grandes Doutrinas Bíblicas: Deus o Pai, Deus o Filho. São Paulo: PES, 1996. p. 22.

4 comentários:

claudio disse...

O pastor disse que iria escrever texto menores, ainda nao consegui ler todo, abraços

Anônimo disse...

Querido Cláudio,
boa tarde. Amado, eis aqui um assunto q não tem como escrevê-lo em uma página apenas. Mas, quero lhe encorajar a lê-lo todo. Abs. Em Cristo, nosso comum Salvador e Senhor,

Rev. Fábio Henrique

Anônimo disse...

Estou muito feliz em ver o quanto o senhor tem crescido no seu ministério.Tem sido uma honra poder desfrutar de suas mensagens tão ricas e abençoadoras.Deus o abençoe pastor.Rita

Fábio Henrique disse...

Rita,
muito obrigado pelas palavras e sincero carinho. Você e Tião são bênçãos de Deus em minha vida, família e ministério. Deus te abençoe abundantemente. Abs. Em Cristo, nosso comum Salvador e Senhor,

Pr. Fábio Henriqu